Sendo turista em Israel quando você não é turista em Israel

Já faz algumas semanas que, na sala de aula, a gente tem feito exercícios preparativos para a prova final do ulpan, que acontece no mês que vem. Um dos temas que a gente sabe que vão nos perguntar, e que por isso temos treinado tanto a escrita quanto a fala (sim, a prova final inclui um teste oral com a diretora da escola), é: “o que você pretende fazer depois de terminar o ulpan?”. A minha resposta está na ponta da língua desde o primeiro dia: “eu vou fazer o ulpan bet” – que é o segundo nível do curso intensivo de hebraico para novos imigrantes. Eu sei que é pouco realista achar que vou conseguir um emprego na minha área aqui em Israel, mas se for para ter uma mínima chance, eu ainda preciso estudar muito o idioma; então aprimorar o hebraico é a minha prioridade pelo menos até o próximo ano.

Pois no domingo passado estávamos de boa na classe, estudando o hebraico nosso de cada dia, quando veio uma mulher do gabinete da prefeitura que cuida dos novos imigrantes, para dar um recado. Em russo. Falou, falou, falou, em russo, daí os alunos fizeram algumas perguntas, em russo, e ela respondeu, em russo (leitura complementar no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Em um dado momento, a minha professora, que já sabe que eu tenho a intenção de continuar estudando, virou para mim e perguntou baixinho, em inglês: “você quer informações sobre o ulpan bet? Ela tem as informações, e acho que ela fala inglês”. Eu disse que sim. A mulher já estava virando para ir embora quando eu levantei a mão e pedi, “com licença, em inglês também, por favor”. Ela parou na porta e ficou me olhando, até que a professora explicou, em hebraico, que eu queria informações sobre o ulpan bet. Então a mulher respondeu algo em hebraico que a professora me traduziu para o inglês como: “você não pode fazer o ulpan bet porque ele é só para novos imigrantes”.

A situação é: eu não sou considerada imigrante em Israel. Pelo que entendi, a palavra “imigrante” nem existe em hebraico.

Se você é um judeu de mudança para Israel, você é um “oleh” (ou “olah”, no feminino). A palavra significa “ascendente”, e é o termo usado aqui para designar as pessoas que fizeram a “aliá” – a imigração judaica garantida pela Lei do Retorno. Diz a Wikipédia: “A Lei do retorno é uma das mais importantes leis do Estado de Israel já que concede o direito de residência e cidadania a qualquer judeu, originário de qualquer país do mundo, que deseje emigrar para o território israelense – sendo que esse direito é extensivo aos seus descendentes não judeus até a terceira geração (filhos e netos, bem como os respectivos cônjuges e filhos menores). A lei foi adotada pelo Knesset em 1950 (dois anos depois da proclamação do Estado de Israel) e declara que o país constitui um lar não apenas para os habitantes do território israelense, mas também para os judeus de todo o mundo, quer vivam em pobreza e medo das perseguições, quer vivam uma vida com afluência e segurança”.

Quem faz a “aliá” tem direito a uma série de benefícios, entre eles: assistência e consultoria com toda a parte burocrática da mudança; passagem de ida para Israel; o seu próprio teudat zehut, que é a carteira de identidade nacional, pronto para ser retirado no aeroporto logo após o pouso do avião; assistência financeira durante os seis primeiros meses no país, com possibilidade de extensão caso a pessoa não esteja empregada ao fim desse período; até 12 meses de seguro médico; estudos de graça no ulpan aleph. Tem muitas outras coisas – segue o link com a descrição completa.

Para ter uma base de comparação, se você é um não-judeu de mudança para Israel, esta é a sua lista de benefícios:

Gif: reprodução

Duas observações a respeito da minha experiência: 1) sobre o meu teudat zehut, eu não tenho nem a informação de quando vou recebe-lo. O meu processo está correndo desde o começo do ano, assim que realizamos nosso casamento civil no Brasil, e as coisas estão se desenrolando “leat, leat” (“devagar, devagar”), como se diz por aqui. Na primeira vez que fomos ao Ministério do Interior para checar o status da minha documentação, a resposta da funcionária foi “voltem em três meses pra gente ver como está [o seu casamento]”. 2) sobre o ulpan aleph, que é o que eu estou cursando agora, eu paguei uma taxa de 3 mil sheckels (2.773,18 reais) no ato da matrícula. Na minha turma, as únicas pessoas que pagaram essa taxa fomos eu e a aluna do Japão; todos os outros alunos são judeus e fizeram a “aliá”.

Na sala de aula, quando fazemos exercícios do tipo “fale sobre você”, que é um tema que vai cair na prova final do ulpan, todos os alunos falam “Meu nome é Fulano, sou um oleh radash da Ucrânia”. Eu não possuo status, então a minha frase de apresentação é “Meu nome é Sarah, sou uma turista do Brasil”.

