Caderno de quotes de livros: הרפתקאותיו הרבות של פו הדוב

Mais um título para a minha maravilhosa lista de livros (dois, contando com este!) que já consegui ler em hebraico: “הרפתקאותיו הרבות של פו הדוב”, ou, em bom português, “as muitas aventuras do urso Pooh”. Sim, eu passei as últimas semanas concentrada na laboriosa leitura de histórias sobre o Ursinho Puff e seus amigos.

Esta é a continuação do esquema que comecei com o “למה חתולים לא נחמדים“, de ir copiando o livro à mão e procurando a tradução de todas as palavras que não conheço. Gente, vocês não estão entendendo como é difícil… Cada frase tem cinco palavras desconhecidas; cada página é meia hora de trabalho. Fico pensando que há dois anos eu editava textos de jornalistas, e hoje eu peno para ler uma página de livro infantil – sendo que 3/4 da página é só desenho… Snif. Segue uma amostra das minhas anotações do Ursinho Puff:

Clique para aumentar. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

E uma amostra – traduzida para o português! – para o meu caderno de quotes de livros:

“Carregado pelo vento, Leitão passou voando ao lado de Puff.
‘Olá, Leitão, eu estou indo te visitar agora mesmo’, disse Puff.
‘Que gentileza, mas eu não estou em casa no momento’, respondeu Leitão.
Puff então se deu conta de que seu amigo estava em apuros.”

#Leitãoestressado #Leitãogotnochill #acordaPuff

Dias de luta, dias de glória

Morar em um país cujo idioma você ainda não domina é assim: uns dias de luta, uns dias de glória. Num dia você consegue ligar para a central de atendimento do seguro de saúde e falar, curto e grosso e tudo em hebraico, que você precisa mudar a data da sua primeira consulta médica em Israel; no outro, você para em todos os andares do centro médico e fala com todos os respectivos recepcionistas até descobrir que a sua médica fica no último andar do prédio – informação que consta na placa ao lado do elevador, no térreo, que você não leu porque estava em hebraico (e no fim das contas a sua médica nem estava lá; ela tirou férias, e ninguém te avisou). Um dia, depois que a sua médica volta das férias, você finalmente faz a sua primeira consulta em Israel e narra todo o seu histórico de endometriose em hebraico; no outro, você chega à clínica para fazer o exame de sangue recomendado pela sua médica, e a enfermeira pede para você fechar a porta, e ela tem que pedir três vezes em hebraico enquanto você fica com cara de bunda olhando pros lados suando e pensando “o que essa mulher quer de mim??!!”, até que ela desiste e começa a falar em inglês.

Há cinco minutos

Meu celular toca, número local desconhecido, eu atendo, uma mulher começa a falar comigo em russo: “Добрый день”. Eu respondo, em inglês: “good afternoon”. Depois que ela faz uma longa introdução em russo, eu respondo: “hi, I’m sorry, I don’t speak Russian.”

E ela me diz, em inglês *perfeito*: “Oh, I don’t speak English, only Russian. Do you speak Russian?”

Eu: “No.”

Ela, em inglês *perfeito*: “Oh, ok, sorry, bye!”

#lifeinIsrael

Orelha de burro, cabeça de ET

A gente acha que a mudança de país vai ser difícil no começo, e que lentamente as coisas vão ficando mais fáceis hahaha, não, as coisas vão ficando piores. Porque quando você cai de para-quedas nesse mundo novo, tudo bem que você não sabe falar, ler e escrever, tudo bem que você pede o menu em inglês no restaurante, tudo bem que o seu marido marca a sua consulta no médico. Mas daí um dia você vê que gastou meia hora andando no sol pra ir ao Correio buscar uma encomenda, e quando você é atendida e dá o papel de aviso de tentativa de entrega pro moço, ele diz que você está no lugar errado, e você pede pra ele escrever o endereço do lugar certo, e ele diz que o endereço está no papel, e você olha pra onde ele está apontando e realmente, o endereço está lá anotado em negrito, mas você não tinha entendido porque está em hebraico, daí você agradece e sai encabulada porque poxa, virei essas pessoas que fazem mongolice porque não leram as instruções, daí você bota o endereço no Google Maps e anda mais meia hora no sol até o lugar certo, e dá de cara com as portas fechadas porque veja só, eles só abrem às 13h – como está escrito no papel, em hebraico. No Brasil você era jornalista e Comunicação era o seu trabalho; em Israel você joga duas horas inteiras do seu dia no lixo porque já faz quase um ano que você mora aqui e você ainda não consegue ler um papelzinho. Porra, Sarah Lee.

I don’t like to bother people

Tava contando para uma amiga sobre as dificuldades do meu primeiro emprego aqui em Israel, que estava sendo muito difícil, porque eu só podia falar em hebraico com as pessoas, e elas em hebraico comigo, e que apesar de ter sido uma ótima aluna no ulpan eu estava sofrendo porque não conseguia nem me expressar nem entender meus colegas, e eles acabavam tendo que repetir cada informaçãozinha três vezes, e aí ela falou: “Sarah, pensa assim: se tá difícil pra você, tá mais difícil pra eles”, e ela disse isso tentando me confortar, mas eu me senti pior ainda, porque no mundo das notícias bizarras eu sou esse moço:

“‘Eu não gosto de incomodar as pessoas’, diz homem que dirigiu sozinho até o pronto socorro com um prego em seu coração.” Foto: reprodução

Na verdade, até ligar para desabafar com essa amiga já me demandou muita coragem, porque eu não queria incomodá-la.

+ I don’t like to bother people – baby Sarah edition