Aquele supermercado, de novo

Um dia desses eu estava fazendo compras de emergência naquele supermercado péssimo perto de casa, esperando para pagar pelo meu ridiculamente caro ramo de cebolinhas + quatro cabeças de alho + um pacote de cenouras congeladas, que eram os únicos vegetais minimamente decentes à venda, quando alguém atrás de mim me fala “shalom!”. Levei um susto, né, porque as pessoas do meu próprio prédio não respondem “shalom” quando eu falo “shalom” para elas, e de repente tem alguém me falando “shalom” no supermercado? Virei para trás para ver quem era, e era um menino que fez ulpan comigo – um dos últimos alunos a se juntar a nós, na fase final, já. Não tive muito contato com ele, mas sei que ele era um dos melhores alunos da sala, se não o melhor. (Não tenho ideia de como – se ele já mora em Israel há um tempo, ou se ele tinha aulas de reforço depois do ulpan, ou se ele tem aquelas memórias fotográficas de gente que decora 700 cartas de baralho seguidas -, mas ele parecia ter a resposta correta para tudo que a professora perguntava!)

Enfim, virei para ver quem era e era ele, falei “oh, olá, Fulano, como vai?”, trocamos umas palavras em hebraico, e eu já começando a suar, porque não converso em hebraico desde o fim do ulpan, e chega a minha vez no caixa. Só sei que a experiência de falar com a caixa do supermercado, que já era ruim, ficou ainda pior sabendo que tinha alguém do ulpan observando tudo. Contei pro Alex depois e ele disse “ué, acho que se fosse comigo, eu ficaria mais tranquilo, afinal é uma pessoa que está na mesma situação que você e que sabe como é difícil falar em hebraico”, MAS AQUI É ANSIEDADE, MANO, eu fiquei pensando em como ele devia estar julgando se eu ia entender de primeira o valor final da compra, ou se eu ia gaguejar pedindo uma sacola, ou se eu ia desistir e falar com a moça em inglês mesmo, no fim eu dei uma nota de cem pra pagar uma conta de vinte e tantos sendo que eu tava cheia de dinheiro trocado no bolso que eu tinha colocado lá justamente porque queria gastar as minhas moedas soltas, daí a moça me deu mais um monte de trocado e um monte de moedas, eu enfiei tudo no bolso, catei minhas coisas, falei tchau e saí correndo.

Retrospectiva do ulpan: cinco meses de aulas de hebraico resumidos em 20 gifs

O ulpan aleph terminou na semana passada, e eu me dei uns dias de férias antes de começar a procurar outro curso de hebraico. Não escrevi o diário de bordo do ulpan do último mês porque a maioria do conteúdo acabou sendo de revisão para as provas finais – nas quais eu fui muito bem, obrigada; mas eu quero deixar marcado este capítulo da minha vida, então segue um post especial de gifs, porque sim.

(Gifs: reprodução)

1. Indo para o primeiro dia de aula na escola de hebraico:

Tão inocente.

2. Vendo que 99% da escola só fala russo, mas tudo bem, porque assim vai dar para aprender dois idiomas de uma vez só:

Tão, tão inocente.

3. Percebendo que você não aprender russo coisa nenhuma, que você só vai ficar sozinha com cara de bunda enquanto as pessoas ao seu redor falam em russo, escrevem em russo, riem em russo, vivem em russo:

#foreveralone

4. Quando a professora vai ensinar a contar de um a dez em hebraico, e de repente a sala toda começa a contar junto, porque eles já estudaram hebraico antes de vir para Israel e você é a única que ainda não sabe contar:

Achat, shtaim, shalosh.

5. Dando aquela choradinha básica no banheiro da escola porque você não entende seus colegas, não entende a professora e não tem amigos:

Quem nunca?

6. Chegando em casa e desabafando tudo no blog, porque você se expressa melhor escrevendo do que falando:

Leia mais posts na tag “ulpan“.

7. Se jogando nos estudos porque é o que dá pra fazer, né:

8. Quando toca uma música em hebraico na rádio e você entende uma palavra pela primeira vez:

A emoção!

9. Quando você entende uma frase inteira:

10. Recebendo o resultado de uma prova importante e vendo você foi melhor do que muitos alunos que estudaram hebraico antes de vir para Israel:

Digdin, digdin, digdin.

