Joaninsky

Eu sempre falo das palavras engraçadas em hebraico (vide aqui e aqui), mas não vamos esquecer que, graças ao Alex, eu também acabo aprendendo vários termos em russo.

Em português, joaninha. Em inglês, ladybug. E em russo?

Uma das minhas coisas favoritas é o jeito que eles chamam as joaninhas: божья коровка. Lê-se “bójia karóvka”, e a tradução literal é… “pequena vaca de Deus”.

Interpretação

Hoje o Alex e eu estávamos saindo do médico quando ele lembrou que precisava de um negócio e foi falar com a enfermeira; eu sentei em um dos vários bancos de quatro lugares da sala de espera que ficam encostados na parede.

Nisso entram duas pessoas: um pai e a filha pequena, que devia ter uns cinco anos de idade. O resto do lugar tá completamente vazio, mas a menina vem imediatamente na minha direção, andando com confiança, e senta do meu lado.

O pai olha sério para a criança e fala firmemente, em russo: “vem sentar aqui”, apontando para o banco de quatro lugares mais perto de onde eles entraram. A menina já tá sentada, ela não quer levantar, e não se mexe.

O pai fala de novo, “vem sentar aqui comigo” e a menina nada, ela sorri para ele tipo “mas eu quero sentar deste lado”, e continua sentada. O pai não desiste, vai subindo a voz, “vem sentar AQUI!”. A menina parece confusa, não entende por que não pode escolher onde sentar. Ela olha para mim com uns olhões azuis enormes e olha pro pai como quem diz “mas eu quero sentar do lado dessa moça que parece legal”.

Eu sorrio para ela e olho para o pai. O pai, com um semblante sério esculpido em pedra, não me olha; ele me observa.

A menina derrotada levanta e vai sentar com ele do outro lado da sala. Ele continua me observando de longe.

Dado o contexto atual de coronavírus e os muitos relatos de racismo sofrido por asiáticos em países brancos, eu fiz a minha interpretação. Posso ter interpretado errado? Posso. Mas depois do que aconteceu, eu fiquei repassando a cena na minha cabeça e chorei no carro? Chorei.

Sobre merecer o iogurte

A história do bolo que eu contei no post anterior tem um adendo. É a história do iogurte.

Toda semana, a empresa onde eu trabalho faz compras no supermercado e enche a cozinha de coisas pros funcionários comerem. Tem os básicos de cozinha de fiRma, tipo café, chá e bolachinhas, passando por pasta de amendoim, nozes e frutas secas, chegando até os tomates e pepinos para salada, aterrissando no que eu considero o suprassumo da riqueza: iogurte.

Eu sempre considerei iogurte uma coisa de rico. A gente não tinha iogurte na geladeira quando eu era pequena, então eu cresci associando esses potinhos com luxoglamour. Mesmo hoje, que sou adulta (haha), às vezes eu vejo iogurte no mercado e penso em adicionar ao carrinho, mas antes mesmo de estender o braço pra pegar o pote, eu penso “oh, Sarah Lee, quem você pensa que é? – a rainha da Inglaterra? hu hu hu”, e acabo passando reto pela seção de laticínios.

Daí que na geladeira da empresa tem iogurte, que muita gente come no café da manhã. Com fruta, com cereal, com muesli. Pergunta se eu já comi um iogurte da empresa? hahahahanão.

Parte disso é porque eu não me sinto confortável pegando uma coisa que não é minha. E na minha cabeça, as compras da empresa são pra todo mundo – mas todo mundo não sou eu.

Todavia, a questão é maior do que essa. Porque eu boto leite no café, abro bolacha, como salgadinho. Só não toco no iogurte.

A verdade é que: uma parte de mim sente que eu não mereço o iogurte.

Há uns meses eu comecei a fazer terapia, e, na nossa última sessão, a minha terapeuta estava falando sobre merecimento.

O gancho do assunto era algo relacionado a amizades – sobre como tem sido difícil fazer amigos em Israel, e como ao mesmo tempo eu estou perdendo alguns dos meus amigos no Brasil.

Eu estava falando pra ela que às vezes eu estendo a mão e sinto que não tem ninguém lá pra me pegar.

E ela disse que eu mereço ter bons amigos.

E isso foi revolucionário pra mim.

A ideia de que eu “mereço” algo é revolucionária para mim, que tenho uma auto-estima de Chandler Bing com Bisonho.

Ela disse que eu mereço me cercar de gente que me faz bem, eu mereço ter amigos que se importam comigo, eu mereço ter pessoas que estão lá pra mim quando eu pedir socorro.

E eu achando que eu não mereço nem um iogurte.

It’s time to get serious about joy and fulfillment

Hoje recebi uma lembrança do Facebook que foi ao mesmo tempo bem-vinda e meio triste. Bem-vinda porque eu estava precisando ler algo do tipo, e meio triste porque, cinco anos depois, eu ainda preciso ler algo do tipo. O post era sobre o trecho de um texto da escritora americana Anne Lamott em que ela fala sobre perfeccionismo; vou republica-lo abaixo:

“It’s time to get serious about joy and fulfillment, work on our books, songs, dances, gardens. But perfectionism is always lurking nearby, like the demonic prowling lion in the Old Testament, waiting to pounce. It will convince you that your work-in-progress is not great, and that you may never get published. (Wait, forget the prowling satanic lion–your parents, living or dead, almost just as loudly either way, and your aunt Beth, and your passive-aggressive friends, whom we all think you should ditch, are going to ask, ‘Oh, you’re writing again? That’s nice. Do you have an agent?’)

Oh my God, what if you wake up some day, and you’re 65, or 75, and you never got your memoir or novel written; or you didn’t go swimming in warm pools and oceans all those years because your thighs were jiggly and you had a nice big comfortable tummy; or you were just so strung out on perfectionism and people-pleasing that you forgot to have a big juicy creative life, of imagination and radical silliness and staring off into space like when you were a kid? It’s going to break your heart. Don’t let this happen. Repent just means to change direction – and NOT to be said by someone who is waggling their forefinger at you. Repentance is a blessing. Pick a new direction, one you wouldn’t mind ending up at, and aim for that. Shoot the moon.”