Alarme falso

Eu sempre falo pras pessoas que eu me sinto mais segura em Israel do que no Brasil, porque aqui a gente não lida com o medo diário de coisas como furto, assalto, sequestro, assédio. Mas eu também não esqueço que eu moro onde moro, e já passei por alguns sustos por isso.

Em várias ocasiões, sozinha em casa, eu achei que as sirenes de ataque aéreo estavam disparando. Mas foram sempre sustos rápidos, durante dois ou três segundos em que eu paro de respirar para prestar atenção ao barulho, percebo que era apenas um vento forte, e relaxo.

Hoje foi a primeira vez que eu me enganei por tempo suficiente para fazer algo a respeito.

Eu estava sentada no sofá brincando com a Kitty quando escutei o que parecia ser a sirene. Esperei dois ou três segundos até o “vento” passar, mas, em vez disso, o som fez uma ondulação e seguiu constante. Meu coração parou. “É a sirene!!”, pensei. Em movimentos de escavadeira, botei as mãos por baixo da gata, a levantei pro meu colo, segurei com os dois braços e corri pro mamad, que é o quarto de segurança reforçada onde você deve se abrigar em caso de ataque aéreo.

Estava tentando abrir a porta – que é pesadíssima, por sinal – sem derrubar a Kitty quando percebi que o barulho tinha parado. Mais um alarme falso. Era só o vento de novo, aparentemente.

A gata ficou sem entender nada.

UPDATE 16h10: acabei de ler no jpost.com que a sirene de ataque aéreo soou hoje de manhã, sim. Não foi o vento. Foi um alarme programado (aparentemente com pouca antecedência, porque a reportagem do “The Jerusalem Post” foi publicada às 6h22 e eu pulei do sofá com a Kitty nos braços às 10h05) para testar o novo sistema nacional de ativação da sirene.

Unidos da Baixa Autoestima

Imagem: reprodução Sarah Andersen

Tem esse negócio que nós da baixa autoestima fazemos, que é associar o nosso próprio valor às coisas que a gente produz. Se produzimos algo bom (tiramos nota 10 no TCC, entregamos um projeto de sucesso no trabalho, assamos um bolo de fubá que é devorado em cinco minutos) = somos okzinho. Se produzimos algo ruim = “UAARRGGHHHH, eu sou a mosca do cocô do cavalo do bandido, não sirvo pra nada, I wish I was special, you’re so fuckin’ special, but I’m a creep”.

A pegadinha é que: o nosso valor é associado às coisas que a gente produz, e as coisas que a gente produz são associadas à opinião dos outros. Para tirar nota 10 no TCC, a banca tem que ficar impressionada com o seu documentário sobre transtorno bipolar; pro seu projeto ser um sucesso no trabalho, a diretoria tem que avaliar que ele vai satisfazer os objetivos da empresa; pro bolo de fubá ser devorado em cinco minutos, a sua família tem que achar que ele está fofinho e saboroso sem ser doce demais.

Na vida adulta, a maior parte do que a gente produz é relacionada ao trabalho, por isso a gente acaba se deixando definir por ele. Se temos um trabalho que as pessoas consideram bom = somos bons; se temos um trabalho que as pessoas consideram ruim = somos ruins.

E se não temos trabalho? Não somos nada, né.

Só que não, minha gente! Vamos parar de acreditar que o nosso valor depende do que a gente produz! Nem tudo na vida cabe numa caixinha pra gente mostrar pras pessoas e ter a aprovação delas! Só a gente sabe das nossas próprias escolhas e das nossas próprias conquistas! Super Xuxa contra Baixo Astral!

