Dia 15 da quarentena

A minha vida aqui em Israel começou a mudar há exatamente duas semanas.

No dia 14 de março, o Benjamin Netanyahu anunciou as primeiras medidas contra a propagação do vírus que efetivamente afetaram o cotidiano da população. Entre elas, estava a determinação de que cada empresa não poderia ter mais do que 10 pessoas trabalhando em um mesmo espaço, e a distância entre cada uma delas deveria ser de, no mínimo, dois metros.

No lugar onde eu trabalho, isso significou que logo no dia seguinte, vários funcionários foram colocados para trabalhar de casa – entre eles, eu. No segundo dia, o Alex também começou a trabalhar de casa, e a gente foi criando a nossa rotina. Café, um beijo de despedida, um “have a nice day”, e eu ia sentar com meu laptop na poltrona na sala, e ele sentava com o laptop dele na mesa de jantar.

No fim dessa primeira semana, a surpresa: a minha empresa decidiu colocar grande parte dos funcionários em licença não-remunerada até julho – entre eles, eu. Muitas empresas aqui estão fazendo isso. O National Insurance Institute of Israel abriu uma categoria específica para pessoas que foram colocadas em licença não-remunerada ou despedidas em razão do coronavírus, e era tanta gente tentando fazer o registro ao mesmo tempo, que houve relatos de que o site estava caindo direto. Não caiu quando a gente fez o meu registro, mas eles ainda devem estar sobrecarregados, porque eu não recebi resposta sobre o meu seguro-desemprego.

Semana passada então foi minha primeira semana de “licença”, e eu tenho tentado me manter ocupada do jeito que dá, enquanto o Alex continua trabalhando na mesa de jantar.

Eu baixei o app da Adidas para fazer exercícios em casa; e comecei um dos muitos cursos online gratuitos oferecidos pela Yale University. E to escrevendo aqui no blog depois de um tempo, tentando recuperar o ritmo de postagens.

Enquanto isso, as diretrizes do governo para conter a propagação do vírus foram ficando mais apertadas (o primeiro caso de coronavírus em Israel foi no dia 21 de fevereiro. Hoje, 29 de março, o país tem 3.865 casos confirmados). No momento, a regra é que a gente só pode ir além de 100 metros da nossa casa para ir ao supermercado, farmácia ou médico. Para fazer outras coisas (tipo ir pro trabalho quando você não pode trabalhar de casa por algum motivo), tem que ter uma autorização especial impressa, que você apresenta pra polícia caso eles te parem e perguntem para onde você está indo.

O transporte público foi reduzido em 75%. Restaurantes podem funcionar em esquema de delivery, mas com o pedido deixado na porta da casa (zero contato físico – uma amiga disse que o moço saiu correndo quando ela tentou dar uma gorjeta pra ele). Pessoas que ainda trabalham in loco têm a temperatura medida toda vez que entram no escritório; quem está acima de 38ºC é impedido de entrar.

Desde o dia 15 de março, eu só saí de casa uma vez, para ir caminhar com o Alex no calçadão aqui perto. Saídas para “esportes” ainda eram permitidas então, mas como tinha muita gente tratando o isolamento como período de férias e passando o dia todo na areia, agora não pode mais – a não ser que você more a 100 metros da praia, mas mesmo assim você só tem 10 minutos para fazer seu exercício.

Hoje pela primeira vez a gente escutou um carro com megafone mandando umas pessoas que estavam na rua voltarem para casa. Era um carro oficial do governo. Outra coisa (bem controversa) que o governo está fazendo é rastrear o celular de pacientes com o coronavírus, e pessoas suspeitas de estarem contaminadas, para vigiar se eles estão respeitando a quarentena.

Fora isso, acho que a minha vida aqui tem sido igual a de vocês. Preocupada com a situação, preocupada com o futuro, com o que vai ser quando as coisas voltarem ao “normal” (se é que vão, e se é que devem voltar), preocupada com a economia, com o meu emprego, com a minha família, principalmente com os meus pais. Ontem liguei para eles e tive que dar uma bronca no meu pai, que fica saindo de casa para comprar sei lá o quê, sendo que eles têm mantimentos pra durar até o fim do mundo. Fica em casa, appa!

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