Há cinco minutos

Meu celular toca, número local desconhecido, eu atendo, uma mulher começa a falar comigo em russo: “Добрый день”. Eu respondo, em inglês: “good afternoon”. Depois que ela faz uma longa introdução em russo, eu respondo: “hi, I’m sorry, I don’t speak Russian.”

E ela me diz, em inglês *perfeito*: “Oh, I don’t speak English, only Russian. Do you speak Russian?”

Eu: “No.”

Ela, em inglês *perfeito*: “Oh, ok, sorry, bye!”

#lifeinIsrael

Orelha de burro, cabeça de ET

A gente acha que a mudança de país vai ser difícil no começo, e que lentamente as coisas vão ficando mais fáceis hahaha, não, as coisas vão ficando piores. Porque quando você cai de para-quedas nesse mundo novo, tudo bem que você não sabe falar, ler e escrever, tudo bem que você pede o menu em inglês no restaurante, tudo bem que o seu marido marca a sua consulta no médico. Mas daí um dia você vê que gastou meia hora andando no sol pra ir ao Correio buscar uma encomenda, e quando você é atendida e dá o papel de aviso de tentativa de entrega pro moço, ele diz que você está no lugar errado, e você pede pra ele escrever o endereço do lugar certo, e ele diz que o endereço está no papel, e você olha pra onde ele está apontando e realmente, o endereço está lá anotado em negrito, mas você não tinha entendido porque está em hebraico, daí você agradece e sai encabulada porque poxa, virei essas pessoas que fazem mongolice porque não leram as instruções, daí você bota o endereço no Google Maps e anda mais meia hora no sol até o lugar certo, e dá de cara com as portas fechadas porque veja só, eles só abrem às 13h – como está escrito no papel, em hebraico. No Brasil você era jornalista e Comunicação era o seu trabalho; em Israel você joga duas horas inteiras do seu dia no lixo porque já faz quase um ano que você mora aqui e você ainda não consegue ler um papelzinho. Porra, Sarah Lee.

UPDATE 09.04: Estou atualizando o post para contar como foi o resto do meu dia ontem; também atualizei as tags, adicionando a #chorandodebocaaberta.

Depois do fiasco do Correio, voltei para casa com a missão de receber a entrega da Ikea das compras que fizemos na quinta-feira da semana passada e que eles só entregaram ontem porque teve feriado judaico, então ninguém trabalhou na quinta pós-pôr do sol, nem na sexta. Os entregadores chegaram e eu já estava lá com o recibo na mão, conferindo cada item que eles botavam no chão da sala porque chega, né, eu não vou errar de novo no quesito prestar-atenção-no-que-está-escrito-no-papel. Era um monte de coisa, e eles trouxeram quase tudo em uma leva só; mas eles tiveram que descer uma vez para buscar um colchão, então até eles voltarem deu tempo de conferir a lista inteira, e estava tudo certinho; ufa. Eles trouxeram o colchão, eu agradeci, eles foram embora, eu fechei a porta. Olhei para aquela bagunça já esperando ver a gata pirando nas caixas de papelão, mas só tinha silêncio. Silêncio?! Ué, cadê a gata?

“Kitty?” Nada. “Kitty? Pss pss.” Nada. O coração acelerando. “Quanto tempo a porta ficou aberta?” Peguei a bolinha que faz barulho que ela ama, e fui andando pela casa chamando pela gata e procurando nos lugares onde ela sempre se enfia. Janelas, atrás das cortinas, nas cadeiras da mesa de jantar, atrás dos livros, atrás da televisão, no vão da máquina de lavar roupa. Nada. A GATA SUMIU. Abri a porta do apartamento e chamei o elevador na esperança de que ela só tivesse visto a porta aberta e entrado e ficado lá sozinha. Elevador vazio. Desci as escadas correndo e parando em cada andar, procurando pelos cantos, “ela não pode estar longe, putz, ela não tem coleira, e se ela se perder? Não, ela não pode ter saído do prédio, como ela abriria a porta? Putz, os moços da Ikea, e se ela saiu com eles? Como eu ligo pra Ikea pra perguntar dos entregadores que estiveram aqui há 5 minutos? Será que eles viram a gata? Sarah, sua burra, sua burra! E se ela tentar atravessar a rua e for atropelada? E se alguém pega-la e leva-la pra casa? Ela não tem coleira!”. Cheguei ao térreo, nada da gata. Corri até a porta da frente; a porta de trás; nada. Subi as escadas de novo e desta vez fui até os andares acima do meu apartamento. Nem sinal. “O que eu faço, o que eu faço? Ligo pro Alex? Como eu explico isso pra ele?”. Decidi voltar para casa e procurar uma última vez. Janelas, atrás das cortinas, nas cadeiras da mesa de jantar, atrás dos livros, atrás da televisão, no vão da máquina de lavar roupa. Nada. Daí me dá um clique: e se ela estiver debaixo do sofá? Vou agachando devagar. “Por favor, por favor, esteja debaixo do sofá, esteja debaixo do sofá.” Ela estava debaixo do sofá. FILHA DA P

