Sonhando com bananas

“Odeio” é uma palavra forte, mas cara, como eu odeio lidar com dinheiro. 1) Dinheiro revela o que há de pior nas pessoas. 2) Consequentemente, lidar com dinheiro quase sempre significa ter que escolher entre engolir ou ser engolido. 3) Não tem para onde fugir.

Fico imaginando como seria bom ser um chimpanzé e trocar banana por banana, ou por um ocasional coco. Penso nisso desde que assisti a este TED maravilhoso do professor de História Yuval Noah Harari, que explica “por que os humanos dominam o mundo?” (dá para colocar legendas em português indo em “Detalhes” – “Legendas/CC”):

Orelha de burro, cabeça de ET

A gente acha que a mudança de país vai ser difícil no começo, e que lentamente as coisas vão ficando mais fáceis hahaha, não, as coisas vão ficando piores. Porque quando você cai de para-quedas nesse mundo novo, tudo bem que você não sabe falar, ler e escrever, tudo bem que você pede o menu em inglês no restaurante, tudo bem que o seu marido marca a sua consulta no médico. Mas daí um dia você vê que gastou meia hora andando no sol pra ir ao Correio buscar uma encomenda, e quando você é atendida e dá o papel de aviso de tentativa de entrega pro moço, ele diz que você está no lugar errado, e você pede pra ele escrever o endereço do lugar certo, e ele diz que o endereço está no papel, e você olha pra onde ele está apontando e realmente, o endereço está lá anotado em negrito, mas você não tinha entendido porque está em hebraico, daí você agradece e sai encabulada porque poxa, virei essas pessoas que fazem mongolice porque não leram as instruções, daí você bota o endereço no Google Maps e anda mais meia hora no sol até o lugar certo, e dá de cara com as portas fechadas porque veja só, eles só abrem às 13h – como está escrito no papel, em hebraico. No Brasil você era jornalista e Comunicação era o seu trabalho; em Israel você joga duas horas inteiras do seu dia no lixo porque já faz quase um ano que você mora aqui e você ainda não consegue ler um papelzinho. Porra, Sarah Lee.

I don’t like to bother people – baby Sarah edition

Uma vez, quando eu era criança, fui tomar banho e quando terminei e saí do chuveiro, vi que não tinha toalha no banheiro. Minha família toda estava em casa. Eu gritei pedindo para alguém trazer uma toalha para mim? NOPE, eu fiquei lá pelada tremendo de frio até a água do meu corpo secar sozinha.

Até hoje eu só tomo banho depois de verificar se tem toalha.

+ I don’t like to bother people

Cansaço de comprar leite

Outro dia eu estava conversando por WhatsApp com uma pessoa no Brasil, e ela me perguntou sobre as coisas em Israel, e eu larguei um desabafo que ela visualizou a mensagem e nunca mais me respondeu.

Bem cansadas, é como estão as coisas em Israel.

Eu falo um pouquinho de hebraico, mas um pouquinho não é o suficiente num país onde as pessoas não têm paciência para nada. No começo, quando alguém me perguntava algo na rua, eu não conseguia nem terminar de dizer “slihá, ani lo medaberet ivrit” (“desculpe, eu não falo hebraico”), porque no meio da frase o serumani já estava virando para ir embora. Atualmente, se alguém me pergunta algo falando devagar, eu até consigo responder direitinho em hebraico, mas ninguém fala devagar, mesmo quando você pede para falarem devagar, ou seja, eu não consigo responder.

As pessoas aqui não são simpáticas ou polidas nem com outros israelenses, imagina com a forasteira que pede para repetir as coisas três vezes.

O supermercado é o pior lugar. Sabe aquele pesadelo da infância de quando a sua mãe te deixava na fila do supermercado para pegar outra coisa e ia chegando a sua vez e ela não aparecia? Essa é a minha vida com o Alex indo pegar mais um saco de batatas quando a gente está quase na boca do caixa.

Mas pelo menos quando vamos juntos, se eu não entendo alguma coisa, ele me ajuda. Quando eu vou sozinha, só me resta levar patada de atendente pé na porta. Tava conversando com uma colega do ulpan, e é isso: cada ida ao supermercado é um desgaste, a gente sai pra comprar um leite e volta pra casa esgotada. A gente não conhece nenhuma marca e não consegue ler os nomes dos produtos ou a lista dos ingredientes, então cada idinha ao mercado é pelo menos meia hora de pesquisa no Google Translate; sem contar o constante estado de atenção e tensão, aquele nervoso de alguém falar com a gente e a gente não conseguir responder.

E no meu caso, tem mais essa: não basta eu me sentir deslocada, assim, nessa sensação só minha, por dentro; as pessoas fazem questão de apontar o dedo. Eu acho vou ter um treco da próxima vez que alguma criança (criança criança ou criança adulta) olhar para mim e falar “IAPÁÁÁÁNNN!”.