Fica, vai ter bolo

A gente acha que o Brasil é um país super informal, mas depois de dois anos em Israel, que é um lugar realmente sem formalidades, eu percebo que o brasileiro na verdade é cheio de regras de etiqueta.

O brasileiro, quando entra no elevador do trabalho, fala “bom dia” mesmo pra quem ele não conhece. Quando senta do lado de alguém no ônibus, fala “licença”. Também pede “licença” para entrar, já convidado, na casa de uma pessoa – e normalmente recebe de volta um “fique à vontade”, seguido por um “não repare na bagunça”. Quando come na frente dos outros, oferece o lanche pra roda. Quando corta um bolo de aniversário, bota cada fatia em um prato e vai passando pros convidados. “Você já pegou bolo?”, a gente faz questão de perguntar.

Tudo isso é regra de etiqueta. Alguns diriam que é “educação básica”, que quem não faz essas coisas é “mal educado”, mas esse tipo de “educação” é uma norma social, né. Cada cultura tem a sua. E Israel, pelo que vi até agora, não segue essas normas.

Uma história que aconteceu recentemente, no meu trabalho novo:

Um dia, na minha segunda semana de trabalho, eu notei que estava rolando uma movimentação na sala comum da empresa. A minha equipe trabalha num semi-aquário, então dá pra ver mais ou menos o que acontece nas partes comuns do nosso andar. Vi as pessoas das outras equipes carregando bolos e docinhos. Mas não era comigo, então continuei trabalhando com a cara no computador.

Depois de um minutos, meu editor, parado na porta, me chama a atenção. Levanto a cabeça e só então vejo que estou sozinha na sala; todo o resto da equipe já tinha se juntado à movimentação do lado de fora.

“E aí, você não vem?”, ele pergunta. Eu nem sei do que ele está falando. Pergunto o que está tendo do lado de fora e ele responde “é um aniversário!”, e só falta ele completar com um “dããã!”.

Levanto e vou atrás dele. É aniversário de uma menina de outra equipe. A empresa é relativamente grande, e eu ainda não tinha conhecido ninguém do outro lado, então não sabia o nome da moça, nem o que ela fazia (pra falar a verdade, não sei até agora).

Os chefes falaram umas palavras rápidas, a menina fez um minidiscurso, e aí era hora do bolo.

Mas ela não cortou o bolo e botou nos pratos e foi passando pras pessoas. O bolo ficou lá. Quem queria comer ia pra mesa, cortava o próprio pedaço, botava no seu prato, e comia.

Gente, quem sou eu pra ir cortar o bolo de aniversário de uma menina que eu nem conheço, e pra cujo aniversário eu nem tinha sido convidada? Claro que não comi o bolo, né. E desde então, já tivemos uns três aniversários de funcionários na empresa, e eu ainda não comi bolo nenhum haha #loser

Criança Amarela, por Monge Han

Ressuscitei o Gaveta de Esquilo só pra postar esses quadrinhos do Monge Han, ilustrador supertalentoso que descobri hoje, por acaso, no Facebook. A série “Criança Amarela”, como ele explica, são “reflexões sobre a minha experiência crescendo como uma criança descendente de asiáticos no Brasil”. Achei forte e sensível ao mesmo tempo; uma patada delicada:

(Imagens: reprodução Facebook Monge Han)

The Mash-Up Americans

Acabei de descobrir esse site e estou aqui chorando litros. O nome é The Mash-Up Americans; um pedaço da descrição:

“The Mash-Up Americans cares deeply about all kinds of things, like trying to understand what makes us who we are, eating delicious Brazilian and Salvadoran and Korean dishes and overcoming our guilt [prestem atenção aqui na palavra guilt, que vou voltar a ela mais tarde]. Sometimes we return to our roots, and sometimes we plant new seeds in unexpected places.”

Basicamente é um projeto sobre multiculturalismo. Os personagens são filhos de imigrantes, pessoas em relacionamentos inter-religiosos, casais inter-raciais, etc, e a conversa gira ao redor da dor e da delícia que é ser uma criatura multicultural.

O primeiro artigo que li foi o relato de uma colaboradora que nasceu na Coreia do Sul, cresceu nos Estados Unidos e, aos vinte e poucos anos, foi ter uma experiência de trabalho em Seul. Achei o texto excelente e continuei navegando. Um cliquezinho aqui, um cliquezinho ali, e resolvi clicar no “guilt” (“culpa”) que destaquei ali no segundo parágrafo. Pra quê?

Eu sou praticante do método Chandler Bing de lidar com sentimentos:

chandler-whats-wrong-with-me chandler-dont-open-that-door

(Gifset: reprodução)

Daí de repente dei de cara com um monte de depoimentos que, sério. Eu poderia ter escrito vários deles. E me veio uma avalanche de sensações, muitas das quais eu não quero nem comentar (crise de ugly cry, sim ou com certeza?), mas digo que: fiquei triste, daí fiquei feliz, daí fiquei triste, daí me senti minúscula, daí me senti enorme e daí pensei como é frágil o ser humano, que pode ser sensibilizado por meia dúzia de linhas redigidas por um completo desconhecido.

Enfim, recomendo o site para todos os meus amigos, mash-ups ou não: www.mashupamericans.com.