Precisamos falar sobre estupro

Fiquei um tempão rascunhando um texto sobre o assunto, mas é tanta coisa pra falar que não tava conseguindo organizar as ideias. Daí hoje a BBC Brasil publicou uma reportagem intitulada “Cultura machista faz com que vítimas de estupro não reconheçam violência, diz psicóloga” – e é isso, um post que trata de machismo, violência contra a mulher, cultura do estupro, normalização da misoginia. Vale a pena ler na íntegra; abaixo, pra começo de conversa, destaco alguns trechos da entrevista com a psicóloga Arielle Sagrillo Scarpati.

Sobre o que é estupro:

A gente tem uma ideia na cabeça sobre o que é violência sexual, quem é o agressor e quem é a vítima.

São estereótipos que chamamos de “mitos de estupro”: o agressor é um monstro, a vítima é aquela que estava andando sozinha pelo beco escuro à noite, é atacada e deixada no chão ensanguentada ou é aquela que estava se vestindo de maneira tida como vulgar, que estava bêbada ou que “provocou”.

Qualquer coisa que fuja desse padrão a gente tem muita dificuldade de reconhecer. Por isso, em muitos dos casos, a própria vítima não reconhece o que sofreu como violência e o agressor também não reconhece.

É comum que as pessoas não entendam como violência sexual uma situação de estupro dentro do casamento, por exemplo. Mas o que caracteriza o estupro é ausência de consentimento. Se a mulher está com o marido e diz não, mas ele força e o sexo acontece, isso é estupro.

Sobre por que é simplista afirmar que estupradores são “monstros”:

Quando você olha a literatura sobre o tema, observa que a maioria dos casos de estupro são cometidos por agressores que não têm nenhuma patologia. A gente tem essa noção de que o estuprador é um monstro, um psicopata. Mas na verdade esses homens são o que chamamos de normais, em geral tidos como pessoas boas, salvo raras exceções. Isso sempre me chamou muito a atenção.

Sobre o que passa pela cabeça de homens que cometem atos de violência sexual; qual é a “lógica” de um estuprador:

A “crença num mundo justo” é a ideia de que coisas ruins acontecem com pessoas ruins e coisas boas acontecem com pessoas boas. Então, cada um só tem o que merece. Isso é algo que ajuda a deixar esses homens tranquilos com aquilo que fizeram.

Outra coisa é o que chamamos de “sexismo ambivalente”. Ele tem uma face mais agressiva (a ideia de que mulher não presta, de que, se provoca o homem, merece apanhar mesmo e de que vale menos que o homem) e uma face benevolente (a ideia de que a mulher é a rainha do lar, de que é frágil e de que o papel do homem é cuidar dela).

Essa face benevolente tem uma cara muito bonita, mas o problema com isso é que o homem, ao pensar assim, continua diminuindo a mulher. Ao dizer que ela é frágil, sensível e delicada, ele também está dizendo que ela não é capaz de fazer as próprias escolhas e que quando ela diz não, ela não sabe muito bem o que está dizendo.

Também está dizendo que o papel do homem é fazer as escolhas da mulher por ela. E que, se ela não tiver o comportamento de princesa esperado, ele pode puni-la por isso.

O sexismo ambivalente dá margem a achar que a mulher deve se comportar de determinada forma: delicada, frágil, feminina, quieta.

Se alguma mulher não se comporta desse jeito, não merece cuidado. Assim, é mais fácil agir de maneira agressiva com uma mulher que não se encaixa nesse padrão de mulher ideal. Por isso é frequente ouvir o discurso de “se ela não se comportasse de tal maneira, isso não teria acontecido”.

Sobre a culpabilização da vítima:

Quando a gente fala de violência sexual tudo gira em torno da potencial vítima ou da vítima em si. A gente pensa na roupa que ela usando, no passado dela, se ela provocou ou não, se ela disse não claramente, se ela estava sob efeito de drogas.

Em nenhum momento paramos para discutir por que não estamos focando nas ações do agressor, ou nos homens de modo geral.

Tiramos toda a responsabilidade do homem e colocamos na mulher.

Esse tipo de estratégia (de falar do comportamento da vítima) é muito eficaz. É por isso que se continua utilizando até hoje, no Brasil e aqui na Inglaterra também. Uma série de casos que foram para a Justiça tiveram exatamente esse argumento: ela bebeu, ela provocou, ela não gritou, não reagiu.

E a vítima é submetida a outra forma de violência: é desacreditada durante todo o processo. Para fechar com chave de ouro, o agressor é absolvido.

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 2

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 3

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 4

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