Do you didgeridoo?

Eu estava assistindo ao primeiro episódio de Cooked no Netflix quando reconheci o som de um didgeridoo na trilha sonora de uma cena. E meio que dei risada sozinha, lembrando por que raios eu consigo reconhecer o som de um didgeridoo: porque eu fui estagiária do Daniel Ribeiro, que chegava na redação com ideias do tipo “vamos fazer uma reportagem sobre o instrumento musical tradicional dos aborígenes australianos?”. E eu dizia “vamos!”. <3

Enfim, a reportagem sobre o instrumento musical tradicional dos aborígenes australianos desapareceu da internet porque aquele site onde a gente trabalhava não existe mais; mas o conteúdo vive para sempre no meu coração – e nos meus arquivos de Word, porque eu tenho síndrome de esquilo e sempre guardo tudo de tudo, achando que um dia vou precisar.

Encontrei o texto na íntegra, até com as marcações de onde entravam as fotos. Fica aí a lembrança de tempos felizes (e uma singela homenagem ao Serginho Tchernev, gente boníssima que entrevistei pra essa matéria, que morreu na tragédia da região serrana do Rio, em 2011).

Do you didgeridoo?

Não entendeu o título? Calma que a gente te explica

FOTO 1

O didgeridoo é um instrumento de sopro tradicional das tribos aborígenes do norte da Austrália. Agora você pensa: “ahn, mas então é por isso que eu não conhecia! Ninguém conhece esse negócio!”. Pois é aí que você se engana; saiba que existe até o Festival de Didgeridoo, organizado pela Associação Portuguesa de Didgeridoo.

FOTO 2 – O instrumento está relacionado às crenças religiosas e místicas dos aborígenes, mas alguns grupos musicais, como o brasileiro Mawaca, já adotaram o didgeridoo pelo seu som peculiar. Basicamente, ele produz uma nota principal, que é a nota de sua afinação, mas dependendo de como se toca, é possível tirar outros harmônicos.

No Brasil, o músico e DJ Serginho Tchernev é a pessoa a quem recorrer quando o assunto é o didgeriddo, mas ele revela que não gostou do som logo de cara. “Entrei para uma banda de surf music em 1996. O Rafael, baixista da banda, mostrou uma fita cassete de uma banda australiana de surf music/rock/tradicional aboriginal music conhecida como Yothu Yindi (que significa mãe e filho). Ouvi as músicas com as influências de surf e rock e achei espetacular, já as tradicionais achei espiritual demais, muito religioso e muito pesado, sem saber o que era realmente – mas eram nessas que o didgeridoo estava mais presente. Sinceramente, eu senti um certo medo e passava todas as que eram tradicionais para frente e curtia mais as outras, com instrumentos elétricos.”

FOTO 3

Serginho conta que isso mudou semanas depois, ao fim do show de uma banda australiana chamada Gangajang: “No final, o vocalista soprou um treco de PVC que fazia um som próximo ao didgeridoo; daí eu pensei, ‘será que é isso que eu ouvi naquela fita?’. Achei meio sem graça. Quando acabou o show, apareceu uma chamada no telão ‘Ano que vem… Yothu Yindi no Brasil’. A chamada mostrava um aborígene todo pintado tocando didgeridoo no meio da selva, fazendo um som maravilhoso e com muita vibração! Meu olhar ficou paralisado, meu coração pediu na hora para que eu tocasse esse instrumento. Meu corpo se arrepiou todo”.

No ano seguinte, em um bar com os amigos, veio a surpresa: “A irmã da minha amiga estava junto e comecei a contar para ela o que eu fazia: ‘Oi, sou o Sérgio, sou músico e DJ. Toco guitarra, violão, percussão e estou interessado em tocar um instrumento aborígine australiano, mas nem vou falar o nome pois você não vai saber mesmo’. Daí a menina falou ‘O que, o didgeridoo? Eu tenho um, eu morei na Austrália e sei tocar. Se você quiser, pode ir amanhã na minha casa conhecê-lo!’. Eu quase tive um treco na hora e não acreditei na sorte que tive, pois nessa época, era muito difícil alguém conhecer esse instrumento, que dirá ter um”, diz Serginho.

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Para tocar o instrumento, a pessoa tem que soprá-lo e fazer com que os lábios vibrem sem parar, fazendo com que o som saia contínuo. É possível ainda fazer a respiração circular, a respiração contínua que permite que se toque o instrumento por mais de uma hora, sem parar para tomar ar. Serginho conta que, antes de comprar o seu próprio didgeridoo, treinava em um cano de aspirador, porque a amiga não emprestava o dela. “Com pouco mais de 15 dias de treino, eu consegui fazer a respiração circular e fiquei 12 minutos sem parar de tocar. Conclusão: meu lábio superior ficou tão inchado que tive que colocar gelo por meia hora (risos)”, ele relembra.

Quem se interessar pelo instrumento pode se preparar para desembolsar um bom dinheiro. Serginho conta que seu primeiro didgeridoo, importado da Austrália, “demorou uns seis meses para chegar” e custou 500 dólares australianos (cerca de R$ 800).

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