Alarme falso

Eu sempre falo pras pessoas que eu me sinto mais segura em Israel do que no Brasil, porque aqui a gente não lida com o medo diário de coisas como furto, assalto, sequestro, assédio. Mas eu também não esqueço que eu moro onde moro, e já passei por alguns sustos por isso.

Em várias ocasiões, sozinha em casa, eu achei que as sirenes de ataque aéreo estavam disparando. Mas foram sempre sustos rápidos, durante dois ou três segundos em que eu paro de respirar para prestar atenção ao barulho, percebo que era apenas um vento forte, e relaxo.

Hoje foi a primeira vez que eu me enganei por tempo suficiente para fazer algo a respeito.

Eu estava sentada no sofá brincando com a Kitty quando escutei o que parecia ser a sirene. Esperei dois ou três segundos até o “vento” passar, mas, em vez disso, o som fez uma ondulação e seguiu constante. Meu coração parou. “É a sirene!!”, pensei. Em movimentos de escavadeira, botei as mãos por baixo da gata, a levantei pro meu colo, segurei com os dois braços e corri pro mamad, que é o quarto de segurança reforçada onde você deve se abrigar em caso de ataque aéreo.

Estava tentando abrir a porta – que é pesadíssima, por sinal – sem derrubar a Kitty quando percebi que o barulho tinha parado. Mais um alarme falso. Era só o vento de novo, aparentemente.

A gata ficou sem entender nada.

UPDATE 16h10: acabei de ler no jpost.com que a sirene de ataque aéreo soou hoje de manhã, sim. Não foi o vento. Foi um alarme programado (aparentemente com pouca antecedência, porque a reportagem do “The Jerusalem Post” foi publicada às 6h22 e eu pulei do sofá com a Kitty nos braços às 10h05) para testar o novo sistema nacional de ativação da sirene.

O queijo mais fedorento que eu já tive o desprazer de cheirar

Este é um texto meio aleatório. Ele deveria ter sido publicado no meu Instagram de comida (@leejwsarah), mas eu não fiz a foto para ilustrar o post, por isso estamos aqui.

Na última vez que o Alex foi à Espanha, ele me trouxe de presente quatro pacotes de presunto ibérico e uma sacola com uma coisa dentro. Meus olhos brilharam quando vi aquele monte de presunto – “meu Deus, como esse homem me conhece bem!”, eu pensei, e, depois de abraçar cada pacote, eu fui ver o que tinha na sacola.

Eu abro a sacola.

Eu boto o rosto perto da sacola.

E, diretamente do fundo da sacola para o meio da minha fuça, me vem uma rajada de cheiro de bosta.

Eu juro. Eu juro que eu pensei que o Alex tinha me dado um saco de cocô.

Era um queijo, gente. Um queijo pequeno, amarelo, arredondado, e extremamente fedorento.

Eu fechei a sacola, dei todos os nós que dava para dar, e botei a maldita no fundo da geladeira.

Isso já faz três semanas.

Hoje eu estava terminando de fazer o jantar – arroz frito com molho de tomate -, quando tive a inspiração de que um queijinho derretido por cima ficaria ótimo.

Mas não tinha queijinho em casa. Só tinha o queijo fedorento.

Pensei comigo mesma. “Dá uma chance pro queijo fedorento, Sarah Lee. Deixa de ser fresca. Aposto que nem era tão fedorento assim. É que estava muito cedo, você tinha acabado de acordar. E mesmo se for. E daí? Queijos fedorentos são os melhores queijos – ou é o que os franceses dizem, eu acho. Você ama queijo. Você vai jogar o queijo fora sem nem experimentar?”

Eu resgato a sacola do fundo da geladeira.

Eu abro a sacola.

“AARRGGHH!”

[respira pela boca]

O queijo tem uma casca ocre que, eu desconfio, é a responsável pelo fartum de fezes. Pego a faca na mão direita e começo a remover as bordas. Com o indicador e o dedão da mão esquerda, eu seguro o queijo cuidadosamente em cima do prato.

(O indicador e o dedão da mão esquerda estão cheirando a merda até agora. O fedor é imune a sabonete e álcool gel.)

Coloquei um pedacinho em cima do arroz e sobrevivi ao micro-ondas, mas tive que comer controlando a respiração.

Guardei o resto num pote hermético. O Alex não estava em casa, e eu não queria jogar o queijo fora sem pelo menos oferecer pra ele.

O Alex chega do trabalho. Eu aviso que tem comida pronta e que eu finalmente abri o queijo da Espanha. Falo pra ele pegar o pote na geladeira se ele quiser comer.

Ele pega o pote.

Ele abre o pote.

“THIS SMELLS LIKE POOP!!!”

Pessach em Israel é uma semana low carb meio confusa

Eu pedi pro Alex ir ao supermercado na frente de casa para comprar um pacote de macarrão enquanto eu ia fazendo um molho pro jantar, e ele foi… mas voltou menos de um minuto depois, porque ele tinha lembrado de uma informação que me abalou as estruturas: “o supermercado não está vendendo macarrão nesta semana”, ele disse.

Eu: – QUÊ?

Alex: – É, eles não estão vendendo macarrão, pão, nada do tipo.

Eu: – QUÊ??

Alex: – Essas coisas não estão nem à mostra. As prateleiras de macarrão estão escondidas debaixo de uns plásticos.

Eu: – QUÊ???

Estamos na semana de Pessach em Israel. Pessach é o feriado judaico que celebra a história do Êxodo contada na Bíblia hebraica, segundo a qual os israelitas foram libertados, por Deus, da escravidão no Egito. A história conta que quando o Faraó finalmente deu licença para os israelitas partirem, eles foram com tanta pressa que não puderam esperar que a massa do seu pão subisse (fermentasse). Por isso, a cada ano, durante o Pessach, os judeus religiosos não comem pão fermentado. Na verdade, eles não comem nenhum “chametz”, que é qualquer coisa feita com um de cinco tipos de grãos misturado a água e deixado descansando por mais de 18 minutos.

Até aqui é simples; estamos falando apenas de religião. Mas aí entra a política, afinal de contas, aqui é Israel, que se define como Estado judaico. Existe uma lei israelense, criada em 1986 e conhecida como a Lei Chametz, que estabelece que durante o Pessach é proibida a exibição pública de chametz para venda ou consumo.

Teoricamente, a lei não proíbe a venda daquele macarrão escondido debaixo do plástico. Mas aí entra mais religião, afinal de contas, aqui é Israel, que é o único Estado de maioria judia do mundo. E a lei judaica diz que “judeus não podem possuir, comer ou se beneficiar de chametz” durante o Pessach.

O que isso significa na prática? Que se o dono daquele supermercado na frente da sua casa for um judeu religioso, ele (e o supermercado dele) não pode possuir chametz durante o Pessach. Então o que ele faz com aquelas prateleiras cheias de macarrão? Ele dá um jeitinho (ou um jewtinho, hehe). Ele vai e vende todo o estoque de chametz para um não-judeu antes do Pessach. Então durante o Pessach, teoricamente, aquele chametz escondido debaixo do plástico não é dele – e, portanto, não pode ser vendido para você, consumidor com vontade de comer macarronada. Só depois do Pessach é que o dono do supermercado compra o chametz de volta do amigo não-judeu, e a vida segue.

O próprio Estado de Israel adere a essa prática da venda-e-compra de chametz. Todos os anos, o chametz de empresas estatais, do sistema presidenciário e do estoque nacional de suprimentos de emergência de Israel é vendido a um árabe-israelense chamado Hussein Jabar. Em ato cerimonial com gente do alto escalão do governo, ele assina um contrato que estipula o pagamento de uma entrada de 14 mil dólares. Ele paga essa quantia e o chametz passa a ser dele – até o fim do Pessach, quando ele precisa terminar de pagar o valor total do contrato, que é de 300 milhões de dólares. Se essa quantia não for paga (e obviamente ela nunca é paga), o chametz volta às mãos do Estado de Israel e os 14 mil dólares da entrada voltam às mãos do Hussein Jabar.

+ Gente, este post é uma tradução adaptada de uma coisa que eu publiquei ontem no meu Instagram @leejwsarah. Se você tem interesse em assuntos de comida e tem paciência para ler longos textões em inglês, me segue lá :)

Coisas que fazemos quando estamos desempregadas: KonMari no guarda-roupa

Já faz um tempinho que eu queria dar uma geral no guarda-roupa, e, depois de assistir a uns episódios de “Ordem na Casa”, no Netflix, me veio a inspiração. Para quem não conhece, “Ordem na Casa” é um programa onde a Marie Kondo, japonesa que é a papisa fofinha da organização pessoal, vai até a casa das pessoas ensinando o método KonMari que ela mesma desenvolveu.

O método KonMari tem seis regras básicas, que são:

1) Comprometa-se com a arrumação
2) Visualize o seu estilo de vida ideal
3) Termine de descartar o que precisa ser descartado antes de seguir para outras coisas
4) Organize por categoria, não por localização
5) Siga a ordem correta
6) Pergunte a si mesmo: isso desperta alegria? (em inglês: “does it spark joy?”)

As categorias citadas na regra número quatro são: roupas, livros, papeis, itens aleatórios, e, por último, itens sentimentais. A regra número cinco fala para seguir essa ordem porque assim o “alegrômetro” vai ficando apurado para quando chega a vez dos itens sentimentais, e deu certo para mim porque roupas são a primeira coisa que eu queria arrumar mesmo.

