Uma saudade: museus brasileiros

(Este post faz parte de uma série de coisas que eu queria ter escrito no ano passado, mas querer não é poder, e muito menos fazer, não é mesmo?)

No fim de 2018, o Alex estava de viagem marcada para o Brasil para participar de um congresso de oftalmologia, e eu fui junto de feliz. A gente ficou menos de duas semanas, mas, vou te contar: durante esse tempinho, eu visitei mais museus e centros culturais do que durante todo o um ano e meio que eu moro em Israel.

Olha a avenida Paulista, por exemplo. Que saudade de ter tanta opção de cultura em um só lugar! Tire um dia livre para caminhar em uma única linha reta e você tem acesso à Japan House, Casa das Rosas, Itaú Cultural, Sesc, Centro Cultural Fiesp, MASP, IMS – e quase tudo de graça!

Os dois melhores programas culturais que eu fiz em 2017-2018 foram durante essas duas semanas no Brasil: a exposição do Ai Weiwei na Oca, em São Paulo, e a nossa visita a Inhotim, em Minas Gerais.

Saudades em fotos:

Exposição do Ai Weiwei na Oca, em São Paulo. Trabalho lindo e cheio de significado. Gostei que tinha bastante texto explicativo. Eu conhecia muito pouco da obra do Weiwei, e senti que fui embora mais rica de conhecimento. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Exposição do Ai Weiwei na Oca, em São Paulo. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
“Reto”: para mim, a obra de maior impacto da exposição do Ai Weiwei. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Inhotim. Nada me preparou para a maravilhosidade que é esse lugar. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
“Sonic Pavilion”, do Doug Aitken: uma das minhas obras/instalações favoritas. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Entrada da Galeria Claudia Andujar, a mais linda de Inhotim. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Em preparação para este post, eu estava relendo os textos explicativos da exposição do Ai Weiwei, e o texto de “Reto” me deu uma pontada no coração. Achei apropriado terminar com ele.

“No dia 12 de maio de 2008, um terremoto de magnitude 8,0 causou danos catastróficos na província de Sichuan, sendo que a devastação generalizada atingiu áreas como Wenchuan e o condado de Beichuan. O número de mortos no terremoto ultrapassou 80.000, além de 300.000 feridos.

Enquanto muitos prédios foram capazes de resistir aos violentos tremores, os edifícios construídos pelo governo, incluindo escolas, desmoronaram. As mais de 7.000 salas de aula destruídas apontavam algo que extrapola as forças da natureza. Os imóveis desmoronados foram chamados de “prédios de tofu” devido aos materiais de má qualidade utilizados em suas construções. Muitos perceberam que as escolas desmoronadas eram uma forte evidência da corrupção que assola as administrações locais e provinciais.

Devido à recusa dos governos em contabilizar de forma transparente as mortes de estudantes, Ai Weiwei iniciou a Investigação dos Cidadãos para identificar e lembrar de cada indivíduo. Sua equipe de voluntários foi de porta em porta, falando com as famílias e registrando o nome, a idade, a escola e a turma de cada aluno. À medida que a investigação avançava, Weiwei publicava as descobertas em seu blog. Uma parte fundamental da investigação foi o documentário Little Girls Cheeks (2009), que incluiu entrevistas com pais e funcionários da escola assim como imagens de arquivo, que acompanharam as consequências imediatas do terremoto e a resposta do governo às críticas crescentes. No final de Investigação dos Cidadãos, 5.196 alunos foram identificados com êxito.

Reto é uma instalação feita com vergalhões de aço recuperados dos escombros da Escola Secundária de Beichuan. Depois de retirados dos destroços, eles foram para um ferro-velho, onde Ai comprou o material e o transportou para seu estúdio em Pequim. Cada uma das peças foi endireitada manualmente por meio de um processo intensivo de trabalho, que durou mais de um ano.

A grande divisão presente na obra sugere uma fissura no solo, evidência do que aconteceu. O trabalho se torna uma metáfora para o trauma ocorrido, bem como a vontade de superá-lo. Paradoxalmente, também extressa a preocupação do artista com a rapidez com que a sociedade pode seguir, quase como se nada tivesse acontecido.

O trabalho completo consiste em 164 toneladas de vergalhões de aço. A exposição na Oca exibe pela primeira vez a instalação Reto em sua totalidade.”

O nome completo da Kitty

O mais legal de ser casada com uma pessoa de outra nacionalidade é que você está sempre aprendendo coisas de outro país. Recentemente, eu entendi a questão dos nomes na Rússia – e descobri como é o nome completo da Kitty.

Kitty, Monster Face, Senhorita Bigodes. A gente chama a Kitty de vários jeitos, mas ela tem um nome real oficial. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

1) Sobrenome: assim como na Coreia, tradicionalmente, as crianças nascidas na Rússia recebem apenas o sobrenome do pai. Mas há um detalhe. Os meninos recebem o sobrenome exatamente com a mesma grafia, enquanto que as meninas recebem o sobrenome com um “a” no final. O sobrenome do Alex é Maliarov; portanto, o sobrenome da Kitty é Maliarova.

2) Nome do meio: além do sobrenome, o nome próprio do pai também vai para a certidão de nascimento das crianças russas, e vira um nome do meio com a adição de um sufixo específico para os meninos (“ich”, “vich” ou “evich”) e outro para as meninas (“ovna”, “evna” ou “ichna”). O nome do Alex é Alexander; portanto, o nome do meio da Kitty é Alexandrovna (com ênfase no primeiro “a” – “Alexândrovna”).

