Cansaço de comprar leite

Outro dia eu estava conversando por WhatsApp com uma pessoa no Brasil, e ela me perguntou sobre as coisas em Israel, e eu larguei um desabafo que ela visualizou a mensagem e nunca mais me respondeu.

Bem cansadas, é como estão as coisas em Israel.

Eu falo um pouquinho de hebraico, mas um pouquinho não é o suficiente num país onde as pessoas não têm paciência para nada. No começo, quando alguém me perguntava algo na rua, eu não conseguia nem terminar de dizer “slihá, ani lo medaberet ivrit” (“desculpe, eu não falo hebraico”), porque no meio da frase o serumani já estava virando para ir embora. Atualmente, se alguém me pergunta algo falando devagar, eu até consigo responder direitinho em hebraico, mas ninguém fala devagar, mesmo quando você pede para falarem devagar, ou seja, eu não consigo responder.

As pessoas aqui não são simpáticas ou polidas nem com outros israelenses, imagina com a forasteira que pede para repetir as coisas três vezes.

O supermercado é o pior lugar. Sabe aquele pesadelo da infância de quando a sua mãe te deixava na fila do supermercado para pegar outra coisa e ia chegando a sua vez e ela não aparecia? Essa é a minha vida com o Alex indo pegar mais um saco de batatas quando a gente está quase na boca do caixa.

Mas pelo menos quando vamos juntos, se eu não entendo alguma coisa, ele me ajuda. Quando eu vou sozinha, só me resta levar patada de atendente pé na porta. Tava conversando com uma colega do ulpan, e é isso: cada ida ao supermercado é um desgaste, a gente sai pra comprar um leite e volta pra casa esgotada. A gente não conhece nenhuma marca e não consegue ler os nomes dos produtos ou a lista dos ingredientes, então cada idinha ao mercado é pelo menos meia hora de pesquisa no Google Translate; sem contar o constante estado de atenção e tensão, aquele nervoso de alguém falar com a gente e a gente não conseguir responder.

E no meu caso, tem mais essa: não basta eu me sentir deslocada, assim, nessa sensação só minha, por dentro; as pessoas fazem questão de apontar o dedo. Eu acho vou ter um treco da próxima vez que alguma criança (criança criança ou criança adulta) olhar para mim e falar “IAPÁÁÁÁNNN!”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s