Problema do gato

Outro dia, o Alex e eu estávamos comentando sobre uma grande diferença entre os meus amigos do Brasil e os amigos dele em Israel: a estrutura familiar. Eu tenho poucos amigos próximos que são casados oficialmente, enquanto que, entre os amigos do Alex, são poucos os que não são. Entre os meus amigos, são poucos os que têm filhos; e quando têm, têm um só. Entre os amigos do Alex, quase todos têm filhos, e muitos já estão no terceiro!

Corta para uma outra conversa, com um casal de amigos daqui. Eu, na minha realidade “não tenho filhos e tenho poucos amigos que têm”, e esse casal, que tem três crianças. Eu disse que não conseguia imaginar como eles davam conta de tudo, porque ouvindo as histórias de amigos que têm um filho só, me parecia ser impossível cuidar de mais que um. Eles deram risada e explicaram que, na verdade, o primeiro é o que dá mais trabalho mesmo, mas que muito disso é a falta de experiência dos pais. A partir do segundo, você já sabe o que está fazendo, e as coisas correm com mais facilidade. No terceiro, então, você já é profissional. Então é claro que, com três filhos, você tem mais questões para resolver do que com um, mas cada questão do terceiro te estressa muito menos do que as questões do primeiro. Com o primeiro, cada negocinho que acontece você fica “MEU DEUS, O BEBÊ SOLUÇOU, O QUE VAMOS FAZER?”. No terceiro, você já está num grau de leveza que é tipo: “O quê? O bebê está comendo a comida do gato? Problema do gato!”.

Please come to Brazil

Ontem à noite, falando ao telefone com a minha mãe, contando as novidades da semana.

Eu: – Ah, omma, e talveeez a gente vá para o Brasil no fim de novembro. Vai ter um congresso de oftalmologia em São Paulo que pode ser que o Alex vai ter que participar, e, se ele for, eu vou com ele.

Mãe: – Oh, fim de novembro, é?

Eu: – Sim, mas não é certeza ainda. A empresa do Alex vai confirmar se ele vai ter que viajar mesmo; daí se ele for, eu vou junto.

Mãe: – Entendi.

Eu: – Se eles falarem que sim, a gente avisa.

Mãe: An, arassó.

Eu: – Não está confirmado ainda, hein?!

Mãe: – Tá bom.

Minha mãe vira para o meu pai e fala: “A Sarinha e o Alex vão vir para o Brasil no fim de novembro!”.

Como o Mingau virou o gato da Magali

Eu amo as historinhas da Turma da Mônica; quando eu era criança, a gente recebia os gibis em casa por assinatura mensal, e, mesmo assim, eu sempre parava para ler quando via um exemplar na casa de alguém. A minha prima Florencia, por exemplo, também tinha um monte de gibis na casa dela, e eles inevitavelmente me atraíam quando eu ia lá pra gente brincar:

[MiniSarah deitada no chão do quarto da MiniFlor, lendo um gibi da Magali]

MiniFlor brava, parada na porta do quarto: – Você veio pra brincar ou pra ler gibi??

MiniSarah: – Pra brincar!

[Passam cinco segundos e ninguém se mexe]

MiniFlor: – Então, você não vem??

MiniSarah: – Pera, deixa eu terminar essa historinha!

Ontem a página da Turma da Mônica no Facebook postou na íntegra a primeira história da Magali com o Mingau – meus dois personagens favoritos -, que saiu no gibi Magali nº1, de fevereiro de 1989! Eu nunca tinha lido essa historinha, e achei a coisa mais fofa e triste-mas-com-final-feliz do mundo (a minha Kitty também é adotada; e aqui em Israel tem tantos gatinhos de rua… No começo eu ficava feliz de ver gatos por todo lado, mas agora só fico triste por eles – mas enfim, isso é outra história). Não resisti, e tive que publicar aqui no blog:

(Imagens: reprodução Facebook Turma da Mônica)

Feliz ano novo com a melhor expressão coreana que eu já escutei

Ontem eu estava ajudando a minha mãe na cozinha quando ela me ensinou a melhor expressão coreana que eu já escutei: 소가 장화 신고 지나갔네, algo como “a vaca passou por aqui calçando galochas”. Ela soltou essa depois de ver o caldo de carne que o meu pai tinha preparado com antecedência para ser a base do 떡국, uma sopa de massa de arroz tradicionalmente consumida no dia 1º de janeiro. O que ela quis dizer é que o caldo estava tão ralinho que não dava nem pra notar a presença de carne.

#euri

Terra, Planeta Água

No colegial eu tinha uma amiga com quem rolava forte identificação porque ela também era uma descendente de coreanos desgarrada da colônia. Por causa desse background cultural parecido, a gente compartilhava as mesmas frustrações e os mesmos dilemas, mas também dávamos bastante risada juntas.

Achávamos graça, por exemplo, na empolgação dos nossos pais durante os programas de meio ambiente / vida selvagem que passavam na televisão – coreano ama um Discovery Channel. Daí a gente ficava rindo e imitando os “omonaaa” das nossas mães vendo episódios de, sei lá, Os Hábitos Alimentares Noturnos do Crocodilo Canhoto do Nilo.

Lembrei disso porque comecei a assistir à série-documentário Planet Earth no Netflix e, embora eu não solte nenhum “omonaaa”, senti o peso da idade quando observei esse momento “estou virando minha mãe”. Ela, aliás, deu risada de mim há poucos dias, quando eu comentei que o ano estava passando muito rápido. “hihihi, isso é coisa de gente velha, acho que você está ficando velha, hihihi”, ela disse.

Enfim, Planet Earth já é de uns anos atrás (2006), mas se você nunca assistiu, eu recomendo. Foram cinco anos de produção e filmagens para a criação de uma temporada dividida em 11 capítulos. O primeiro deles já dá me deu uma bela puxada pro chão; uma dose de perspectiva que acho essencial ter de vez em quando.