Coração quentinho na estação de trem

Eu estava na estação de trem esperando para ir pra casa, quando os alto-falantes fizeram um anúncio em hebraico e as pessoas na minha plataforma começaram a se movimentar com pressa; era alguma coisa sobre um trem próximo ter mudado de plataforma.

Tirei o fone de ouvido e prestei atenção à repetição do anúncio, mas não consegui entender qual trem tinha mudado. Estava lá tentando compreender se eu também precisava correr, quando, do meio daquela manada de gente, sai um moço com farda de soldado que para na minha frente e me pergunta, em inglês com sotaque, qual trem eu estou esperando. Ele me explica o que foi dito nos alto-falantes, e concluímos que não foi o meu trem que mudou; eu posso continuar onde estou. Eu agradeço de coração quentinho. A gente troca sorrisos. Ele se funde à manada de gente correndo.

O queijo mais fedorento que eu já tive o desprazer de cheirar

Este é um texto meio aleatório. Ele deveria ter sido publicado no meu Instagram de comida (@leejwsarah), mas eu não fiz a foto para ilustrar o post, por isso estamos aqui.

Na última vez que o Alex foi à Espanha, ele me trouxe de presente quatro pacotes de presunto ibérico e uma sacola com uma coisa dentro. Meus olhos brilharam quando vi aquele monte de presunto – “meu Deus, como esse homem me conhece bem!”, eu pensei, e, depois de abraçar cada pacote, eu fui ver o que tinha na sacola.

Eu abro a sacola.

Eu boto o rosto perto da sacola.

E, diretamente do fundo da sacola para o meio da minha fuça, me vem uma rajada de cheiro de bosta.

Eu juro. Eu juro que eu pensei que o Alex tinha me dado um saco de cocô.

Era um queijo, gente. Um queijo pequeno, amarelo, arredondado, e extremamente fedorento.

Eu fechei a sacola, dei todos os nós que dava para dar, e botei a maldita no fundo da geladeira.

Isso já faz três semanas.

Hoje eu estava terminando de fazer o jantar – arroz frito com molho de tomate -, quando tive a inspiração de que um queijinho derretido por cima ficaria ótimo.

Mas não tinha queijinho em casa. Só tinha o queijo fedorento.

Pensei comigo mesma. “Dá uma chance pro queijo fedorento, Sarah Lee. Deixa de ser fresca. Aposto que nem era tão fedorento assim. É que estava muito cedo, você tinha acabado de acordar. E mesmo se for. E daí? Queijos fedorentos são os melhores queijos – ou é o que os franceses dizem, eu acho. Você ama queijo. Você vai jogar o queijo fora sem nem experimentar?”

Eu resgato a sacola do fundo da geladeira.

Eu abro a sacola.

“AARRGGHH!”

[respira pela boca]

O queijo tem uma casca ocre que, eu desconfio, é a responsável pelo fartum de fezes. Pego a faca na mão direita e começo a remover as bordas. Com o indicador e o dedão da mão esquerda, eu seguro o queijo cuidadosamente em cima do prato.

(O indicador e o dedão da mão esquerda estão cheirando a merda até agora. O fedor é imune a sabonete e álcool gel.)

Coloquei um pedacinho em cima do arroz e sobrevivi ao micro-ondas, mas tive que comer controlando a respiração.

Guardei o resto num pote hermético. O Alex não estava em casa, e eu não queria jogar o queijo fora sem pelo menos oferecer pra ele.

O Alex chega do trabalho. Eu aviso que tem comida pronta e que eu finalmente abri o queijo da Espanha. Falo pra ele pegar o pote na geladeira se ele quiser comer.

Ele pega o pote.

Ele abre o pote.

“THIS SMELLS LIKE POOP!!!”

Bondade de estranhos

Primeiro dia de trabalho novo, e eu estava perdida. Cheguei ao destino indicado pelo Waze, mas não estava encontrando a casinha do escritório. Eu lembrava vagamente de como era o arredor do endereço, e aquele definitivamente não era o lugar certo. Voltei para a estrada principal e tentei entrar em outra rua. Nada. Outra rua. Sem saída. Outra rua. Não tem rua.

Voltei para o destino errado do Waze porque lá pelo menos dava para estacionar o carro. Abri o Google Maps. Ufa, o Google Maps tá falando que estou perto. Vou deixar o carro aqui e ir andando.

O Google Maps estava errado. Segui as instruções para ir a pé até o escritório, mas depois de três quarteirões, ele me mandava virar à direita no muro de uma casa. A essa altura eu já estava suando, uma porque o sol estava começando a queimar; duas porque eu estava carregando uma bolsa com, entre outros itens, o meu laptop jurássico que pesa quatro quilos; três porque eu estava vendo que ia chegar atrasada no meu primeiro dia de trabalho.

Não tinha ninguém na rua – o lugar é meio isolado, no topo de um monte -, então decidi que ia bater na casa de alguém para pedir direções. Entrei pelo jardim de uma casinha branca e, coincidentemente, bem nessa hora uma mulher parecia estar de saída, trancando a porta da frente.

Eu: (em inglês) Com licença, senhora?

Mulher: AAAAAHH [ela levou um *baita* susto; até derrubou as chaves, que ela abaixou para pegar dizendo alguma coisa em hebraico]

Eu: (em inglês e hebraico errado) Oi, desculpa! Eu estou perdida, você poder me ajudando? Eu estou procurar… estou procurando… escritória… ahh… [esta é a imagem da minha vida]

Mulher: (em inglês) Você pode falar em inglês.

