Sobre merecer o iogurte

A história do bolo que eu contei no post anterior tem um adendo. É a história do iogurte.

Toda semana, a empresa onde eu trabalho faz compras no supermercado e enche a cozinha de coisas pros funcionários comerem. Tem os básicos de cozinha de fiRma, tipo café, chá e bolachinhas, passando por pasta de amendoim, nozes e frutas secas, chegando até os tomates e pepinos para salada, aterrissando no que eu considero o suprassumo da riqueza: iogurte.

Eu sempre considerei iogurte uma coisa de rico. A gente não tinha iogurte na geladeira quando eu era pequena, então eu cresci associando esses potinhos com luxoglamour. Mesmo hoje, que sou adulta (haha), às vezes eu vejo iogurte no mercado e penso em adicionar ao carrinho, mas antes mesmo de estender o braço pra pegar o pote, eu penso “oh, Sarah Lee, quem você pensa que é? – a rainha da Inglaterra? hu hu hu”, e acabo passando reto pela seção de laticínios.

Daí que na geladeira da empresa tem iogurte, que muita gente come no café da manhã. Com fruta, com cereal, com muesli. Pergunta se eu já comi um iogurte da empresa? hahahahanão.

Parte disso é porque eu não me sinto confortável pegando uma coisa que não é minha. E na minha cabeça, as compras da empresa são pra todo mundo – mas todo mundo não sou eu.

Todavia, a questão é maior do que essa. Porque eu boto leite no café, abro bolacha, como salgadinho. Só não toco no iogurte.

A verdade é que: uma parte de mim sente que eu não mereço o iogurte.

Há uns meses eu comecei a fazer terapia, e, na nossa última sessão, a minha terapeuta estava falando sobre merecimento.

O gancho do assunto era algo relacionado a amizades – sobre como tem sido difícil fazer amigos em Israel, e como ao mesmo tempo eu estou perdendo alguns dos meus amigos no Brasil.

Eu estava falando pra ela que às vezes eu estendo a mão e sinto que não tem ninguém lá pra me pegar.

E ela disse que eu mereço ter bons amigos.

E isso foi revolucionário pra mim.

A ideia de que eu “mereço” algo é revolucionária para mim, que tenho uma auto-estima de Chandler Bing com Bisonho.

Ela disse que eu mereço me cercar de gente que me faz bem, eu mereço ter amigos que se importam comigo, eu mereço ter pessoas que estão lá pra mim quando eu pedir socorro.

E eu achando que eu não mereço nem um iogurte.

O queijo mais fedorento que eu já tive o desprazer de cheirar

Este é um texto meio aleatório. Ele deveria ter sido publicado no meu Instagram de comida (@leejwsarah), mas eu não fiz a foto para ilustrar o post, por isso estamos aqui.

Na última vez que o Alex foi à Espanha, ele me trouxe de presente quatro pacotes de presunto ibérico e uma sacola com uma coisa dentro. Meus olhos brilharam quando vi aquele monte de presunto – “meu Deus, como esse homem me conhece bem!”, eu pensei, e, depois de abraçar cada pacote, eu fui ver o que tinha na sacola.

Eu abro a sacola.

Eu boto o rosto perto da sacola.

E, diretamente do fundo da sacola para o meio da minha fuça, me vem uma rajada de cheiro de bosta.

Eu juro. Eu juro que eu pensei que o Alex tinha me dado um saco de cocô.

Era um queijo, gente. Um queijo pequeno, amarelo, arredondado, e extremamente fedorento.

Eu fechei a sacola, dei todos os nós que dava para dar, e botei a maldita no fundo da geladeira.

Isso já faz três semanas.

Hoje eu estava terminando de fazer o jantar – arroz frito com molho de tomate -, quando tive a inspiração de que um queijinho derretido por cima ficaria ótimo.

Mas não tinha queijinho em casa. Só tinha o queijo fedorento.

Pensei comigo mesma. “Dá uma chance pro queijo fedorento, Sarah Lee. Deixa de ser fresca. Aposto que nem era tão fedorento assim. É que estava muito cedo, você tinha acabado de acordar. E mesmo se for. E daí? Queijos fedorentos são os melhores queijos – ou é o que os franceses dizem, eu acho. Você ama queijo. Você vai jogar o queijo fora sem nem experimentar?”

Eu resgato a sacola do fundo da geladeira.

Eu abro a sacola.

“AARRGGHH!”

[respira pela boca]

O queijo tem uma casca ocre que, eu desconfio, é a responsável pelo fartum de fezes. Pego a faca na mão direita e começo a remover as bordas. Com o indicador e o dedão da mão esquerda, eu seguro o queijo cuidadosamente em cima do prato.

(O indicador e o dedão da mão esquerda estão cheirando a merda até agora. O fedor é imune a sabonete e álcool gel.)

