I don’t like to bother people

Tava contando para uma amiga sobre as dificuldades do meu primeiro emprego aqui em Israel, que estava sendo muito difícil, porque eu só podia falar em hebraico com as pessoas, e elas em hebraico comigo, e que apesar de ter sido uma ótima aluna no ulpan eu estava sofrendo porque não conseguia nem me expressar nem entender meus colegas, e eles acabavam tendo que repetir cada informaçãozinha três vezes, e aí ela falou: “Sarah, pensa assim: se tá difícil pra você, tá mais difícil pra eles”, e ela disse isso tentando me confortar, mas eu me senti pior ainda, porque no mundo das notícias bizarras eu sou esse moço:

“‘Eu não gosto de incomodar as pessoas’, diz homem que dirigiu sozinho até o pronto socorro com um prego em seu coração.” Foto: reprodução

Na verdade, até ligar para desabafar com essa amiga já me demandou muita coragem, porque eu não queria incomodá-la.

+ I don’t like to bother people – baby Sarah edition

Pequena lista de palavras engraçadas em hebraico

O hebraico tem uma sonoridade completamente diferente dos idiomas que eu conheço, por isso, para mim, muitas palavras soam assustadoras – como “ARUCHAT TSARRARÁIM”*, que parece um grito de guerra bárbaro, mas na verdade é simplesmente… Almoço.

(*o “ch”, aqui, é aquele som que parece que a pessoa está limpando a garganta, como em “Bach”)

A sorte é que pelo menos por enquanto, o número de palavras engraçadas tem sido maior que o número de palavras assustadoras. Segue uma pequena lista:

“Bakbúk”: garrafa
“Iôm shishí”: sexta-feira
“Káputchiôn”: moletom com capuz
“Kfafót”: luvas
“Meániên”: interessante (acho a palavra engraçada porque ela soa meio chinesa)
“Nissaiôn”: experiência (e essa soa japonesa!)
“Pilpél”: pimenta
“Pkák”: rolha
“Zé”: este/isto

E a minha preferida para sempre, que eu dou risada toda vez que escuto:

“MELAFIFÓN”

Eu devo ter ficado uns 20 minutos rindo com esta cara quando o Alex me ensinou a palavra. “Melafifón” é pepino. Foto: reprodução

Kitty

Ontem nós finalmente levamos a gata para ser castrada.

Mal chegamos à clínica veterinária e já começou o vexame. Estardalhaço, terror featuring pânico, a atendente quase levou uma mordida. Só depois que o Alex me deu um longo abraço, dizendo que ia ficar tudo bem, é que eu me acalmei, pedi desculpas e deixei eles pegarem a gata.

Ela se recupera bem.

Existe amor em Nahariya

No dia que descobri que eu não posso fazer o ulpan bet, eu fiquei bem mal. Uma colega de sala me falou – num tom que até hoje eu não sei se era condolência ou impaciência – “você pode fazer aulas particulares!”. De um jeito ou de outro, ela não tinha entendido que a minha tristeza não era pelo curso em si, afinal, realmente, eu posso continuar aprendendo hebraico de outras formas, em outros lugares. A tristeza foi pelo recado quase soletrado: “você não é querida aqui”.

(Obs. 1: o ulpan aleph, que foi esse que eu terminei no fim de dezembro, foi de graça para todos os alunos da minha sala, que são judeus. A aluna do Japão e eu fomos as únicas que pagaram a taxa de 3 mil shekels (2.829,38 reais) no ato da matrícula. O ulpan bet a gente não pode fazer nem pagando.)

(Obs. 2: todas as turmas do ulpan aleph fazem uma viagem a Jerusalém durante ou logo após o curso. Novamente, a aluna do Japão e eu somos as únicas “premiadas”: a gente não pode participar da viagem, porque ela é só para os alunos judeus. O pessoal está neste momento confirmando presença no nosso grupo no WhatsApp :/)

Fiquei chateadíssima, fui chorar no banheiro, voltei pra aula, fui chorar no banheiro de novo, voltei pra aula. Não tinha ninguém com quem desabafar, a minha colega japonesa tinha faltado nesse dia, o resto da sala estava rindo em russo (mais sobre isso no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Arrumei minhas coisas e fui embora. Botei os óculos escuros para disfarçar a cara inchada, conectei os fones de ouvido, dei play na playlist do meu casamento no Spotify para me lembrar o porquê de eu ter mudado para Israel, e fui caminhando arrastado até o ponto de ônibus, duas ruas abaixo da escola.