[Daqui pra baixo foi tudo em inglês]

Eu: Ufa, obrigada! Desculpe ter te assustado. Estou procurando o endereço de um escritório, e o Google Maps me mandou para a sua casa. Você por acaso conhece este endereço xis?

Mulher: Hm, sei onde é. Como você veio para cá?

Eu: Vim de carro. O Waze me mandou para um endereço a três blocos daqui. De lá vim a pé, seguindo o Google Maps.

Mulher: Entendi. Estou indo praquele lado. Entra no meu carro, eu te levo até onde você estacionou e de lá você me segue.

[Se você é da minha família imediata, o texto termina aqui. Eu respondi pra moça “obrigada, mas a minha mãe me ensinou a não entrar no carro com estranhos”. Ela entendeu, disse “sua mãe fez um bom trabalho”, e me explicou exatamente como chegar ao escritório e eu fui sozinha porque eu super lembro tudo que as pessoas falam quando eu peço direções]

.

.

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Eu: Ok!

E foi isso que ela fez, gente! Ela me deu carona até o meu carro, esperou eu ajeitar as minhas coisas, e daí foi dirigindo devagar até o endereço do escritório para eu ir seguindo sem problemas.

Eu sei que costumo ter um tom resmungão aqui no blog, por isso achei importante compartilhar esta história. A gente passa por cada perrengue, mas de vez em quando a bondade de estranhos dá um quentinho do coração.

Ei, m’nina!

Tava lembrando de um episódio que aconteceu na nossa viagem a Portugal, no ano passado; uma noite pitoresca em Alfama, um dos bairros mais antigos de Lisboa, com casinhas antigas, ruazinhas antigas, pessoinhas antigas.

Uma arte fofa que vimos em Alfama, Portugal. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Alex e eu procurávamos por um supermercado para comprar água, mas estávamos indo de ruela em ruela e nada do mercado indicado no mapa do nosso anfitrião no Airbnb. Parei em uma loja de penduricalhos para pedir direções, e, antes que o dono do lugar pudesse me responder, a senhorinha de 200 anos que estava conversando com ele se ofereceu para me acompanhar até a saída da parte antiga do bairro, de onde seria fácil encontrar o mercado. Oba!, e lá fomos nós, devagarzinho escadaria abaixo, eu com medo de a senhora escorregar (o chão de Alfama é todo de pedra lisinha, lisinha, e a parte mais antiga do bairro é quase toda em degraus), e a senhora com medo do Alex (ele estava mal-humorado e foi andando alguns passos atrás da gente; quando a senhora viu que tinha um homem mal-encarado nos seguindo, ela pegou no meu braço e olhou para mim tipo “eita”, mas expliquei para ela que era só o meu marido mal-humorado e ela riu. Life hack: nunca deixe um israelense sem acesso a água de beber).

Chegamos ao fim da parte residencial e ela nos explicou como chegar ao mercado: atravessa a avenida mantendo-se à esquerda, desce desce desce, e vais ver o luminoso escrito: “Santa Apolônia”. É lá. Agrademos a gentileza da senhora; ela seguiu pelo seu caminho e nós fomos em direção ao mercado.

Não encontramos o mercado. A gente foi na direção que a senhora havia ensinado, mas quando chegamos ao “Santa Apolônia”, o lugar era uma estação de trem. Fón! Pensei putz, e agora, Sarah Lee? Você sabe que não deve deixar um israelense sem acesso a água de beber! Daí lembrei: pera, será que em Portugal pode-se tomar água da torneira? Santo Google nos trouxe a resposta: sim! O humor do Alex começou a melhorar.

Fizemos todo o caminho de volta ao centrinho de Alfama, e, como estávamos na hora do jantar em uma zona residencial de um país onde as pessoas amam comer, dava para sentir na rua o cheiro maravilhoso de comida de vó saindo do forno. Aaai, vamos jantar? Vamos! No meio de uma ladeira especialmente íngreme, chegamos a um pequeno restaurante com mesas do lado de fora, em um pátio cheio de charme. Sentamos em uma das mesinhas compartilhadas e pedimos água. E sardinhas grelhadas.

Terminamos de comer e fomos voltando devagar para a nossa casinha alugada. Alfama é legal porque é um bairro com relativamente poucos turistas, ótimo para quem gosta de escutar a voz local: o movimento dos moradores, a conversa do dia a dia – especialmente porque o português de Portugal é um idioma que dança nos ouvidos. Tava lá viajando nos chiados locais quando uma voz de mulher sobressai: “Ei, m’nina!”. Continuei na minha viagem, quando ouvi de novo, “M’nina!”. Pensei, aff, gente que fala gritando, pra que isso? “M’nina! EI, M’NINA!” – a mulher levantou a voz com uma urgência que eu achei que estava acontecendo um roubo na lojinha da frente! Parei, tensa. “M’NINA, AQUI, M’NINA!”. Olhei para cima, de onde vinha a voz. Na bancada do segundo andar de uma casa superantiga estava a senhorinha que havia nos ajudado mais cedo; ela queria saber se a gente tinha encontrado o supermercado [emoji de risada com lagriminhas saindo do canto dos olhos].

+ Portugal ternurinha: um guia para chamar de meu

Há cinco minutos

Meu celular toca, número local desconhecido, eu atendo, uma mulher começa a falar comigo em russo: “Добрый день”. Eu respondo, em inglês: “good afternoon”. Depois que ela faz uma longa introdução em russo, eu respondo: “hi, I’m sorry, I don’t speak Russian.”

E ela me diz, em inglês *perfeito*: “Oh, I don’t speak English, only Russian. Do you speak Russian?”

Eu: “No.”

Ela, em inglês *perfeito*: “Oh, ok, sorry, bye!”

#lifeinIsrael