Orelha de burro, cabeça de ET

A gente acha que a mudança de país vai ser difícil no começo, e que lentamente as coisas vão ficando mais fáceis hahaha, não, as coisas vão ficando piores. Porque quando você cai de para-quedas nesse mundo novo, tudo bem que você não sabe falar, ler e escrever, tudo bem que você pede o menu em inglês no restaurante, tudo bem que o seu marido marca a sua consulta no médico. Mas daí um dia você vê que gastou meia hora andando no sol pra ir ao Correio buscar uma encomenda, e quando você é atendida e dá o papel de aviso de tentativa de entrega pro moço, ele diz que você está no lugar errado, e você pede pra ele escrever o endereço do lugar certo, e ele diz que o endereço está no papel, e você olha pra onde ele está apontando e realmente, o endereço está lá anotado em negrito, mas você não tinha entendido porque está em hebraico, daí você agradece e sai encabulada porque poxa, virei essas pessoas que fazem mongolice porque não leram as instruções, daí você bota o endereço no Google Maps e anda mais meia hora no sol até o lugar certo, e dá de cara com as portas fechadas porque veja só, eles só abrem às 13h – como está escrito no papel, em hebraico. No Brasil você era jornalista e Comunicação era o seu trabalho; em Israel você joga duas horas inteiras do seu dia no lixo porque já faz quase um ano que você mora aqui e você ainda não consegue ler um papelzinho. Porra, Sarah Lee.

UPDATE 09.04: Estou atualizando o post para contar como foi o resto do meu dia ontem; também atualizei as tags, adicionando a #chorandodebocaaberta.

Depois do fiasco do Correio, voltei para casa com a missão de receber a entrega da Ikea das compras que fizemos na quinta-feira da semana passada e que eles só entregaram ontem porque teve feriado judaico, então ninguém trabalhou na quinta pós-pôr do sol, nem na sexta. Os entregadores chegaram e eu já estava lá com o recibo na mão, conferindo cada item que eles botavam no chão da sala porque chega, né, eu não vou errar de novo no quesito prestar-atenção-no-que-está-escrito-no-papel. Era um monte de coisa, e eles trouxeram quase tudo em uma leva só; mas eles tiveram que descer uma vez para buscar um colchão, então até eles voltarem deu tempo de conferir a lista inteira, e estava tudo certinho; ufa. Eles trouxeram o colchão, eu agradeci, eles foram embora, eu fechei a porta. Olhei para aquela bagunça já esperando ver a gata pirando nas caixas de papelão, mas só tinha silêncio. Silêncio?! Ué, cadê a gata?

“Kitty?” Nada. “Kitty? Pss pss.” Nada. O coração acelerando. “Quanto tempo a porta ficou aberta?” Peguei a bolinha que faz barulho que ela ama, e fui andando pela casa chamando pela gata e procurando nos lugares onde ela sempre se enfia. Janelas, atrás das cortinas, nas cadeiras da mesa de jantar, atrás dos livros, atrás da televisão, no vão da máquina de lavar roupa. Nada. A GATA SUMIU. Abri a porta do apartamento e chamei o elevador na esperança de que ela só tivesse visto a porta aberta e entrado e ficado lá sozinha. Elevador vazio. Desci as escadas correndo e parando em cada andar, procurando pelos cantos, “ela não pode estar longe, putz, ela não tem coleira, e se ela se perder? Não, ela não pode ter saído do prédio, como ela abriria a porta? Putz, os moços da Ikea, e se ela saiu com eles? Como eu ligo pra Ikea pra perguntar dos entregadores que estiveram aqui há 5 minutos? Será que eles viram a gata? Sarah, sua burra, sua burra! E se ela tentar atravessar a rua e for atropelada? E se alguém pega-la e leva-la pra casa? Ela não tem coleira!”. Cheguei ao térreo, nada da gata. Corri até a porta da frente; a porta de trás; nada. Subi as escadas de novo e desta vez fui até os andares acima do meu apartamento. Nem sinal. “O que eu faço, o que eu faço? Ligo pro Alex? Como eu explico isso pra ele?”. Decidi voltar para casa e procurar uma última vez. Janelas, atrás das cortinas, nas cadeiras da mesa de jantar, atrás dos livros, atrás da televisão, no vão da máquina de lavar roupa. Nada. Daí me dá um clique: e se ela estiver debaixo do sofá? Vou agachando devagar. “Por favor, por favor, esteja debaixo do sofá, esteja debaixo do sofá.” Ela estava debaixo do sofá. FILHA DA P