Diário de bordo do ulpan: meses 3 e 4

O diário de bordo do ulpan ficou desatualizado porque nos últimos meses aconteceram muitas coisas importantes fora da escola – viajamos para o Brasil! meu irmão casou! viajamos para Portugal! adotamos uma gatinha!; mas ainda quero deixar registrada a minha evolução no aprendizado de hebraico, então seguem aqui algumas novas observações:

Mês 3 (de 11 de setembro a 26 de setembro – não fechei um mês inteiro porque fui viajar e perdi quase três semanas de aula):

– Coisas importantes que aprendi: como conjugar os verbos no passado; preposições, muitas preposições; frases para situações do dia a dia, como agendar uma consulta no médico ou dar os parabéns a um amigo que faz aniversário; verbos no imperativo.

– Coisas que me surpreenderam: a quantidade de preposições, que não é brincadeira.

– Coisas que achei especialmente difíceis: decorar o esquema de conjugação de verbos no passado. Para conjugar qualquer verbo no passado, você precisa primeiro identificar a qual de cinco grupos ele pertence; cada um desses cinco grupos segue um método específico de conjugação, por exemplo, se for do grupo “paal”, você vai usar três consoantes do infinitivo + as vogais “a” “a” se for um verbo normal, ou “a” “i” se for um verbo cuja terceira pessoa do singular termina com a letra “hey” + a terminação de cada pessoa.

Anotações do segundo/terceiro mês de aula no ulpan. Foto: Sarah Lee/Gaveta de esquilo

Mês 4 (de 18 de outubro a 16 de novembro):

– Coisas importantes que aprendi: como conjugar os verbos no futuro; vocabulário para abrir uma conta no banco, entender um anúncio de venda ou aluguel de apartamento e procurar um emprego.

– Coisas que me surpreenderam: a vontade de sair correndo para as montanhas a cada novo texto sem vogais que a gente tem que ler em sala de aula nunca acaba.

– Coisas que achei especialmente difíceis: decorar o esquema de conjugação de verbos no futuro, que não é tão complexo quanto a conjugação no passado, mas eu perdi toda a explicação porque eu estava viajando. Depois que voltei demorei um tempo correndo atrás, e quando finalmente estava me sentindo mais confiante, começamos a aprender os verbos irregulares :/

Anotações do quarto mês de aula no ulpan. Foto: Sarah Lee/Gaveta de esquilo

Cinco curiosidades sobre os ônibus de Israel

Todos os dias de manhã eu vou para o ulpan de carona com o Alex e, depois da aula, volto para casa de ônibus. Tava aqui pensando que tem bastante coisa diferente do Brasil, então seguem cinco curiosidades sobre os ônibus de Israel, segundo a minha experiência em Nahariya:

1) O preço da passagem é 4,10 shekels (3,76 reais).

2) Não existe cobrador de ônibus em Israel; a passagem é paga, com dinheiro ou bilhete eletrônico, diretamente com o motorista. Você faz o pagamento, ele mexe na maquininha eletrônica e imprime um bilhete que fica com você. Ou seja, ao contrário do Brasil, onde o motorista dispara assim que o último passageiro entra, em Israel o ônibus só começa a andar depois que a última pessoa faz o seu pagamento. Acho esse esquema um pouco problemático por causa do tempo: se você está com pressa e o ônibus para em um ponto em que vai entrar um monte de gente, você fica lá, empacado, querendo arrancar os cabelos a cada jumento – sempre tem, né – que deixa para contar moedinhas quando já está na cara do motorista.

3) É obrigatório que o motorista imprima e entregue o bilhete de cada passageiro, até porque tem fiscalização: uma vez entraram dois fiscais no meu ônibus e eles foram checando o papelzinho de todo mundo, até dos velhinhos de 200 anos. Só aconteceu uma vez desde que eu cheguei aqui, mas enfim, acontece.

4) Se a maquininha eletrônica do motorista está quebrada, você não paga a passagem; na semana passada eu peguei ônibus de graça por vários dias seguidos porque eles demoraram para consertar.

5) Uma informação que eu sei que é nacional: os ônibus em Israel não circulam durante o Shabat, que começa no pôr do sol da sexta-feira e vai até o pôr do sol do sábado. O Shabat é o dia de descanso semanal do judaísmo, e eles levam isso a sério. De acordo com esta reportagem de 2016, que tem informações interessantes, “A cláusula no regulamento do trânsito que proíbe o transporte público nos dias de repouso foi aprovada em 1991 e, até então, a lei era vaga. De acordo com o regulamento, nenhuma licença será dada para a operação de linhas públicas de ônibus nos dias de repouso (sexta-feira à noite, Shabat, pré-feriados e feriados) – exceto em rotas que atendem pessoas indo para hospitais, comunidades fronteiriças ou comunidades não-judaicas, ou para fornecer um serviço vital para a segurança pública”.

