O Alex encontra beleza nos meus olhos

O título parece romântico, mas na verdade eu vou escrever sobre um dos temas menos sexy do mundo: semântica hebraica.

Tem uma expressão em hebraico que eu acho engraçada, porque ela faz um drama enorme para dizer algo muito simples. “Limtsô chen beinéi”, cuja tradução literal é algo como “encontrar beleza (ou graça) nos olhos de”, significa apenas que fulano gosta de tal coisa.

Então se eu quero dizer que “Eu gosto do Alex”, eu falo: “Alex motsé chen beeinái”, ou, literalmente, “O Alex encontra beleza nos meus olhos”. Para dizer que “Ele gosta de mim”, eu falo: “Ani motsét chen beeináv”, ou “Eu encontro beleza nos olhos dele”.

O mais cômico é que a expressão não serve apenas para pessoas; você pode usá-la com as coisas mais mundanas, tipo “pneu”, e vai soar como se estivesse declamando um poema: “Ele gostou deste pneu” = “Hatsemíg hazé matsá chen beeináv” = “Este pneu encontrou beleza nos olhos dele”.

Apesar de parecer pomposa, a expressão é supercomum no hebraico do dia-a-dia – tanto que, antes de fazer uma pesquisinha para escrever este post, eu nem sabia que o verbo “gostar” existe, sim, em hebraico: “lichabév”. No ulpan eu aprendi apenas o “leehóv”, que a professora traduzia como “to love or to like”. E o Google Translate curiosamente não mostra o “lichabév” quando você busca por “gostar”; “gostar” e “amar” são igualmente traduzidos como “leehóv”.

Fiz um print pra vocês verem: “amar” e “gostar” são traduzidos para o hebraico como se fossem a mesma coisa: “leehóv”. Só depois de tentar em inglês é que descobri que tem um verbo diferente para cada um: “leehóv” e “lichabév”. Foto: Sarah Lee/Gaveta de esquilo

Para terminar, mais duas curiosidades sobre o assunto “romance” (ou não): em hebraico, não existe a palavra “namorado”; ou você é meu amigo, ou é meu marido. E na verdade, a palavra “marido” não significa “marido”; ela significa “dono”!

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Sua mensagem é muito importante para nós

Este é um post de #firstworldproblems. Eu sei.

Mas é que eu tava revendo o tanto de stress das últimas semanas e cheguei à conclusão de que essa montanha não passaria de um montinho se as pessoas simplesmente fizessem o seu trabalho e levassem a sério a tarefa de responder e-mails e mensagens em geral.

Vou dar um exemplo. Só um exemplo mesmo, porque a quantidade de e-mail, mensagem e ligação que eu tenho feito ultimamente – quase tudo frustrado – pra resolver paranauês pessoais não é brinquedo, não. Fui conhecer uma empresa X. Me receberam bem, me explicaram direitinho as condições, foram solícitos, me deixaram o contato deles caso eu precisasse tirar mais alguma dúvida. Fiquei com uma ótima impressão. Aí mandei um e-mail fazendo uma pergunta Y. Nada de resposta. Quatro dias depois, reencaminhei o e-mail, pedindo uma confirmação de recebimento. Nada de resposta. Dois dias depois, enviei um WhatsApp para o responsável, que era a pessoa com quem eu tinha conversado pessoalmente. Nada de resposta – mesmo depois que as marquinhas de tique ficaram azuis.

Eu já estava imaginando um monte de cenários que explicassem por que ele não respondia. Será que os e-mails caíram na caixa de spam? Será que roubaram o celular? Será que o lugar faliu? Será que alguém da família morreu? Será que ele me passou os contatos errados de propósito? Será que ele odeia orientais e não quer fechar negócio comigo? No dia seguinte, liguei.

– Oi, Fulano, aqui é a Sarah, tudo bem? Pode falar um pouquinho? Tô ligando porque te mandei dois e-mails com perguntas, e te enviei mensagem no WhatsApp também, mas ainda não tive retorno.

– Oi, Sarah! Ah, é que eu não fiquei aqui nessa semana, e estava sem a minha agenda, então não consegui ver o que você queria; mas amanhã de manhã te respondo sem falta, pode ficar tranquila.

Assim, sussa. Daí fiquei pensando “nossa, gente, será que eu que estou exigindo demais? Porque eu sempre respondo tudo imediatamente e espero o mesmo de volta, mas vai ver que isso é mania de jornalista, que tem esse senso de urgência, né”.

Então eu postei no Facebook: “Apenas uma curiosidade: quanto tempo vocês acham aceitável uma empresa ou pessoa prestadora de serviços demorar para responder um e-mail de um cliente? Um dia? Dois? Três? Uma semana? E-mail? O que é e-mail?”. As respostas foram todas do tipo: “12 horas úteis”; “o ideal é que não passe de um turno”; “imediatamente, nem que seja para dizer que viu sua mensagem e vai te responder”.

Hm.

E o moço que disse pra eu “ficar tranquila” porque ia me dar uma resposta “amanhã de manhã”? O amanhã de manhã chegou e passou. Pergunta se ele me deu a resposta.

no-frog
Imagem: reprodução

“Ah, Sarah, esquece esse Fornecedor 1 e procura outras alternativas!”

Uhum.

Fornecedor 2: contato por mensagem no Face. Disse que “em seguida” me mandaria mais informações. Data? 13 de julho. Nunca mais me escreveu.

Fornecedor 3: contato por e-mail. Demorou três dias para responder, e, quando respondeu, fez uma proposta de orçamento que não tinha nada a ver com o que eu pedi.

Fornecedor 4: contato por e-mail. Resposta rápida, informações completas, superprofissional. Custa um rim e meio.