Na série que passa no Netflix, o primeiro passo da arrumação das roupas é juntar tudo o que a pessoa tem e botar numa pilha só. Todas as roupas espalhadas pela casa, em gavetas, prateleiras, araras… tudo. Depois, é segurar peça por peça e perguntar: “isso desperta alegria?”. O que for “sim” vai pra um lado. E o que for “não”? É mais interessante. A Marie Kondo instrui que a pessoa não deve simplesmente tacar a peça no lixo, mas agradecer a peça, tipo “obrigada pelos seus serviços”, e só então coloca-la com cuidado na pilha do “não”. No fim, é dobrar tudo bonitinho – ela tem um método próprio para isso também – e arrumar os “sim”s no guarda-roupa e dar um fim aos “não”s.

O que funcionou para mim

Todas as minhas roupas empilhadas em cima da cama. Does it spark joy? Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

– Eu gostei da ideia de botar todas as roupas em uma pilha só. Acho que como fica tudo espalhado, a gente perde a noção de quanta coisa a gente tem. No meu caso o impacto não foi grande porque eu não tenho tanta roupa assim (especialmente para uma ex-jornalista de moda), mas eu acho a ideia boa. É tipo quando a mulher daquele reality de dieta You Are What You Eat botava tudo que a pessoa come em uma semana de uma vez, em cima de uma mesa gigante. É o choque de ver tudo junto.

– Segurar peça por peça faz sentido porque você presta mais atenção. Além da questão do “desperta alegria?”, você nota o tecido, a cor, a modelagem, e toma tempo para pensar se ela ainda faz sentido no seu guarda-roupa.

– Agradecer as peças que você não vai mais usar é o grande trunfo do método KonMari. Eu acho que quando a gente arruma o armário, muita coisa que deveria ir embora acaba ficando porque a a gente se sente culpada em se desfazer da peça. “Ah, esse vestido me acompanhou em tantas festas boas” – e fica lá o vestido que já tá quase transparente de tão gasto. “Ah, essa camiseta que era a minha favorita durante a faculdade” – e fica lá a camiseta com o sovaco amarelo impossível de lavar. A abordagem da Marie Kondo é inteligente porque te fazer reconhecer que aquela peça te serviu bem, e que está na hora dela partir, e que você pode fazer isso com o coração leve.

O que não funcionou para mim

– Eu acho que a pergunta “isso desperta alegria?” não funciona sozinha como indicativo do que deve ficar e do que deve sair do guarda-roupa. Talvez dê certo na última categoria, de itens sentimentais, mas para roupas, que é um negócio muito prático, não adianta só a peça te despertar alegria. Por exemplo: eu tinha vários itens lindos no meu armário que eu nunca escolhia para vestir, mas que me despertavam alegria, porque, como eu disse, eles são lindos. Durante a arrumação, eu fiz questão de experimentar todas essas peças que eu não uso faz tempo, e, surpresa!, várias delas já não cabem mais em mim, porque eu engordei uns quilos nos últimos dois anos. Eu acho que, com roupa, a gente tem que ser muito honesta com a gente mesma. “Eu vou fazer alguma coisa para perder peso e voltar a caber nessa saia? Não? Então ‘obrigada, saia, você foi boa para mim, agora está na hora de você ir vestir outra pessoa’.”

Ao final do processo, as peças do “sim” voltaram pro armário. Estas são as minhas calças (e uns vestidos), dobradas do jeito que a Marie Kondo sugere, para ficarem assim “em pé”. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Para terminar, só quero deixar aqui este tweet maravilhoso:

Caderno de quotes de livros: The Graveyard Book

Acho que o Neil Gaiman estava empatado com o George R. R. Martin na minha lista de autores cujos livros eu mais li; mas com as leituras que tenho feito pro curso dele no MasterClass, o Neil está agora isolado no topo. Só de títulos listados aqui no caderno de quotes de livros, são cinco, contando com este, e ainda tem os que eu li antes de começar o blog.

Gostei muitão de “The Graveyard Book”. Ele me deixou com uma vibe de “poxa, eu queria ter escrito esse livro”. Talvez seja o meu preferido do Neil Gaiman. Fiquei apegada ao Silas, e confesso que dei uma choradinha quando a história estava chegando ao fim. Algumas aspas para ficar registrado:

“’You are ignorant, boy,’ said Miss Lupescu. ‘This is bad. And you are content to be ignorant, which is worse.’” (p. 71)

“’You’re alive, Bod. That means you have infinite potential. You can do anything, make anything, dream anything. If you change the world, the world will change. Potential. Once you’re dead, it’s gone. Over. You’ve made what you’ve made, dreamed your dream, written your name. You may be buried here, you may even walk. But that potential is finished.’”. (p. 179)

“Fear is contagious. You can catch it. Sometimes all it takes is for someone to say they’re scared for the fear to become real.” (p. 188)

“People want to forget the impossible. It makes their world safer.” (p. 289)