Aprendendo russo na escola de hebraico

Lá nas primeiras semanas pós-mudança para Israel, eu estava contando para uma amiga no Brasil sobre a minha nova vida por aqui e, principalmente, sobre como estavam indo as aulas na escola intensiva de hebraico, e o comentário dela foi: “Quem diria que pra sobreviver em Israel era preciso primeiro um estágio na Rússia”.

Sim, minha gente. Porque eu frequento uma escola que ensina hebraico em um país que fala hebraico, mas o idioma que eu mais escuto todos os dias, o dia todo, é russo. Durante as aulas? Russo. Nos intervalos? Russo. No ponto de ônibus para ir embora? Russo. Dentro do ônibus? Russo. No grupo da sala no WhatsApp? Russo.

Como mencionei aqui, no começo do curso éramos 25 pessoas – 22 da Ucrânia, duas do Brasil e uma do Japão. Alguns alunos, incluindo o outro brasileiro, saíram, e outros entraram, mas o desequilíbrio continua: agora, as únicas pessoas da minha turma que não falam russo somos eu e a japonesa.

(A língua oficial da Ucrânia é o ucraniano, mas confirmei com uma colega que o idioma mais popular – e o que eles usam no ulpan – é o russo mesmo.)

No resto da escola, a (des)proporção é parecida. Turmas quase inteiras de russos e ucranianos e só uma ou duas pessoas de outros países – isso quando tem alguém de outro país.

Isso significa que as minhas primeiras semanas no ulpan foram marcadas por momentos assim:

Cena 1: eu entro na classe e falo “boker tov” (“bom dia” em hebraico, uma das primeiras coisas que aprendi por aqui). Silêncio absoluto. Logo em seguida, uma pessoa da Ucrânia entra e fala “dobre utra” (“bom dia” em russo). Todos respondem “dobre utra!”.

Cena 2: no ponto de ônibus, o ônibus chega, abre a porta, e a gente começa a subir. De repente o motorista fala alguma coisa que eu não entendo, faz um sinal com as mãos que é pra gente descer, todo mundo desce, ele fecha a porta e vai embora. Viro para as outras pessoas e pergunto em inglês: “Alguém entendeu o que aconteceu?”. Elas conversam em russo entre si. Só entre si.

Cena 3: esta conversa no grupo da sala no WhatsApp, em um raro momento em que alguém escreveu algo em hebraico, em vez de russo, e eu quis entrar no meio. O contexto é que o nosso horário de saída normal é às 13h:


Pessoa 1: (em hebraico) Professora, vamos ter aula na quinta-feira, ou não?
Professora: (em hebraico) sim, até as 10h
Pessoa 1: (em hebraico) Obrigada – emoji de florzinha
Professora: (em hebraico) De nada! – emoji de florzinha
Eu: (em hebraico) Por quê? O que vai ter na quinta-feira?
Pessoa 2: (em hebraico) Na quinta-feira vamos ter aula até as 10h
Eu: (em hebraico) Olá Pessoa 2, eu entendi, mas gostaria de saber por quê :)
Pessoa 3: (um monte de coisas em russo)
Pessoa 2: (um monte de coisas em russo)
Pessoa 4: (um monte de coisas em russo)
Pessoa 2: (um monte de coisas em russo)
Pessoa 4: (um monte de coisas em russo)
Pessoa 2: (um monte de coisas em russo)
Pessoa 1: (em hebraico) Quem é?

Mas a cereja no topo do bolo foi há algumas semanas, quando o vice-prefeito de Nahariya foi até o ulpan e passou de sala em sala para desejar feliz ano novo judaico aos estudantes. Lá estava ele falando – sim, em russo – para a minha classe, quando ele lembrou que algumas turmas têm alunos que não são da ex-União Soviética. Ele perguntou “tem alguém aqui que não fala russo, quem é?”, e eu levantei a mão. Daí ele brincou, em hebraico, “ué, você já estuda no ulpan há três meses e não fala russo ainda?”.

(Pior que sim, eu aprendi algumas coisas em russo. Porque né.)

Pequeno dicionário de palavras russas que eu escuto todos os dias no ulpan:

Dôbre útra: bom dia
Kak dilá?: como vai?
Jênski rod: feminino
Muskôi rod: masculino
Ôtchen vájina: muito importante
Niê vájina: não importante
Kaniáshina: é claro
Tôtchina: exatamente
Môjiet buit: talvez
Paétamu: portanto
Isclutchênia: exceção