Coloquei um pedacinho em cima do arroz e sobrevivi ao micro-ondas, mas tive que comer controlando a respiração.

Guardei o resto num pote hermético. O Alex não estava em casa, e eu não queria jogar o queijo fora sem pelo menos oferecer pra ele.

O Alex chega do trabalho. Eu aviso que tem comida pronta e que eu finalmente abri o queijo da Espanha. Falo pra ele pegar o pote na geladeira se ele quiser comer.

Ele pega o pote.

Ele abre o pote.

“THIS SMELLS LIKE POOP!!!”

Pessach em Israel é uma semana low carb meio confusa

Eu pedi pro Alex ir ao supermercado na frente de casa para comprar um pacote de macarrão enquanto eu ia fazendo um molho pro jantar, e ele foi… mas voltou menos de um minuto depois, porque ele tinha lembrado de uma informação que me abalou as estruturas: “o supermercado não está vendendo macarrão nesta semana”, ele disse.

Eu: – QUÊ?

Alex: – É, eles não estão vendendo macarrão, pão, nada do tipo.

Eu: – QUÊ??

Alex: – Essas coisas não estão nem à mostra. As prateleiras de macarrão estão escondidas debaixo de uns plásticos.

Eu: – QUÊ???

Estamos na semana de Pessach em Israel. Pessach é o feriado judaico que celebra a história do Êxodo contada na Bíblia hebraica, segundo a qual os israelitas foram libertados, por Deus, da escravidão no Egito. A história conta que quando o Faraó finalmente deu licença para os israelitas partirem, eles foram com tanta pressa que não puderam esperar que a massa do seu pão subisse (fermentasse). Por isso, a cada ano, durante o Pessach, os judeus religiosos não comem pão fermentado. Na verdade, eles não comem nenhum “chametz”, que é qualquer coisa feita com um de cinco tipos de grãos misturado a água e deixado descansando por mais de 18 minutos.

Até aqui é simples; estamos falando apenas de religião. Mas aí entra a política, afinal de contas, aqui é Israel, que se define como Estado judaico. Existe uma lei israelense, criada em 1986 e conhecida como a Lei Chametz, que estabelece que durante o Pessach é proibida a exibição pública de chametz para venda ou consumo.

Teoricamente, a lei não proíbe a venda daquele macarrão escondido debaixo do plástico. Mas aí entra mais religião, afinal de contas, aqui é Israel, que é o único Estado de maioria judia do mundo. E a lei judaica diz que “judeus não podem possuir, comer ou se beneficiar de chametz” durante o Pessach.

O que isso significa na prática? Que se o dono daquele supermercado na frente da sua casa for um judeu religioso, ele (e o supermercado dele) não pode possuir chametz durante o Pessach. Então o que ele faz com aquelas prateleiras cheias de macarrão? Ele dá um jeitinho (ou um jewtinho, hehe). Ele vai e vende todo o estoque de chametz para um não-judeu antes do Pessach. Então durante o Pessach, teoricamente, aquele chametz escondido debaixo do plástico não é dele – e, portanto, não pode ser vendido para você, consumidor com vontade de comer macarronada. Só depois do Pessach é que o dono do supermercado compra o chametz de volta do amigo não-judeu, e a vida segue.

O próprio Estado de Israel adere a essa prática da venda-e-compra de chametz. Todos os anos, o chametz de empresas estatais, do sistema presidenciário e do estoque nacional de suprimentos de emergência de Israel é vendido a um árabe-israelense chamado Hussein Jabar. Em ato cerimonial com gente do alto escalão do governo, ele assina um contrato que estipula o pagamento de uma entrada de 14 mil dólares. Ele paga essa quantia e o chametz passa a ser dele – até o fim do Pessach, quando ele precisa terminar de pagar o valor total do contrato, que é de 300 milhões de dólares. Se essa quantia não for paga (e obviamente ela nunca é paga), o chametz volta às mãos do Estado de Israel e os 14 mil dólares da entrada voltam às mãos do Hussein Jabar.

+ Gente, este post é uma tradução adaptada de uma coisa que eu publiquei ontem no meu Instagram @leejwsarah. Se você tem interesse em assuntos de comida e tem paciência para ler longos textões em inglês, me segue lá :)

Viagem a Praga

(Este post faz parte de uma série de coisas que eu queria ter escrito no ano passado, mas querer não é poder, e muito menos fazer, não é mesmo?)

Passeio pelo Farmers Market à beira do rio Moldava (Vltava), em Praga, República Tcheca. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Essa viagem a Praga foi um presente na minha vida, literalmente. O Alex e eu fazemos aniversário no mesmo mês, então a mãe e o irmão dele decidiram nos dar uma viagem como presente conjunto, e o destino escolhido foi Praga. Ganhamos passagens, estadia, e até o transporte do aeroporto para o hotel, com o motorista nos esperando com nosso nome na plaquinha. Tudo organizado bonitinho. Foi lindo!