Escrevi este post porque passei os últimos meses chateadíssima com uma coisa que me foi dita no fim do ano passado. Uma pessoa do nosso círculo de conhecidos aqui em Israel perguntou se eu estava trabalhando, e eu respondi que não – na época eu ainda estava na escola intensiva de hebraico, e tinha tomado a decisão de só começar a trabalhar depois de finalizar o curso, porque queria uma imersão total nos estudos. Daí o serumani vira e me fala: “Você tem tanta sorte de ter casado com um cara que tem um emprego bom e que pode te comprar tudo que você quiser”.

Fiquei com a cara no chão. Pelo machismo e pela falta de noção da pessoa, é claro, mas também porque internalizei esse julgamento como algo muito profundo e íntimo (e que só estou compreendendo agora!). Minha autoestima fez hara-kiri porque nessa armadilha de vincular valor a produto, se você não trabalha, você não tem um produto para mostrar pros outros; se você não tem um produto para mostrar pros outros, você não está criando valor; se você não está criando valor, você não tem valor. Nesse pira pirá pirô, eu despenquei de “mulher no controle do próprio destino corajosa navegando novos mares arrasando no aprendizado de idioma treta” para “mulher que não é nada”.

PODE PARAR!

Não caiamos mais nessa, amores.

Caderno de quotes de livros: Sapiens – A Brief History of Humankind

“Que baita livrão” é o que eu tenho a dizer sobre “Sapiens – A Brief History of Humankind”, do historiador israelense Yuval Noah Harari. Passei vergonha lendo e me dando conta do meu minguado conhecimento sobre… Tudo. Um exemplo: eu sempre achei que os humanos evoluíram de forma linear – tipo, o Homo Ergaster evoluiu para o Homo Erectus, o Homo Erectus evoluiu para o Homo Neanderthal, o Homo Neanderthal evoluiu para o Homo Sapiens. NOPE! Há 100 mil anos, pelo menos seis espécies diferentes de humanos caminhavam ao mesmo tempo pela Terra! E: quando o Homo Sapiens chegou ao Oriente Médio e à Europa, a região já era habitada por Neanderthals. O que aconteceu com eles? Por que desapareceram do planeta? Harari escreve (tradução livre): “A tolerância não é uma marca registrada do Sapiens. Em tempos modernos, uma pequena diferença de cor de pele, dialeto ou religião é suficiente para levar um grupo de Sapiens a tentar exterminar outro grupo. Será que os Sapiens antigos seriam mais tolerantes com uma espécie humana completamente diferente? É bem possível que, quando os Sapiens encontraram os Neanderthals, o resultado tenha sido a primeira e mais significativa campanha de limpeza étnica da história”.

“What the eita?” Gif: reprodução

Eu tinha separado vááárias aspas para o caderno de quotes de livros, mas como a maior parte delas depende do contexto de um capítulo inteiro, vou listar apenas esta “pequena” passagem de uma página e meia:

“Culture tends to argue that it forbids only that which is unnatural. But from a biological perspective, nothing is unnatural. Whatever is possible is by definition also natural. A truly unnatural behavior, one that goes against the laws of nature, simply cannot exist, so it would need no prohibition. No culture has ever bothered to forbid men to photosynthesise, women to run faster than the speed of light, or negatively charged electrons to be attracted to each other.

In truth, our concepts ‘natural’ and ‘unnatural’ are taken not from biology, but from Christian theology. The theological meaning of ‘natural’ is ‘in accordance with the intentions of the God who created nature’. Christian theologians argued that God created the human body, intending each limb and organ to serve a particular purpose. If we use our limbs and organs for the purpose envisioned by God, then it is a natural activity. To use them differently than God intends is unnatural. But evolution has no purpose. Organs have not evolved with a purpose, and the way they are used is in constant flux. There is not a single organ in the human body that only does the job its prototype did when it first appeared hundreds of millions of years ago. Organs evolve to performe a particular function, but once they exist, they can be adapted for other usages as well. Mouths, for example, appeared because the earliest multicellular organisms needed a way to take nutrients into their bodies. We still use our mouths for that purpose, but we also use them to kiss, speak and, if we are Rambo, to pull the pins out of hand grenades. Are any of these uses unnatural simply because our worm-like ancestors 600 million years ago didn’t do these things with their mouths?

