Como fazer as malas quando você vai mudar de país

As pessoas sempre me pedem dicas de como fazer as malas para viajar, eu digo que é muito simples: é só começar de baixo para cima. Comece a arrumação pelo sapato que você mais vai usar; escolha as roupas que combinam com o sapato; escolha as cores de roupas que combinam entre si; escolha os acessórios que combinam com as roupas. Pá pum, e você tem um closet portátil em que tudo combina com tudo.

Agora que vim para Israel, também posso dar dicas de como fazer as malas para mudar de país! E, olha, é muito simples: você só precisa saber quais são as suas prioridades. Por exemplo, se você está terminando de arrumar as suas coisas e vê que tem, sei lá, cinco pacotes de instant noodles coreanos que a sua mãe ficou insistindo para você levar ocupando um espaço que cabe, tipo, o seu iPad, é meio óbvio o que você tem que fazer, né?

Sim: agradecer a sua mãe quando bate aquela larica de chapaghetti logo na sua primeira semana num país que não tem Ottogi.

Obrigada, 엄마! Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Vou buscar o iPad na próxima ida ao Brasil. Sorry not sorry. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Criança Amarela, por Monge Han

Ressucitei o Gaveta de Esquilo só pra postar esses quadrinhos do Monge Han, ilustrador supertalentoso que descobri hoje, por acaso, no Facebook. A série “Criança Amarela”, como ele explica, são “reflexões sobre a minha experiência crescendo como uma criança descendente de asiáticos no Brasil”. Achei forte e sensível ao mesmo tempo; uma patada delicada:

(Imagens: reprodução Facebook Monge Han)

Feliz ano novo com a melhor expressão coreana que eu já escutei

Ontem eu estava ajudando a minha mãe na cozinha quando ela me ensinou a melhor expressão coreana que eu já escutei: 소가 장화 신고 지나갔네, algo como “a vaca passou por aqui calçando galochas”. Ela soltou essa depois de ver o caldo de carne que o meu pai tinha preparado com antecedência para ser a base do 떡국, uma sopa de massa de arroz tradicionalmente consumida no dia 1º de janeiro. O que ela quis dizer é que o caldo estava tão ralinho que não dava nem pra notar a presença de carne.

#euri

Avenida Paulista, pesadelo dxs introvertidxs, mulheres, orientais

Ontem na Avenida Paulista.

Descendo no ponto do ônibus, a caminho do Masp. Grupo de encoletados. Ugh.

Encoletado, oferecendo um aperto de mão: BOM DIA, MOÇA!

Eu, andando rápido e ignorando a mão no ar: Oi, moço, eu não quero conversar hoje, ok? Bom dia.

Encoletado, fingindo que não ouviu o que eu disse: VOU ANDAR COM VOCÊ, A GENTE AJUDA CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO, VOCÊ ACHA QUE ELAS MERECEM A SUA ATENÇÃO?

Eu, just keep walking, just keep walking: Tchau, moço.

No vão do Masp, esperando a Jana.

Senhora de jaleco: Oi, mocinha, vamos tirar a pressão hoje?

Eu: Não, obrigada.

Senhora de jaleco: É pra ajudar na faculdade de medicina.

Eu: Não, obrigada.

Senhora de jaleco me encara em silêncio e vai embora.

Dois minutos.

Vendedor de poesia número 1, dos olhos vidrados: Gosta de poesia?

Eu: Não.

Vendedor de poesia número 1, dos olhos vidrados, fica me encarando. Encara, encara, encara. Vai embora.

Dois minutos.

Vendedor de poesia número 2, senhor bonachão: BOM DIA, MENINA, GOSTA DE POESIA?

Eu: Bom dia, senhor, não gosto.

Vendedor de poesia número 2, senhor bonachão: VOCÊ É UMA POESIA! OLHA QUE LINDA!

Eu, procurando algum lugar pra me esconder: Obrigada, senhor.

Vendedor de poesia número 2, senhor bonachão, vai embora sorrindo.

Dois minutos.

Volta o vendedor de poesia número 1.

Vendedor de poesia número 1, dos olhos vidrados: Você fala português?

Eu, aiquesaco: Falo.

Vendedor de poesia número 1, dos olhos vidrados, fica me encarando: Eu achei que você não falava português.

Eu, procurando algum lugar pra onde correr: Uhum.

Vendedor de poesia número 1, dos olhos vidrados, ainda me encarando: Você é japonesa?

Eu, pelamordedeus, Jana, cadê você?: Não, sou descendente de coreanos.

Vendedor de poesia número 1, dos olhos vidrados, fica me encarando. Encara, encara, encara. Vai embora.

Dois minutos.

Volta a senhora de jaleco.

Senhora de jaleco: Oi, mocinha, vamos tirar a pressão hoje?

Eu: Nã-

Senhora de jaleco, lembrando que já tinha falado comigo: Ah, eu já falei com você!

Senhora de jaleco vai embora.

Dois minutos.

Volta o vendedor de poesia número 2.

Vendedor de poesia número 2, senhor bonachão: TÁ ESPERANDO O AMOR?

Eu: Não, só uma amiga.

Chega a Jana, graças aos céus.

Exposições vistas, almoço almoçado, vamos pra Fiesp.

No único momento em que a gente se separa dentro da sala de exposição, eu estou no setor de porcelanas importadas. Vem o segurança intrometido.

Segurança intrometido, falando comigo e apontando pra um vaso japonês: Ó, Japão.

Eu, fazendo o sinal universal do te-escutei-mas-não-to-a-fim-de-conversa-por-favor-me-deixe-em-paz: Uhum.

Segurança intrometido, apresentando sinais de insuficiência de semancol: Esse você já conhece, né?

Eu:

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Eu. Não. Sou. Japonesa.

Segurança intrometido:

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