(Pensando agora parece meio óbvio que eu tinha que ter olhado lá, mas ela nunca se esconde debaixo do sofá :/ Ela é uma gata supersocial, sempre vem cumprimentar as visitas, dá cabeçadinha no tornozelo de todo mundo… Mas, por algum motivo, ela ficou assustadíssima com a entrega da Ikea. Depois eu tentei acalmá-la, fiquei um tempão sentada no chão onde ela podia me ver, deixei ela cheirar a minha mão, trouxe comidinha, nada funcionou. Ela ficou lá a tarde inteira).

Corta para algumas horas depois, e eu estou voltando ao Correio para buscar o meu pacote, que *precisava* estar em mãos ontem. Já faz semanas que estou esperando a entrega, acompanhando o trajeto pela internet desde o dia da compra; e estava achando muito estranho que a página tinha parado de ser atualizada no dia 20 de março. Achei mais estranho ainda quando entrei em contato com a equipe do lugar onde fiz a compra, e eles me falaram que, de acordo com o site do Correio de Israel, já haviam sido feitas duas tentativas de entrega – sendo que eu tenho ficado em casa o dia todo, e não houve tentativa de entrega coisa nenhuma.

Na sexta-feira eu finalmente encontrei o papel de aviso de tentativa de entrega, que estava amassado lá no fundo da nossa caixa postal :/ Fomos ao Correio, mas as portas estavam fechadas por causa do feriado. Ficou pra ontem. Fui de manhã, endereço errado; fui pro endereço certo, só abria à tarde; fui no fim da tarde. Cheguei no guichê e dei o papel para a moça. Ela vai de pacote em pacote checando os números de referência e então eu vejo um tubo que parece ser o meu, e eu já estou assim:

“Nossa, Sarah Lee, mas por que tanta emoção por um pacote? O que você tinha encomendado?” Nada menos que o meu presente de casamento para o Alex! Ontem completamos o nosso primeiro aniversário de casamento, e eu queria dar um presente significativo e que tivesse a ver com o tema da data (1º aniversário de casamento = bodas de papel), e, depois de muito procurar, encontrei o presente PERFEITO: um pôster/ilustração customizado com o mapa das estrelas no exato dia e lugar que a gente se conheceu: 24 de abril de 2014, em Santiago, Chile – tudo no pôster, escrito bonitinho.

Superpessoal, né? Aparentemente não para algum desgraçado que trabalha no Correio, porque quando eu apontei para o tubo e a moça pegou e trouxe para mim… Ele estava vazio! Uma das tampas havia sido removida, e lá estava o tubo, oco, e eu, com cara de bunda.

E esse foi o meu dia ontem.

Tome sorvete

Um pediatra especializado em cuidados paliativos perguntou a alguns de seus pacientes com doenças terminais sobre as coisas boas da vida. Que pancada.

UPDATE 18.02: ali em cima eu tinha colocado o link direto para o thread no Twitter, mas acabei de ver que, por algum motivo, os tweets não estão mais sendo mostrados na ordem :/ Vou copiar e colar para vocês lerem aqui mesmo. Do twitter do dr. Alastair McAlpine:

For an assignment, I asked some of my terminal paediatric palliative care patients what they had enjoyed in life, and what gave it meaning. Kids can be so wise, y’know. Here are some of the responses (Thread).