Similarly, wings didn’t suddenly appear in all their aerodynamic glory. They developed from organs that served another purpose. According to one theory, insect wings evolved millions of years ago from body protusions on flightless bugs. Bugs with bumps had a larger surface area than those without bumps, and this enabled them to absorb more sunlight and thus stay warmer. In a slow evolutionary process, these solar heaters grew larger. The same structure that was good for maximum sunlight absorption – lots of surface area, little weight – also, by coincidence, gave the insects a bit of a lift when they skipped and jumped. Those with bigger protusions could skip and jump farther. Some insects started using the things to glide, and from there it was a small step to wings that could actually propel the bug through the air. Next time a mosquito buzzes in your ear, accuse her of unnatural behavior. If she were well behaved and content with what God gave her, she’d use her wings only as solar panels.

The same sort of multitasking applies to our sexual organs and behaviour. Sex first evolved for procreation and courtship rituals as a way of sizing up the fitness of a potential mate. But many animals now put both to use for a multitude of social purposes that have little to do with creating little copies of themselves. Chimpanzees, for example, use sex to cement political alliances, establish intimacy and defuse tensios. Is that unnatural?” (p. 147-148)

You should’ve asked (“era só pedir”)

Eu nunca tinha visto tanta gente da minha timeline no Facebook repostando um mesmo link. Trata-se do “Era só pedir”, tradução que uma página brasileira fez para o “Fallait demander”, série de quadrinhos da cartunista francesa Emma que fala sobre feminismo e a (não) divisão de tarefas domésticas. Estou colando aqui uma versão “oficial” que a própria autora divulgou no site dela em inglês; e este é o site original, em francês.

“Glamour Brazil is profoundly sorry”

O que eu tenho a dizer sobre o caso da “Glamour” Brasil é que a forma como eles lidaram com a polêmica foi muito pior do que a polêmica em si. Ignorância é uma coisa; falta de humildade e de vontade de aprender é outra. O “divertido boome de olhinhos puxados” foi postado no dia 1º de novembro e a galera imediatamente começou a fazer barulho. A revista não se manifestou. Uma pessoa que aparece no videozinho ainda fez repost – agora já deletado – em seu perfil pessoal e justificou que “ninguém está ofendendo ninguém gente” quando uma internauta lhe chamou a atenção para o teor ofensivo por trás do gesto de puxar os olhos. Foi apenas no dia 4, depois que o caso ganhou atenção internacional – alô, Mashable e BuzzFeed -, que o post da “Glamour” foi apagado e um pedido de desculpas publicado. Só que o pedido de desculpas de 21 palavras, direcionado “a quem se sentiu ofendido”, gerou mais revolta ainda.

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O pedido de desculpas em português postado pela “Glamour” no dia 4. Foto: reprodução

A polêmica que poderia ter sido resolvida no dia 1 já está no dia 7. Hoje a “Glamour” divulgou um novo pedido de desculpas, desta vez muito bem escrito e articulado… Mas em inglês. E fica a impressão de que as desculpas não foram pensadas pros leitores que a revista ofendeu, e, sim, para a mídia internacional. (Mais links lá de fora: The Huffington Post, reddit, Refinery29)

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O pedido de desculpas em inglês postado pela “Glamour” no dia 7. Foto: reprodução

Enquanto isso, as pessoas que posaram no boomerang da discórdia estão bem pianinho. A única menção que eu encontrei ao assunto nos perfis de Insta das sete pessoas envolvidas foi essa troca de comentários, de ontem, em uma foto da diretora de redação da “Glamour”, Monica Salgado – que aparecia bem na frente do vídeo fazendo a careta dos olhos puxados…

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Troca de comentários de ontem no Instagram da Monica Salgado. Foto: reprodução