Interpretação

Hoje o Alex e eu estávamos saindo do médico quando ele lembrou que precisava de um negócio e foi falar com a enfermeira; eu sentei em um dos vários bancos de quatro lugares da sala de espera que ficam encostados na parede.

Nisso entram duas pessoas: um pai e a filha pequena, que devia ter uns cinco anos de idade. O resto do lugar tá completamente vazio, mas a menina vem imediatamente na minha direção, andando com confiança, e senta do meu lado.

O pai olha sério para a criança e fala firmemente, em russo: “vem sentar aqui”, apontando para o banco de quatro lugares mais perto de onde eles entraram. A menina já tá sentada, ela não quer levantar, e não se mexe.

O pai fala de novo, “vem sentar aqui comigo” e a menina nada, ela sorri para ele tipo “mas eu quero sentar deste lado”, e continua sentada. O pai não desiste, vai subindo a voz, “vem sentar AQUI!”. A menina parece confusa, não entende por que não pode escolher onde sentar. Ela olha para mim com uns olhões azuis enormes e olha pro pai como quem diz “mas eu quero sentar do lado dessa moça que parece legal”.

Eu sorrio para ela e olho para o pai. O pai, com um semblante sério esculpido em pedra, não me olha; ele me observa.

A menina derrotada levanta e vai sentar com ele do outro lado da sala. Ele continua me observando de longe.

Dado o contexto atual de coronavírus e os muitos relatos de racismo sofrido por asiáticos em países brancos, eu fiz a minha interpretação. Posso ter interpretado errado? Posso. Mas depois do que aconteceu, eu fiquei repassando a cena na minha cabeça e chorei no carro? Chorei.

Sobre gente que fula fila

Gente que fula fila é uma das Pequenas Coisas Que Me Irritam Muitão. Porque respeitar a ordem de um fila é um elemento muito básico de civilidade. É uma forma tão simples de demonstrar respeito ao próximo. É um negócio literalmente que todo mundo aprende no jardim de infância, e eu fico besta que tem gente que parece que nunca ouviu falar.

Eu fico muito puta quando vejo alguém tentando fular fila, mas normalmente eu não falo nada, porque reprimir emoções negativas até elas virarem úlcera na minha barriguinha faz parte do meu estilo de vida.

Mas hoje não.

Hoje eu estava na fila para entrar na estação de trem, e era uma fila considerável. Eu já falei aqui algumas vezes, mas em Israel, toda vez que você entra num lugar fechado com grande concentração de pessoas, você tem que botar a bolsa no raio X e passar pelo detector de metais. Se muita gente chega à estação de trem ao mesmo tempo, forma-se uma fila.

Eu entrei no fim da fila, e a fila continuou crescendo atrás de mim. Passam-se algum segundos e alguns passos dados pra frente, e uma mulher chega e para bem do meu lado, tipo “vou furar a fila aquizinho como quem não quer nada.” Eu dou aquela olhada da morte pra ver se ela se toca e sai dali, mas ela não se mexe. Então eu resolvo que é hora de parar de sofrer em silêncio. É hoje que eu paro de alimentar a Memeia, Teteia, e Geleia (minhas úlceras).

Eu olho pra mulher e falo em inglês (porque ela tinha cara de gringa): “oi, o fim da fila é pra lá!”, e aponto para atrás de mim.

A mulher responde em inglês, “obrigada”, e sai andando pro *começo* da fila, onde ela entra na frente de *todo mundo*, bota a bolsa no raio X, passa pelo detector de metais, e some estação adentro.

Eu fiquei tipo assim:

Memeia, Teteia, e Geleia vão dormir bem alimentadas hoje.

Coração quentinho na estação de trem

Eu estava na estação de trem esperando para ir pra casa, quando os alto-falantes fizeram um anúncio em hebraico e as pessoas na minha plataforma começaram a se movimentar com pressa; era alguma coisa sobre um trem próximo ter mudado de plataforma.

Tirei o fone de ouvido e prestei atenção à repetição do anúncio, mas não consegui entender qual trem tinha mudado. Estava lá tentando compreender se eu também precisava correr, quando, do meio daquela manada de gente, sai um moço com farda de soldado que para na minha frente e me pergunta, em inglês com sotaque, qual trem eu estou esperando. Ele me explica o que foi dito nos alto-falantes, e concluímos que não foi o meu trem que mudou; eu posso continuar onde estou. Eu agradeço de coração quentinho. A gente troca sorrisos. Ele se funde à manada de gente correndo.

O queijo mais fedorento que eu já tive o desprazer de cheirar

Este é um texto meio aleatório. Ele deveria ter sido publicado no meu Instagram de comida (@leejwsarah), mas eu não fiz a foto para ilustrar o post, por isso estamos aqui.

Na última vez que o Alex foi à Espanha, ele me trouxe de presente quatro pacotes de presunto ibérico e uma sacola com uma coisa dentro. Meus olhos brilharam quando vi aquele monte de presunto – “meu Deus, como esse homem me conhece bem!”, eu pensei, e, depois de abraçar cada pacote, eu fui ver o que tinha na sacola.

Eu abro a sacola.

Eu boto o rosto perto da sacola.

E, diretamente do fundo da sacola para o meio da minha fuça, me vem uma rajada de cheiro de bosta.

Eu juro. Eu juro que eu pensei que o Alex tinha me dado um saco de cocô.

Era um queijo, gente. Um queijo pequeno, amarelo, arredondado, e extremamente fedorento.

Eu fechei a sacola, dei todos os nós que dava para dar, e botei a maldita no fundo da geladeira.

Isso já faz três semanas.

Hoje eu estava terminando de fazer o jantar – arroz frito com molho de tomate -, quando tive a inspiração de que um queijinho derretido por cima ficaria ótimo.

Mas não tinha queijinho em casa. Só tinha o queijo fedorento.

Pensei comigo mesma. “Dá uma chance pro queijo fedorento, Sarah Lee. Deixa de ser fresca. Aposto que nem era tão fedorento assim. É que estava muito cedo, você tinha acabado de acordar. E mesmo se for. E daí? Queijos fedorentos são os melhores queijos – ou é o que os franceses dizem, eu acho. Você ama queijo. Você vai jogar o queijo fora sem nem experimentar?”

Eu resgato a sacola do fundo da geladeira.

Eu abro a sacola.

“AARRGGHH!”

[respira pela boca]

O queijo tem uma casca ocre que, eu desconfio, é a responsável pelo fartum de fezes. Pego a faca na mão direita e começo a remover as bordas. Com o indicador e o dedão da mão esquerda, eu seguro o queijo cuidadosamente em cima do prato.

(O indicador e o dedão da mão esquerda estão cheirando a merda até agora. O fedor é imune a sabonete e álcool gel.)

Coloquei um pedacinho em cima do arroz e sobrevivi ao micro-ondas, mas tive que comer controlando a respiração.

Guardei o resto num pote hermético. O Alex não estava em casa, e eu não queria jogar o queijo fora sem pelo menos oferecer pra ele.

O Alex chega do trabalho. Eu aviso que tem comida pronta e que eu finalmente abri o queijo da Espanha. Falo pra ele pegar o pote na geladeira se ele quiser comer.

Ele pega o pote.

Ele abre o pote.

“THIS SMELLS LIKE POOP!!!”