Coração quentinho na estação de trem

Eu estava na estação de trem esperando para ir pra casa, quando os alto-falantes fizeram um anúncio em hebraico e as pessoas na minha plataforma começaram a se movimentar com pressa; era alguma coisa sobre um trem próximo ter mudado de plataforma.

Tirei o fone de ouvido e prestei atenção à repetição do anúncio, mas não consegui entender qual trem tinha mudado. Estava lá tentando compreender se eu também precisava correr, quando, do meio daquela manada de gente, sai um moço com farda de soldado que para na minha frente e me pergunta, em inglês com sotaque, qual trem eu estou esperando. Ele me explica o que foi dito nos alto-falantes, e concluímos que não foi o meu trem que mudou; eu posso continuar onde estou. Eu agradeço de coração quentinho. A gente troca sorrisos. Ele se funde à manada de gente correndo.

Alarme falso

Eu sempre falo pras pessoas que eu me sinto mais segura em Israel do que no Brasil, porque aqui a gente não lida com o medo diário de coisas como furto, assalto, sequestro, assédio. Mas eu também não esqueço que eu moro onde moro, e já passei por alguns sustos por isso.

Em várias ocasiões, sozinha em casa, eu achei que as sirenes de ataque aéreo estavam disparando. Mas foram sempre sustos rápidos, durante dois ou três segundos em que eu paro de respirar para prestar atenção ao barulho, percebo que era apenas um vento forte, e relaxo.

Hoje foi a primeira vez que eu me enganei por tempo suficiente para fazer algo a respeito.

Eu estava sentada no sofá brincando com a Kitty quando escutei o que parecia ser a sirene. Esperei dois ou três segundos até o “vento” passar, mas, em vez disso, o som fez uma ondulação e seguiu constante. Meu coração parou. “É a sirene!!”, pensei. Em movimentos de escavadeira, botei as mãos por baixo da gata, a levantei pro meu colo, segurei com os dois braços e corri pro mamad, que é o quarto de segurança reforçada onde você deve se abrigar em caso de ataque aéreo.

Estava tentando abrir a porta – que é pesadíssima, por sinal – sem derrubar a Kitty quando percebi que o barulho tinha parado. Mais um alarme falso. Era só o vento de novo, aparentemente.

A gata ficou sem entender nada.

UPDATE 16h10: acabei de ler no jpost.com que a sirene de ataque aéreo soou hoje de manhã, sim. Não foi o vento. Foi um alarme programado (aparentemente com pouca antecedência, porque a reportagem do “The Jerusalem Post” foi publicada às 6h22 e eu pulei do sofá com a Kitty nos braços às 10h05) para testar o novo sistema nacional de ativação da sirene.

Pessach em Israel é uma semana low carb meio confusa

Eu pedi pro Alex ir ao supermercado na frente de casa para comprar um pacote de macarrão enquanto eu ia fazendo um molho pro jantar, e ele foi… mas voltou menos de um minuto depois, porque ele tinha lembrado de uma informação que me abalou as estruturas: “o supermercado não está vendendo macarrão nesta semana”, ele disse.

Eu: – QUÊ?

Alex: – É, eles não estão vendendo macarrão, pão, nada do tipo.

Eu: – QUÊ??

Alex: – Essas coisas não estão nem à mostra. As prateleiras de macarrão estão escondidas debaixo de uns plásticos.

Eu: – QUÊ???

Estamos na semana de Pessach em Israel. Pessach é o feriado judaico que celebra a história do Êxodo contada na Bíblia hebraica, segundo a qual os israelitas foram libertados, por Deus, da escravidão no Egito. A história conta que quando o Faraó finalmente deu licença para os israelitas partirem, eles foram com tanta pressa que não puderam esperar que a massa do seu pão subisse (fermentasse). Por isso, a cada ano, durante o Pessach, os judeus religiosos não comem pão fermentado. Na verdade, eles não comem nenhum “chametz”, que é qualquer coisa feita com um de cinco tipos de grãos misturado a água e deixado descansando por mais de 18 minutos.

