Todo dia uma vergonha diferente

Qualquer pessoa que já aprendeu um idioma pelo método caindo-de-paraquedas-no-país-novo-e-se-virando-por-aí sabe que grande parte do processo de sobreviver ao dia a dia é simplesmente tentar adivinhar o que os locais estão te falando na língua que você ainda não domina.

Claro que você pode simplesmente pedir pro Fulano repetir o que ele disse até você entender, mas às vezes você não tem tempo e o Fulano não tem paciência. Então você aprende a ir chutando. Na maioria das vezes, a adivinhação cola, mas de vez em quando, a gente passa vergonha.

Pouco tempo depois que a família da minha mãe chegou ao Brasil sem falar um pingo de português, minha mãe e meus tios já estavam se virando nos 30, vendendo roupas de porta em porta. Meu tio tinha uma cliente frequente que era bonachona, mas também curtia rir, e tem uma história deles que eu amo. Meu tio tava lá mostrando as roupas, e a cliente percebeu que ele respondia “sim” pra tudo que ela perguntava, tipo “o tecido é de boa qualidade?”, e ele “siiiim”. Daí ela resolveu se divertir. “Esse tecido encolhe?!”, e ele “siiiim!”, e ela “kkkkkk”.

Quando a família do Alex veio da Rússia para Israel, eles não falavam nada de hebraico, então eles também passaram aperto. Um dia a minha sogra precisou ir a um prédio público para assinar uns documentos de previdência social, e todos os prédios públicos aqui têm detectores de metal e um guarda na porta que revista a bolsa de todo mundo. Minha sogra estava se preparando para entrar, e o guarda perguntou pra ela, como é de praxe, “você tem alguma arma de fogo na bolsa?”, e ela respondeu prontamente: “Sim!!”

Lembrei desses causos porque eu perdi meu trem pra voltar pra casa hoje, então fui comprar um lanche pra comer enquanto esperava o próximo. Peguei um suco de frutas vermelhas e pedi um croissant de chocolate, e estava me preparando pra pagar quando a caixa me perguntou meu nome pra eles me chamarem quando o pedido estivesse pronto, e eu respondi “Sarah”. Ela riu e repetiu a pergunta, desta vez em inglês: “Você quer que esquente o croissant?”

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