Precisamos falar sobre estupro – parte 2

Em um TED talk de 2012, o educador Jackson Katz explica por que é importante debater a violência contra a mulher – e ele bota o homem no meio da roda. Abaixo tem o vídeo (com legendas em português!) pra quem quiser ver inteiro; aqui tem a transcrição em português pra quem prefere ler; e selecionei o trecho em que ele argumenta que a gente faz as perguntas erradas diante da frase “João espancou Maria”.

Nós que trabalhamos no campo da violência doméstica e sexual sabemos que culpar a vítima é algo difundido. Dizemos coisas do tipo: “Por que essas mulheres saem com esses homens? Por que sentem atração? Por que sempre voltam para eles? O que ela estava usando naquela festa? Por que ela estava bebendo com aquele grupo de homens naquele quarto de hotel?”. Isto é culpar a vítima e há inúmeras razões para isto, mas uma delas é que toda a nossa estrutura cognitiva é programada para culpar as vítimas. Toda a nossa estrutura cognitiva é programada para fazer perguntas sobre as mulheres e suas escolhas e o que elas estão fazendo, pensando e vestindo. E não vou brigar com as pessoas que fazem perguntas sobre as mulheres, certo? É algo legítimo de se perguntar. Mas sejamos claros: fazer perguntas sobre a Maria não vai nos levar a lugar algum, em termos de prevenir a violência.

Precisamos fazer um tipo diferente de perguntas. As perguntas não são sobre a Maria. São sobre o João. Elas incluem coisas como: “Por que o João agride a Maria? Por que a violência doméstica ainda é um grande problema nos Estados Unidos e em todo o mundo? O que está acontecendo? Por que tantos homens abusam física, emocional e verbalmente, e de outras maneiras, das mulheres e garotas, e dos homens e garotos que eles dizem amar? O que está acontecendo com os homens? E qual o papel das várias instituições, em nossa sociedade, que estão ajudando a produzir homens abusadores, em ritmo pandêmico.

Porque não se trata de agressores individuais. É uma forma ingênua de entender um problema social muito mais profundo e mais sistemático. Sabe, os agressores não são monstros que saem do pântano e entram na cidade para fazer seu trabalho sujo e depois retornam para a escuridão. Os agressores são muito mais normais que isso, e mais comuns do que isso.

Então, a questão é: o que estamos fazendo aqui em nossa sociedade e no mundo? Qual é a participação de diversas instituições na geração de homens agressores? Qual o papel de sistemas religiosos, da cultura dos esportes, da cultura da pornografia, da estrutura familiar, da economia e como essas coisas se relacionam? Uma vez que começamos a fazer essas conexões e a fazer estes grandes e importantes questionamentos, aí podemos falar sobre como sermos transformadores, em outras palavras: como podemos fazer diferente? Como podemos mudar as práticas? Como podemos mudar a socialização de rapazes e as definições de masculinidade que levam aos atuais resultados? São esses questionamentos que precisamos fazer e o trabalho que precisamos realizar, mas se estivermos eternamente focados naquilo que as mulheres estão fazendo, não vamos chegar ao ponto.

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 1

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 3

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 4

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