Até aqui é simples; estamos falando apenas de religião. Mas aí entra a política, afinal de contas, aqui é Israel, que se define como Estado judaico. Existe uma lei israelense, criada em 1986 e conhecida como a Lei Chametz, que estabelece que durante o Pessach é proibida a exibição pública de chametz para venda ou consumo.

Teoricamente, a lei não proíbe a venda daquele macarrão escondido debaixo do plástico. Mas aí entra mais religião, afinal de contas, aqui é Israel, que é o único Estado de maioria judia do mundo. E a lei judaica diz que “judeus não podem possuir, comer ou se beneficiar de chametz” durante o Pessach.

O que isso significa na prática? Que se o dono daquele supermercado na frente da sua casa for um judeu religioso, ele (e o supermercado dele) não pode possuir chametz durante o Pessach. Então o que ele faz com aquelas prateleiras cheias de macarrão? Ele dá um jeitinho (ou um jewtinho, hehe). Ele vai e vende todo o estoque de chametz para um não-judeu antes do Pessach. Então durante o Pessach, teoricamente, aquele chametz escondido debaixo do plástico não é dele – e, portanto, não pode ser vendido para você, consumidor com vontade de comer macarronada. Só depois do Pessach é que o dono do supermercado compra o chametz de volta do amigo não-judeu, e a vida segue.

O próprio Estado de Israel adere a essa prática da venda-e-compra de chametz. Todos os anos, o chametz de empresas estatais, do sistema presidenciário e do estoque nacional de suprimentos de emergência de Israel é vendido a um árabe-israelense chamado Hussein Jabar. Em ato cerimonial com gente do alto escalão do governo, ele assina um contrato que estipula o pagamento de uma entrada de 14 mil dólares. Ele paga essa quantia e o chametz passa a ser dele – até o fim do Pessach, quando ele precisa terminar de pagar o valor total do contrato, que é de 300 milhões de dólares. Se essa quantia não for paga (e obviamente ela nunca é paga), o chametz volta às mãos do Estado de Israel e os 14 mil dólares da entrada voltam às mãos do Hussein Jabar.

+ Gente, este post é uma tradução adaptada de uma coisa que eu publiquei ontem no meu Instagram @leejwsarah. Se você tem interesse em assuntos de comida e tem paciência para ler longos textões em inglês, me segue lá :)

Problema do gato

Outro dia, o Alex e eu estávamos comentando sobre uma grande diferença entre os meus amigos do Brasil e os amigos dele em Israel: a estrutura familiar. Eu tenho poucos amigos próximos que são casados oficialmente, enquanto que, entre os amigos do Alex, são poucos os que não são. Entre os meus amigos, são poucos os que têm filhos; e quando têm, têm um só. Entre os amigos do Alex, quase todos têm filhos, e muitos já estão no terceiro!

Corta para uma outra conversa, com um casal de amigos daqui. Eu, na minha realidade “não tenho filhos e tenho poucos amigos que têm”, e esse casal, que tem três crianças. Eu disse que não conseguia imaginar como eles davam conta de tudo, porque ouvindo as histórias de amigos que têm um filho só, me parecia ser impossível cuidar de mais que um. Eles deram risada e explicaram que, na verdade, o primeiro é o que dá mais trabalho mesmo, mas que muito disso é a falta de experiência dos pais. A partir do segundo, você já sabe o que está fazendo, e as coisas correm com mais facilidade. No terceiro, então, você já é profissional. Então é claro que, com três filhos, você tem mais questões para resolver do que com um, mas cada questão do terceiro te estressa muito menos do que as questões do primeiro. Com o primeiro, cada negocinho que acontece você fica “MEU DEUS, O BEBÊ SOLUÇOU, O QUE VAMOS FAZER?”. No terceiro, você já está num grau de leveza que é tipo: “O quê? O bebê está comendo a comida do gato? Problema do gato!”.