First:
NONE said they wished they’d watched more TV
NONE said they should’ve spent more time on Face Book
NONE said they enjoyed fighting with others
NONE enjoyed hospital
/1

MANY mentioned their pets:
‘I love Rufus, his funny bark makes me laugh.’
‘I love when Ginny snuggles up to me at night and purrs’
‘I was happiest riding Jake on the beach.’
/2

MANY mentioned their parents, often expressing worry or concern:
‘Hope mum will be ok. She seems sad.’
‘Dad mustn’t worry. He’ll see me again soon.’
‘God will take care of my mum and dad when I’m gone’
/3

ALL of them loved ice-cream.
/4

ALL of them loved books or being told stories, especially by their parents:
‘Harry Potter made me feel brave.’
‘I love stories in space!’
‘I want to be a great detective like Sherlock Holmes when I’m better!’

Folks, read to your kids! They love it. /5

MANY wished they had spent less time worrying about what others thought of them, and valued people who just treated them ‘normally’.
‘My real friends didn’t care when my hair fell out.’
‘Jane came to visit after the surgery and didn’t even notice the scar!’ /6

Many of them loved swimming, and the beach.
‘I made big sandcastles!’
‘Being in the sea with the waves was so exciting! My eyes didn’t even hurt!’ /7

Almost ALL of them valued kindness above most other virtues:
‘My granny is so kind to me. She always makes me smile.’
‘Jonny gave me half his sandwich when I didn’t eat mine. That was nice.’
‘I like it when that kind nurse is here. She’s gentle. And it hurts less’ /8

Almost ALL of them loved people who made them laugh:
‘That magician is so silly! His pants fell down and I couldn’t stop laughing!’
‘My daddy pulls funny faces which I just love!’
‘The boy in the next bed farted! Hahaha!’

Laughter relieves pain. /9

Kids love their toys, and their superheroes.
‘My Princess Sophia doll is my favourite!’
‘I love Batman!’ (All the boys love Batman)
‘I like cuddling my teddy’ /10

Finally, they ALL valued time with their family. Nothing was more important.
‘Mum and dad are the best!’
‘My sister always hugs me tight’
‘No one loves me like mummy loves me!’ /11

Take home message:
Be kind. Read more books. Spend time with your family. Crack jokes. Go to the beach. Hug your dog. Tell that special person you love them.

These are the things these kids wished they could’ve done more. The rest is details.

Oh… and eat ice-cream. /End

The Mash-Up Americans

Acabei de descobrir esse site e estou aqui chorando litros. O nome é The Mash-Up Americans; um pedaço da descrição:

“The Mash-Up Americans cares deeply about all kinds of things, like trying to understand what makes us who we are, eating delicious Brazilian and Salvadoran and Korean dishes and overcoming our guilt [prestem atenção aqui na palavra guilt, que vou voltar a ela mais tarde]. Sometimes we return to our roots, and sometimes we plant new seeds in unexpected places.”

Basicamente é um projeto sobre multiculturalismo. Os personagens são filhos de imigrantes, pessoas em relacionamentos inter-religiosos, casais inter-raciais, etc, e a conversa gira ao redor da dor e da delícia que é ser uma criatura multicultural.

O primeiro artigo que li foi o relato de uma colaboradora que nasceu na Coreia do Sul, cresceu nos Estados Unidos e, aos vinte e poucos anos, foi ter uma experiência de trabalho em Seul. Achei o texto excelente e continuei navegando. Um cliquezinho aqui, um cliquezinho ali, e resolvi clicar no “guilt” (“culpa”) que destaquei ali no segundo parágrafo. Pra quê?

Eu sou praticante do método Chandler Bing de lidar com sentimentos:

chandler-whats-wrong-with-me chandler-dont-open-that-door

(Gifset: reprodução)

Daí de repente dei de cara com um monte de depoimentos que, sério. Eu poderia ter escrito vários deles. E me veio uma avalanche de sensações, muitas das quais eu não quero nem comentar (crise de ugly cry, sim ou com certeza?), mas digo que: fiquei triste, daí fiquei feliz, daí fiquei triste, daí me senti minúscula, daí me senti enorme e daí pensei como é frágil o ser humano, que pode ser sensibilizado por meia dúzia de linhas redigidas por um completo desconhecido.

Enfim, recomendo o site para todos os meus amigos, mash-ups ou não: www.mashupamericans.com.