3) Nome próprio: o Alex tem vários amigos russos, ucranianos e bielorrussos que viraram meus amigos também, e eu fiquei chocada nesta semana porque finalmente descobri que o nome de muitos deles, pelos quais eu sempre os chamei, não é o nome deles; é o apelido. O único que eu já sabia é o Sasha, que é o apelido de Aleksandr (o Alex, meu marido, é Alex pra gente, mas ele é Sasha para toda a família e os amigos que falam russo). Dima é Dmitry. Pasha é Pavel. Slavik é Vyacheslav. E Katya é Yekaterina. Foi assim que a conversa começou. A Katya veio em casa e conheceu a Kitty, e disse: “Katya e Kitty são quase iguais. E se eu sou Yekaterina, a Kitty deve ser…”

“- Yekittyrina”, concluiu o Alex.

Então é isso. O nome completo da Kitty é Yekittyrina Alexandrovna Maliarova.

[Cries in Hebrew]

Agora que tenho um mês de ulpan, acho que dá para fazer um balanço do meu aprendizado de hebraico. E a primeira coisa que me vem à cabeça é este cartoon da Sarah Anderson.

Cada semana tem sido esse “hellish ride” que vai do “uhuuul” para o “obaaa” para o “hmmm” para o “eita!” para o “sniiif” e para o “buááá” – e sobe de novo e despenca, e sobe de novo e despenca. Um dia eu acho que estou arrasando e que é só uma questão de tempo até pegar fluência; no outro, bate o desespero e eu sinto que nunca vou sair do “Me Tarzan, you Jane”.

(Vou ter que dividir este post em tópicos, porque é muita coisa para chorar)

1. Primeiro, o idioma em si. É difícil, minha gente. Eu já tinha falado aqui da questão do alfabeto que parece que as letrinhas estão de ponta-cabeça; da escrita que é da direita para a esquerda; e do não-uso das vogais; mas existem mais tretas que aprendi no ulpan, como:

a) vários sons que não existem em português, nem inglês, nem coreano. Eu tenho dificuldade especialmente com a letra “hey”, que é tipo o “r” de “rato”, mas mais suave; a letra “resh”, que é tipo o “Rá-Rá-Rá” da música do Quico; e a letra “chet”, que é aquele som que parece que a pessoa está limpando a garganta.

b) além desses sons específicos, a sonoridade geral do hebraico é completamente diferente de tudo que eu conheço. E quando você tem zero referência de sonoridade, cada palavra que você precisa memorizar é um novo drama; basicamente, o que você faz é decorar uns barulhos.

c) tudo tem gênero. Em inglês, você diz “I study hebrew. I am a good student” se você é homem e se é mulher. Nada muda. Em português, você diz “Eu estudo hebraico. Eu sou um bom estudante” se você é homem e “Eu estudo hebraico. Eu sou uma boa estudante” se é mulher. Muda-se o adjetivo e o artigo que o acompanha. Já em hebraico, você diz “Ani lomed ivrit. Ani talmid tov” se você é homem e “Ani lomedet ivrit. Ani talmida tova” se é mulher. Além do substantivo e do adjetivo, muda-se também a conjugação do verbo de acordo com o sexo de quem está falando! Outro exemplo: “How old are you?” -> em inglês, sem gênero. “Quantos anos você tem?” -> em português, sem gênero. Mas em hebraico, você pergunta “Ben cama ata?” para os homens, e “Bat cama at?” para as mulheres.

(to be continued – aqui)

Aleph de amor, bet de baixinho

Ontem eu comecei o ulpan, que é o curso intensivo de hebraico para novos imigrantes aqui em Israel. Pelo que entendi, cada cidade tem o seu próprio ulpan, e novas turmas são formadas de acordo com a demanda – mas tudo é padronizado nacionalmente, da capacitação dos professores até a programação de cada módulo. O iniciante, que é o que eu estou fazendo, tem duração de cinco meses, sendo cinco aulas por semana*, cinco horas por dia.

*De domingo a quinta-feira, que é a semana de trabalho em Israel.

A minha sala tem 25 alunos: 22 são russos, ucranianos ou de algum outro país da ex-União Soviética; dois são brasileiros; e uma é japonesa. As professoras falam em hebraico na maior parte do tempo, mas às vezes traduzem para outros idiomas – sempre primeiro para o russo, porque eles são a grande maioria em todas as turmas, e depois para o inglês. Sério, é tanto russo e ucraniano que os comunicados espalhados pela escola, em hebraico, são traduzidos em letras pequenas para o russo, e não o inglês, que geralmente é o idioma internacional. O banheiro feminino tem vários avisos escritos em hebraico e russo que parecem ser importantes. Que avisos são esses? Boa pergunta.

Esta é uma amostra do que fizemos no primeiro dia de aula:

A minha letra normal já é maravilhosa (#sqn); imagina a minha letra em um idioma que comecei a aprender ontem, escrito da direita para a esquerda! Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Massada, Patrimônio Mundial da Unesco – parte 2

No caminho entre o Mar Morto e o Mar Vermelho, paramos em Massada e decidimos fazer a trilha a pé para ver o nascer do sol lá do alto da montanha (foto e descrição aqui).

A paisagem natural é incrível, e isso já começa a justificar o título de Patrimônio Mundial da Humanidade concedido pela Unesco em 2001; mas o que engrossa o caldo é o contexto histórico.

No topo plano da montanha fica a fortaleza de Massada, construída mais ou menos no ano 31 a.C. a mando do rei Herodes. No início da grande revolta judaica contra Roma, em 66 d.C., o lugar foi conquistado por um grupo de rebeldes judeus, e Massada acabou se tornando a última resistência da Primeira Guerra Judaico-Romana. Em 72 iniciou-se o cerco romano a Massada e, em 73, eles conseguiram romper o muro da cidadela. Quando as tropas romanas invadiram o lugar, porém, elas descobriram que 960 judeus que viviam ali preferiram se matar a serem capturados vivos.

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(Fotos: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo)