Sobre gente que fula fila

Gente que fula fila é uma das Pequenas Coisas Que Me Irritam Muitão. Porque respeitar a ordem de um fila é um elemento muito básico de civilidade. É uma forma tão simples de demonstrar respeito ao próximo. É um negócio literalmente que todo mundo aprende no jardim de infância, e eu fico besta que tem gente que parece que nunca ouviu falar.

Eu fico muito puta quando vejo alguém tentando fular fila, mas normalmente eu não falo nada, porque reprimir emoções negativas até elas virarem úlcera na minha barriguinha faz parte do meu estilo de vida.

Mas hoje não.

Hoje eu estava na fila para entrar na estação de trem, e era uma fila considerável. Eu já falei aqui algumas vezes, mas em Israel, toda vez que você entra num lugar fechado com grande concentração de pessoas, você tem que botar a bolsa no raio X e passar pelo detector de metais. Se muita gente chega à estação de trem ao mesmo tempo, forma-se uma fila.

Eu entrei no fim da fila, e a fila continuou crescendo atrás de mim. Passam-se algum segundos e alguns passos dados pra frente, e uma mulher chega e para bem do meu lado, tipo “vou furar a fila aquizinho como quem não quer nada.” Eu dou aquela olhada da morte pra ver se ela se toca e sai dali, mas ela não se mexe. Então eu resolvo que é hora de parar de sofrer em silêncio. É hoje que eu paro de alimentar a Memeia, Teteia, e Geleia (minhas úlceras).

Eu olho pra mulher e falo em inglês (porque ela tinha cara de gringa): “oi, o fim da fila é pra lá!”, e aponto para atrás de mim.

A mulher responde em inglês, “obrigada”, e sai andando pro *começo* da fila, onde ela entra na frente de *todo mundo*, bota a bolsa no raio X, passa pelo detector de metais, e some estação adentro.

Eu fiquei tipo assim:

Memeia, Teteia, e Geleia vão dormir bem alimentadas hoje.

Todo dia uma vergonha diferente

Qualquer pessoa que já aprendeu um idioma pelo método caindo-de-paraquedas-no-país-novo-e-se-virando-por-aí sabe que grande parte do processo de sobreviver ao dia a dia é simplesmente tentar adivinhar o que os locais estão te falando na língua que você ainda não domina.

Claro que você pode simplesmente pedir pro Fulano repetir o que ele disse até você entender, mas às vezes você não tem tempo e o Fulano não tem paciência. Então você aprende a ir chutando. Na maioria das vezes, a adivinhação cola, mas de vez em quando, a gente passa vergonha.

Pouco tempo depois que a família da minha mãe chegou ao Brasil sem falar um pingo de português, minha mãe e meus tios já estavam se virando nos 30, vendendo roupas de porta em porta. Meu tio tinha uma cliente frequente que era bonachona, mas também curtia rir, e tem uma história deles que eu amo. Meu tio tava lá mostrando as roupas, e a cliente percebeu que ele respondia “sim” pra tudo que ela perguntava, tipo “o tecido é de boa qualidade?”, e ele “siiiim”. Daí ela resolveu se divertir. “Esse tecido encolhe?!”, e ele “siiiim!”, e ela “kkkkkk”.

Quando a família do Alex veio da Rússia para Israel, eles não falavam nada de hebraico, então eles também passaram aperto. Um dia a minha sogra precisou ir a um prédio público para assinar uns documentos de previdência social, e todos os prédios públicos aqui têm detectores de metal e um guarda na porta que revista a bolsa de todo mundo. Minha sogra estava se preparando para entrar, e o guarda perguntou pra ela, como é de praxe, “você tem alguma arma de fogo na bolsa?”, e ela respondeu prontamente: “Sim!!”

Lembrei desses causos porque eu perdi meu trem pra voltar pra casa hoje, então fui comprar um lanche pra comer enquanto esperava o próximo. Peguei um suco de frutas vermelhas e pedi um croissant de chocolate, e estava me preparando pra pagar quando a caixa me perguntou meu nome pra eles me chamarem quando o pedido estivesse pronto, e eu respondi “Sarah”. Ela riu e repetiu a pergunta, desta vez em inglês: “Você quer que esquente o croissant?”

Uma atualização sobre os bolos e iogurtes

Gente, eu tive um retorno tão bom depois do post do iogurte! Várias pessoas me mandaram mensagens muito queridas, inclusive uma delas disse que ia me dar uma iogurteira TopTherm.

Vamos falar de coisa boa?

Pois eu te digo que não precisa mais, amiga, porque logo depois que publiquei aquele post, eu cheguei na empresa, abri a geladeira, e comi um iogurte! E comi com granola, ainda por cima, porque…

Porque eu sou RICAAA!!

E mais: uns dias depois, teve outro aniversário na empresa, e eu peguei um pedaço de bolo e comi! Ele já estava cortado e servido no prato, porque eu não sou um lobo selvagem, né, mas eu fui busca-lo na mesa, sem ninguém me oferecer, e pra mim isso já foi uma vitória.

O negócio é comemorar as pequenas vitórias

Apenas um detalhe, que, na semana passada, eu adicionei o pessoal da equipe no Facebook, e agora eu to achando que eles leram meu blog no Google Translate, porque ontem teve aniversário de novo, e, pela primeira vez desde que eu comecei a trabalhar lá, eles cortaram e serviram o bolo e deram na mão de cada pessoa 😅😅😅

Minha cara quando me ofereceram bolo sendo que eu acabei de escrever um post no blog falando que eles não oferecem bolo

Minha próxima missão: fazer um sanduíche!

Sobre merecer o iogurte

A história do bolo que eu contei no post anterior tem um adendo. É a história do iogurte.

Toda semana, a empresa onde eu trabalho faz compras no supermercado e enche a cozinha de coisas pros funcionários comerem. Tem os básicos de cozinha de fiRma, tipo café, chá e bolachinhas, passando por pasta de amendoim, nozes e frutas secas, chegando até os tomates e pepinos para salada, aterrissando no que eu considero o suprassumo da riqueza: iogurte.

Eu sempre considerei iogurte uma coisa de rico. A gente não tinha iogurte na geladeira quando eu era pequena, então eu cresci associando esses potinhos com luxoglamour. Mesmo hoje, que sou adulta (haha), às vezes eu vejo iogurte no mercado e penso em adicionar ao carrinho, mas antes mesmo de estender o braço pra pegar o pote, eu penso “oh, Sarah Lee, quem você pensa que é? – a rainha da Inglaterra? hu hu hu”, e acabo passando reto pela seção de laticínios.

Daí que na geladeira da empresa tem iogurte, que muita gente come no café da manhã. Com fruta, com cereal, com muesli. Pergunta se eu já comi um iogurte da empresa? hahahahanão.

Parte disso é porque eu não me sinto confortável pegando uma coisa que não é minha. E na minha cabeça, as compras da empresa são pra todo mundo – mas todo mundo não sou eu.

Todavia, a questão é maior do que essa. Porque eu boto leite no café, abro bolacha, como salgadinho. Só não toco no iogurte.

A verdade é que: uma parte de mim sente que eu não mereço o iogurte.

Há uns meses eu comecei a fazer terapia, e, na nossa última sessão, a minha terapeuta estava falando sobre merecimento.

O gancho do assunto era algo relacionado a amizades – sobre como tem sido difícil fazer amigos em Israel, e como ao mesmo tempo eu estou perdendo alguns dos meus amigos no Brasil.

Eu estava falando pra ela que às vezes eu estendo a mão e sinto que não tem ninguém lá pra me pegar.

E ela disse que eu mereço ter bons amigos.

E isso foi revolucionário pra mim.

A ideia de que eu “mereço” algo é revolucionária para mim, que tenho uma auto-estima de Chandler Bing com Bisonho.

Ela disse que eu mereço me cercar de gente que me faz bem, eu mereço ter amigos que se importam comigo, eu mereço ter pessoas que estão lá pra mim quando eu pedir socorro.

E eu achando que eu não mereço nem um iogurte.

Fica, vai ter bolo

A gente acha que o Brasil é um país super informal, mas depois de dois anos em Israel, que é um lugar realmente sem formalidades, eu percebo que o brasileiro na verdade é cheio de regras de etiqueta.

O brasileiro, quando entra no elevador do trabalho, fala “bom dia” mesmo pra quem ele não conhece. Quando senta do lado de alguém no ônibus, fala “licença”. Também pede “licença” para entrar, já convidado, na casa de uma pessoa – e normalmente recebe de volta um “fique à vontade”, seguido por um “não repare na bagunça”. Quando come na frente dos outros, oferece o lanche pra roda. Quando corta um bolo de aniversário, bota cada fatia em um prato e vai passando pros convidados. “Você já pegou bolo?”, a gente faz questão de perguntar.

Tudo isso é regra de etiqueta. Alguns diriam que é “educação básica”, que quem não faz essas coisas é “mal educado”, mas esse tipo de “educação” é uma norma social, né. Cada cultura tem a sua. E Israel, pelo que vi até agora, não segue essas normas.

Uma história que aconteceu recentemente, no meu trabalho novo:

Um dia, na minha segunda semana de trabalho, eu notei que estava rolando uma movimentação na sala comum da empresa. A minha equipe trabalha num semi-aquário, então dá pra ver mais ou menos o que acontece nas partes comuns do nosso andar. Vi as pessoas das outras equipes carregando bolos e docinhos. Mas não era comigo, então continuei trabalhando com a cara no computador.

Depois de um minutos, meu editor, parado na porta, me chama a atenção. Levanto a cabeça e só então vejo que estou sozinha na sala; todo o resto da equipe já tinha se juntado à movimentação do lado de fora.

“E aí, você não vem?”, ele pergunta. Eu nem sei do que ele está falando. Pergunto o que está tendo do lado de fora e ele responde “é um aniversário!”, e só falta ele completar com um “dããã!”.

Levanto e vou atrás dele. É aniversário de uma menina de outra equipe. A empresa é relativamente grande, e eu ainda não tinha conhecido ninguém do outro lado, então não sabia o nome da moça, nem o que ela fazia (pra falar a verdade, não sei até agora).

Os chefes falaram umas palavras rápidas, a menina fez um minidiscurso, e aí era hora do bolo.

Mas ela não cortou o bolo e botou nos pratos e foi passando pras pessoas. O bolo ficou lá. Quem queria comer ia pra mesa, cortava o próprio pedaço, botava no seu prato, e comia.

Gente, quem sou eu pra ir cortar o bolo de aniversário de uma menina que eu nem conheço, e pra cujo aniversário eu nem tinha sido convidada? Claro que não comi o bolo, né. E desde então, já tivemos uns três aniversários de funcionários na empresa, e eu ainda não comi bolo nenhum haha #loser