Estava lá sentada esperando meu ônibus, quando vem uma mulher e senta num banco próximo. O ônibus demora para vir. Fico pensando na minha situação de rejeitada e começo a chorar de novo. “A excluída dos excluídos dos excluídos. A única oriental entre os poucos brasileiros entre os muitos russos entre os todos judeus.” Snif. A mulher olha para mim. Olha pro outro lado. Pouco depois, olha para mim novamente. Acho que ela vai falar alguma coisa, mas ela olha pro outro lado. Ela olha para mim, e, desta vez, continua me olhando. Sorrindo, ela faz um sinal com a mão para me chamar a atenção e fala alguma coisa, que eu não escuto por causa da música. Tiro o fone de ouvido já sentindo um quentinho por dentro, “poxa, existe amor em Nahariya, a moça está preocupada porque eu estou chorando e quer saber o que aconteceu. Vai ficar tudo bem, Sarah Lee”.

A moça fala novamente:

Moça: (em hebraico) Que horas são, por favor?

Eu: (por dentro) HAHAHAHA.
Eu pego o celular e mostro para ela, porque me dá um branco e não lembro como dizer as horas em hebraico.

Moça: (em hebraico) Oh, você não fala hebraico?

Eu: (em hebraico) Só um pouco, mas estou estudando; sou aluna naquele ulpan [apontando para a rua de cima].

Moça: (em russo) Ah, então você fala russo?!

Retrospectiva do ulpan: cinco meses de aulas de hebraico resumidos em 20 gifs

O ulpan aleph terminou na semana passada, e eu me dei uns dias de férias antes de começar a procurar outro curso de hebraico. Não escrevi o diário de bordo do ulpan do último mês porque a maioria do conteúdo acabou sendo de revisão para as provas finais – nas quais eu fui muito bem, obrigada; mas eu quero deixar marcado este capítulo da minha vida, então segue um post especial de gifs, porque sim.

(Gifs: reprodução)

1. Indo para o primeiro dia de aula na escola de hebraico:

Tão inocente.

2. Vendo que 99% da escola só fala russo, mas tudo bem, porque assim vai dar para aprender dois idiomas de uma vez só:

Tão, tão inocente.

3. Percebendo que você não aprender russo coisa nenhuma, que você só vai ficar sozinha com cara de bunda enquanto as pessoas ao seu redor falam em russo, escrevem em russo, riem em russo, vivem em russo:

#foreveralone

4. Quando a professora vai ensinar a contar de um a dez em hebraico, e de repente a sala toda começa a contar junto, porque eles já estudaram hebraico antes de vir para Israel e você é a única que ainda não sabe contar:

Achat, shtaim, shalosh.

5. Dando aquela choradinha básica no banheiro da escola porque você não entende seus colegas, não entende a professora e não tem amigos:

Quem nunca?

6. Chegando em casa e desabafando tudo no blog, porque você se expressa melhor escrevendo do que falando:

Leia mais posts na tag “ulpan“.

7. Se jogando nos estudos porque é o que dá pra fazer, né:

8. Quando toca uma música em hebraico na rádio e você entende uma palavra pela primeira vez:

A emoção!

9. Quando você entende uma frase inteira:

10. Recebendo o resultado de uma prova importante e vendo você foi melhor do que muitos alunos que estudaram hebraico antes de vir para Israel:

Digdin, digdin, digdin.

11. Toda vez que a professora faz revisão de um assunto e pergunta o que é a palavra “xis”, e você tem certeza que estudou essa palavra na semana passada, mas não consegue lembrar o que é:

A arte de confundir “machshev” (“computador”) com “michtáv” (“carta”), com “misrád” (“escritório”), com “messibá” (“festa”), com “missadá” (“restaurante”).

12. Na primeira vez que rola quebra-pau na sala porque os alunos não chegam a um consenso sobre qual a tradução exata de uma palavra “xis” do hebraico para o russo:

13. Na septuagésima terceira vez que rola esse mesmo quebra-pau:

14. Aprendendo a conjugação de verbos irregulares no passado:

15. Aprendendo a conjugação de verbos irregulares no futuro:

16. Tentando memorizar todos os pronomes que existem em hebraico:

17. Quando você descobre que não pode fazer o ulpan bet, mesmo depois de ter estudado pencas e batalhado para se tornar uma das melhores alunas da turma:

Voltei pra casa chorando nesse dia. Escrevi sobre isso neste post.

18. No último mês de aula, quando o merecido descanso está quaaase ali, tão perto mas tão longe:

Férias… quaase… quaaase…

19. Quando o curso finalmente termina, e você acha que vai se despedir dos seus colegas de sala assim:

Who’s bad?

20. Mas na verdade acaba se despedindo assim:

#coraçãodemanteiga.