11. Toda vez que a professora faz revisão de um assunto e pergunta o que é a palavra “xis”, e você tem certeza que estudou essa palavra na semana passada, mas não consegue lembrar o que é:

A arte de confundir “machshev” (“computador”) com “michtáv” (“carta”), com “misrád” (“escritório”), com “messibá” (“festa”), com “missadá” (“restaurante”).

12. Na primeira vez que rola quebra-pau na sala porque os alunos não chegam a um consenso sobre qual a tradução exata de uma palavra “xis” do hebraico para o russo:

13. Na septuagésima terceira vez que rola esse mesmo quebra-pau:

14. Aprendendo a conjugação de verbos irregulares no passado:

15. Aprendendo a conjugação de verbos irregulares no futuro:

16. Tentando memorizar todos os pronomes que existem em hebraico:

17. Quando você descobre que não pode fazer o ulpan bet, mesmo depois de ter estudado pencas e batalhado para se tornar uma das melhores alunas da turma:

Voltei pra casa chorando nesse dia. Escrevi sobre isso neste post.

18. No último mês de aula, quando o merecido descanso está quaaase ali, tão perto mas tão longe:

Férias… quaase… quaaase…

19. Quando o curso finalmente termina, e você acha que vai se despedir dos seus colegas de sala assim:

Who’s bad?

20. Mas na verdade acaba se despedindo assim:

#coraçãodemanteiga.

Cansaço de comprar leite

Outro dia eu estava conversando por WhatsApp com uma pessoa no Brasil, e ela me perguntou sobre as coisas em Israel, e eu larguei um desabafo que ela visualizou a mensagem e nunca mais me respondeu.

Bem cansadas, é como estão as coisas em Israel.

Eu falo um pouquinho de hebraico, mas um pouquinho não é o suficiente num país onde as pessoas não têm paciência para nada. No começo, quando alguém me perguntava algo na rua, eu não conseguia nem terminar de dizer “slihá, ani lo medaberet ivrit” (“desculpe, eu não falo hebraico”), porque no meio da frase o serumani já estava virando para ir embora. Atualmente, se alguém me pergunta algo falando devagar, eu até consigo responder direitinho em hebraico, mas ninguém fala devagar, mesmo quando você pede para falarem devagar, ou seja, eu não consigo responder.

As pessoas aqui não são simpáticas ou polidas nem com outros israelenses, imagina com a forasteira que pede para repetir as coisas três vezes.

O supermercado é o pior lugar. Sabe aquele pesadelo da infância de quando a sua mãe te deixava na fila do supermercado para pegar outra coisa e ia chegando a sua vez e ela não aparecia? Essa é a minha vida com o Alex indo pegar mais um saco de batatas quando a gente está quase na boca do caixa.

Mas pelo menos quando vamos juntos, se eu não entendo alguma coisa, ele me ajuda. Quando eu vou sozinha, só me resta levar patada de atendente pé na porta. Tava conversando com uma colega do ulpan, e é isso: cada ida ao supermercado é um desgaste, a gente sai pra comprar um leite e volta pra casa esgotada. A gente não conhece nenhuma marca e não consegue ler os nomes dos produtos ou a lista dos ingredientes, então cada idinha ao mercado é pelo menos meia hora de pesquisa no Google Translate; sem contar o constante estado de atenção e tensão, aquele nervoso de alguém falar com a gente e a gente não conseguir responder.

E no meu caso, tem mais essa: não basta eu me sentir deslocada, assim, nessa sensação só minha, por dentro; as pessoas fazem questão de apontar o dedo. Eu acho vou ter um treco da próxima vez que alguma criança (criança criança ou criança adulta) olhar para mim e falar “IAPÁÁÁÁNNN!”.

Sendo turista em Israel quando você não é turista em Israel

Já faz algumas semanas que, na sala de aula, a gente tem feito exercícios preparativos para a prova final do ulpan, que acontece no mês que vem. Um dos temas que a gente sabe que vão nos perguntar, e que por isso temos treinado tanto a escrita quanto a fala (sim, a prova final inclui um teste oral com a diretora da escola), é: “o que você pretende fazer depois de terminar o ulpan?”. A minha resposta está na ponta da língua desde o primeiro dia: “eu vou fazer o ulpan bet” – que é o segundo nível do curso intensivo de hebraico para novos imigrantes. Eu sei que é pouco realista achar que vou conseguir um emprego na minha área aqui em Israel, mas se for para ter uma mínima chance, eu ainda preciso estudar muito o idioma; então aprimorar o hebraico é a minha prioridade pelo menos até o próximo ano.