(Pensando agora parece meio óbvio que eu tinha que ter olhado lá, mas ela nunca se esconde debaixo do sofá :/ Ela é uma gata supersocial, sempre vem cumprimentar as visitas, dá cabeçadinha no tornozelo de todo mundo… Mas, por algum motivo, ela ficou assustadíssima com a entrega da Ikea. Depois eu tentei acalmá-la, fiquei um tempão sentada no chão onde ela podia me ver, deixei ela cheirar a minha mão, trouxe comidinha, nada funcionou. Ela ficou lá a tarde inteira).

Corta para algumas horas depois, e eu estou voltando ao Correio para buscar o meu pacote, que *precisava* estar em mãos ontem. Já faz semanas que estou esperando a entrega, acompanhando o trajeto pela internet desde o dia da compra; e estava achando muito estranho que a página tinha parado de ser atualizada no dia 20 de março. Achei mais estranho ainda quando entrei em contato com a equipe do lugar onde fiz a compra, e eles me falaram que, de acordo com o site do Correio de Israel, já haviam sido feitas duas tentativas de entrega – sendo que eu tenho ficado em casa o dia todo, e não houve tentativa de entrega coisa nenhuma.

Na sexta-feira eu finalmente encontrei o papel de aviso de tentativa de entrega, que estava amassado lá no fundo da nossa caixa postal :/ Fomos ao Correio, mas as portas estavam fechadas por causa do feriado. Ficou pra ontem. Fui de manhã, endereço errado; fui pro endereço certo, só abria à tarde; fui no fim da tarde. Cheguei no guichê e dei o papel para a moça. Ela vai de pacote em pacote checando os números de referência e então eu vejo um tubo que parece ser o meu, e eu já estou assim:

“Nossa, Sarah Lee, mas por que tanta emoção por um pacote? O que você tinha encomendado?” Nada menos que o meu presente de casamento para o Alex! Ontem completamos o nosso primeiro aniversário de casamento, e eu queria dar um presente significativo e que tivesse a ver com o tema da data (1º aniversário de casamento = bodas de papel), e, depois de muito procurar, encontrei o presente PERFEITO: um pôster/ilustração customizado com o mapa das estrelas no exato dia e lugar que a gente se conheceu: 24 de abril de 2014, em Santiago, Chile – tudo no pôster, escrito bonitinho.

Superpessoal, né? Aparentemente não para algum desgraçado que trabalha no Correio, porque quando eu apontei para o tubo e a moça pegou e trouxe para mim… Ele estava vazio! Uma das tampas havia sido removida, e lá estava o tubo, oco, e eu, com cara de bunda.

E esse foi o meu dia ontem.

I don’t like to bother people

Tava contando para uma amiga sobre as dificuldades do meu primeiro emprego aqui em Israel, que estava sendo muito difícil, porque eu só podia falar em hebraico com as pessoas, e elas em hebraico comigo, e que apesar de ter sido uma ótima aluna no ulpan eu estava sofrendo porque não conseguia nem me expressar nem entender meus colegas, e eles acabavam tendo que repetir cada informaçãozinha três vezes, e aí ela falou: “Sarah, pensa assim: se tá difícil pra você, tá mais difícil pra eles”, e ela disse isso tentando me confortar, mas eu me senti pior ainda, porque no mundo das notícias bizarras eu sou esse moço:

“‘Eu não gosto de incomodar as pessoas’, diz homem que dirigiu sozinho até o pronto socorro com um prego em seu coração.” Foto: reprodução

Na verdade, até ligar para desabafar com essa amiga já me demandou muita coragem, porque eu não queria incomodá-la.

