Joaninsky

Eu sempre falo das palavras engraçadas em hebraico (vide aqui e aqui), mas não vamos esquecer que, graças ao Alex, eu também acabo aprendendo vários termos em russo.

Em português, joaninha. Em inglês, ladybug. E em russo?

Uma das minhas coisas favoritas é o jeito que eles chamam as joaninhas: божья коровка. Lê-se “bójia karóvka”, e a tradução literal é… “pequena vaca de Deus”.

Expandindo o vocabulário

Eu tenho inveja de gente que tem ouvido bom para idiomas, e que aprende vocabulário escutando músicas ou assistindo a séries. No meu caso, eu só consigo decorar palavras por meio da leitura e da escrita – muita escrita.

Recentemente, eu voltei a estudar hebraico no trem, no caminho do trabalho para casa. Eu uso meu livro de gramática, e toda vez que aparece uma palavra que eu acho que seria bom saber, eu escrevo ela pelo menos 20 vezes nas minhas folhinhas de rascunho.

Então tá lá:

שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה

ou

אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה

Para palavras positivas tudo bem, como essas acima, que são “felicidade” e “amor”. Mas fico preocupada de um dia alguém me pegar repetidamente escrevendo algo tipo:

רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח

que significa “assassinato”.

Todo dia uma vergonha diferente

Qualquer pessoa que já aprendeu um idioma pelo método caindo-de-paraquedas-no-país-novo-e-se-virando-por-aí sabe que grande parte do processo de sobreviver ao dia a dia é simplesmente tentar adivinhar o que os locais estão te falando na língua que você ainda não domina.

Claro que você pode simplesmente pedir pro Fulano repetir o que ele disse até você entender, mas às vezes você não tem tempo e o Fulano não tem paciência. Então você aprende a ir chutando. Na maioria das vezes, a adivinhação cola, mas de vez em quando, a gente passa vergonha.

Pouco tempo depois que a família da minha mãe chegou ao Brasil sem falar um pingo de português, minha mãe e meus tios já estavam se virando nos 30, vendendo roupas de porta em porta. Meu tio tinha uma cliente frequente que era bonachona, mas também curtia rir, e tem uma história deles que eu amo. Meu tio tava lá mostrando as roupas, e a cliente percebeu que ele respondia “sim” pra tudo que ela perguntava, tipo “o tecido é de boa qualidade?”, e ele “siiiim”. Daí ela resolveu se divertir. “Esse tecido encolhe?!”, e ele “siiiim!”, e ela “kkkkkk”.

Quando a família do Alex veio da Rússia para Israel, eles não falavam nada de hebraico, então eles também passaram aperto. Um dia a minha sogra precisou ir a um prédio público para assinar uns documentos de previdência social, e todos os prédios públicos aqui têm detectores de metal e um guarda na porta que revista a bolsa de todo mundo. Minha sogra estava se preparando para entrar, e o guarda perguntou pra ela, como é de praxe, “você tem alguma arma de fogo na bolsa?”, e ela respondeu prontamente: “Sim!!”

Lembrei desses causos porque eu perdi meu trem pra voltar pra casa hoje, então fui comprar um lanche pra comer enquanto esperava o próximo. Peguei um suco de frutas vermelhas e pedi um croissant de chocolate, e estava me preparando pra pagar quando a caixa me perguntou meu nome pra eles me chamarem quando o pedido estivesse pronto, e eu respondi “Sarah”. Ela riu e repetiu a pergunta, desta vez em inglês: “Você quer que esquente o croissant?”