Pois no domingo passado estávamos de boa na classe, estudando o hebraico nosso de cada dia, quando veio uma mulher do gabinete da prefeitura que cuida dos novos imigrantes, para dar um recado. Em russo. Falou, falou, falou, em russo, daí os alunos fizeram algumas perguntas, em russo, e ela respondeu, em russo (leitura complementar no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Em um dado momento, a minha professora, que já sabe que eu tenho a intenção de continuar estudando, virou para mim e perguntou baixinho, em inglês: “você quer informações sobre o ulpan bet? Ela tem as informações, e acho que ela fala inglês”. Eu disse que sim. A mulher já estava virando para ir embora quando eu levantei a mão e pedi, “com licença, em inglês também, por favor”. Ela parou na porta e ficou me olhando, até que a professora explicou, em hebraico, que eu queria informações sobre o ulpan bet. Então a mulher respondeu algo em hebraico que a professora me traduziu para o inglês como: “você não pode fazer o ulpan bet porque ele é só para novos imigrantes”.

A situação é: eu não sou considerada imigrante em Israel. Pelo que entendi, a palavra “imigrante” nem existe em hebraico.

Se você é um judeu de mudança para Israel, você é um “oleh” (ou “olah”, no feminino). A palavra significa “ascendente”, e é o termo usado aqui para designar as pessoas que fizeram a “aliá” – a imigração judaica garantida pela Lei do Retorno. Diz a Wikipédia: “A Lei do retorno é uma das mais importantes leis do Estado de Israel já que concede o direito de residência e cidadania a qualquer judeu, originário de qualquer país do mundo, que deseje emigrar para o território israelense – sendo que esse direito é extensivo aos seus descendentes não judeus até a terceira geração (filhos e netos, bem como os respectivos cônjuges e filhos menores). A lei foi adotada pelo Knesset em 1950 (dois anos depois da proclamação do Estado de Israel) e declara que o país constitui um lar não apenas para os habitantes do território israelense, mas também para os judeus de todo o mundo, quer vivam em pobreza e medo das perseguições, quer vivam uma vida com afluência e segurança”.

Quem faz a “aliá” tem direito a uma série de benefícios, entre eles: assistência e consultoria com toda a parte burocrática da mudança; passagem de ida para Israel; o seu próprio teudat zehut, que é a carteira de identidade nacional, pronto para ser retirado no aeroporto logo após o pouso do avião; assistência financeira durante os seis primeiros meses no país, com possibilidade de extensão caso a pessoa não esteja empregada ao fim desse período; até 12 meses de seguro médico; estudos de graça no ulpan aleph. Tem muitas outras coisas – segue o link com a descrição completa.

Para ter uma base de comparação, se você é um não-judeu de mudança para Israel, esta é a sua lista de benefícios:

Gif: reprodução

Duas observações a respeito da minha experiência: 1) sobre o meu teudat zehut, eu não tenho nem a informação de quando vou recebe-lo. O meu processo está correndo desde o começo do ano, assim que realizamos nosso casamento civil no Brasil, e as coisas estão se desenrolando “leat, leat” (“devagar, devagar”), como se diz por aqui. Na primeira vez que fomos ao Ministério do Interior para checar o status da minha documentação, a resposta da funcionária foi “voltem em três meses pra gente ver como está [o seu casamento]”. 2) sobre o ulpan aleph, que é o que eu estou cursando agora, eu paguei uma taxa de 3 mil shekels (2.773,18 reais) no ato da matrícula. Na minha turma, as únicas pessoas que pagaram essa taxa fomos eu e a aluna do Japão; todos os outros alunos são judeus e fizeram a “aliá”.

Na sala de aula, quando fazemos exercícios do tipo “fale sobre você”, que é um tema que vai cair na prova final do ulpan, todos os alunos falam “Meu nome é Fulano, sou um oleh radash da Ucrânia”. Eu não possuo status, então a minha frase de apresentação é “Meu nome é Sarah, sou uma turista do Brasil”.