Eu já tinha ouvido falar muito bem de Praga, mas por algum motivo fiquei com uma ideia errada da cidade. Ouvia “Praga” e imaginava uma cidade medieval, gelada, encoberta por uma névoa pesada, habitada apenas por velhinhos mal-encarados. Que nada! Praga é uma cidade iluminada, vibrante, cheia de gente jovem, bonita, moderna. E muito, muito cheia de turistas, também, numa quantidade que eu nunca tinha visto.

Uma curiosidade: chegando ao aeroporto de Praga, o Alex notou que a sinalização para a área de checagem de passaportes era escrita em três idiomas: tcheco, russo e… coreano! Ele até brincou que as placas foram escritas especialmente pra gente (ele é russo e eu sou descendente de coreanos). Pois é. Para minha surpresa, Praga é um destino super popular entre os jovens da Coreia do Sul. Durante nossa estadia, vimos vários grupos de jovens coreanos, principalmente meninas. Lindas, bem vestidas, com cabelo impecável e pele de porcelana. Eu já fiz esse comentário uma vez quando estava viajando por Seul: perto das coreanas da Coreia, eu me sinto um porquinho oleoso.

Voltando a Praga. O Alex e eu fizemos dois free walking tours por lá, o que eu recomendo, porque Praga tem tanta história para contar. Entre outras atividades, também visitamos um cat café; o zoológico; e um museu de apetrechos sexuais.

Algumas fotos da viagem:

Nosso hotel (Park Inn – recomendo) ficava a uns 20 minutos andando do centrão da cidade. Nos primeiros dias, a gente fez o trajeto a pé, acompanhando o rio Moldava (Vltava); depois, passamos a usar o tram, o simpático bonde local. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
No Farmers Market, a versão tcheca do “achei que era sorvete mas era feijão”: achei que era carrinho de picolé, mas era carrinho de linguiça. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Em Praga, dá vontade de caminhar olhando só pra cima, porque a arquitetura lá é maravilhosa. A propósito, acho que nunca comentei isso aqui, mas: Israel tem alguns dos prédios mais feios que eu já vi na vida. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Catedral de São Vito, no Castelo de Praga. Muito ouro. É impressionante (e assustador) entrar num lugar desses e imaginar o poder que a Igreja Católica tem/tinha sobre o mundo. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Um dos gatinhos do cat café chamado Cat Café que visitamos em Praga. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Elefantíneos do Prague Zoo. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Não temos foto do museu do sexo, mas temos foto de comida :) Encontramos um restaurante coreano chamado 밥; rýže em Praga e gostamos tanto que acabamos indo mais uma vez. Eu estava muito na larica de comida coreana porque em Israel não tem restaurante coreano. Mas agora eu comecei a arrasar muito fazendo minhas comidinhas em casa mesmo; me acompanhem no Instagram @leejwsarah! Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Yom Kippur em Israel

Yom Kippur é uma data que envolve reflexão, arrependimento e oração pela misericórdia de Deus. É como um dia comum da minha vida. A diferença é que hoje tem um país inteiro fazendo a mesma coisa.

Este é o dia mais sagrado do calendário judaico, por isso costuma ser observado mesmo por judeus não-religiosos. É uma mobilização total. Ninguém trabalha; não tem um carro na rua, um ônibus; não tem nada na TV além de um aviso de que a transmissão volta depois do Yom Kippur.

Muita gente está jejuando desde ontem à noite, por isso estou tomando cuidado; hoje evitei usar o fogão e não esquentei nada no microondas para evitar cheirinho de comida (da série Coisas Que Nunca Imaginei Que Fosse Precisar Fazer Antes de Vir Morar em Israel).

Não tinha comida pronta na geladeira e o pão está no congelador, então não daria nem pra fazer um sanduíche sem botar no micro-ondas (e tem coisa que acorda mais o estômago do que cheirinho de pão quente?). Acabei inventando um macarrão mara, rápido de fazer e gostoso, que não precisa passar nada no fogo. A única coisa que cozinhei foi o macarrão em si, que não tem cheiro, então não tem problema. Passei o macarrão cozido direto da panela pra tigela com cream cheese, queijo, alho picado, tomatinho cortado em quartos, azeite, sal e pimenta do reino moída na hora. Como o macarrão estava superquente, o cream cheese e o queijo derreteram e ficou tudo cremoooso. Nhams.

comida yom kippur israel
Meu macarrão de Yom Kippur. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Gente, vou aproveitar o assunto para divulgar meu Twitter, @sarahjwlee, onde estou escrevendo sobre lances curtos da vida em Israel. Este post nasceu de tweets que joguei lá mais cedo :) Também estou com esta outra conta, @talmida_tova, onde estou tweetando só em hebraico, para praticar minha escrita!