+ I don’t like to bother people – baby Sarah edition

Pequena lista de palavras engraçadas em hebraico

O hebraico tem uma sonoridade completamente diferente dos idiomas que eu conheço, por isso, para mim, muitas palavras soam assustadoras – como “ARUCHAT TSARRARÁIM”*, que parece um grito de guerra bárbaro, mas na verdade é simplesmente… Almoço.

(*o “ch”, aqui, é aquele som que parece que a pessoa está limpando a garganta, como em “Bach”)

A sorte é que pelo menos por enquanto, o número de palavras engraçadas tem sido maior que o número de palavras assustadoras. Segue uma pequena lista:

“Bakbúk”: garrafa
“Iôm shishí”: sexta-feira
“Káputchiôn”: moletom com capuz
“Kfafót”: luvas
“Meániên”: interessante (acho a palavra engraçada porque ela soa meio chinesa)
“Nissaiôn”: experiência (e essa soa japonesa!)
“Pilpél”: pimenta
“Pkák”: rolha
“Zé”: este/isto

E a minha preferida para sempre, que eu dou risada toda vez que escuto:

“MELAFIFÓN”

Eu devo ter ficado uns 20 minutos rindo com esta cara quando o Alex me ensinou a palavra. “Melafifón” é pepino. Foto: reprodução

Existe amor em Nahariya

No dia que descobri que eu não posso fazer o ulpan bet, eu fiquei bem mal. Uma colega de sala me falou – num tom que até hoje eu não sei se era condolência ou impaciência – “você pode fazer aulas particulares!”. De um jeito ou de outro, ela não tinha entendido que a minha tristeza não era pelo curso em si, afinal, realmente, eu posso continuar aprendendo hebraico de outras formas, em outros lugares. A tristeza foi pelo recado quase soletrado: “você não é querida aqui”.

(Obs. 1: o ulpan aleph, que foi esse que eu terminei no fim de dezembro, foi de graça para todos os alunos da minha sala, que são judeus. A aluna do Japão e eu fomos as únicas que pagaram a taxa de 3 mil shekels (2.829,38 reais) no ato da matrícula. O ulpan bet a gente não pode fazer nem pagando.)

(Obs. 2: todas as turmas do ulpan aleph fazem uma viagem a Jerusalém durante ou logo após o curso. Novamente, a aluna do Japão e eu somos as únicas “premiadas”: a gente não pode participar da viagem, porque ela é só para os alunos judeus. O pessoal está neste momento confirmando presença no nosso grupo no WhatsApp :/)

Fiquei chateadíssima, fui chorar no banheiro, voltei pra aula, fui chorar no banheiro de novo, voltei pra aula. Não tinha ninguém com quem desabafar, a minha colega japonesa tinha faltado nesse dia, o resto da sala estava rindo em russo (mais sobre isso no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Arrumei minhas coisas e fui embora. Botei os óculos escuros para disfarçar a cara inchada, conectei os fones de ouvido, dei play na playlist do meu casamento no Spotify para me lembrar o porquê de eu ter mudado para Israel, e fui caminhando arrastado até o ponto de ônibus, duas ruas abaixo da escola.

Estava lá sentada esperando meu ônibus, quando vem uma mulher e senta num banco próximo. O ônibus demora para vir. Fico pensando na minha situação de rejeitada e começo a chorar de novo. “A excluída dos excluídos dos excluídos. A única oriental entre os poucos brasileiros entre os muitos russos entre os todos judeus.” Snif. A mulher olha para mim. Olha pro outro lado. Pouco depois, olha para mim novamente. Acho que ela vai falar alguma coisa, mas ela olha pro outro lado. Ela olha para mim, e, desta vez, continua me olhando. Sorrindo, ela faz um sinal com a mão para me chamar a atenção e fala alguma coisa, que eu não escuto por causa da música. Tiro o fone de ouvido já sentindo um quentinho por dentro, “poxa, existe amor em Nahariya, a moça está preocupada porque eu estou chorando e quer saber o que aconteceu. Vai ficar tudo bem, Sarah Lee”.

A moça fala novamente:

Moça: (em hebraico) Que horas são, por favor?

Eu: (por dentro) HAHAHAHA.
Eu pego o celular e mostro para ela, porque me dá um branco e não lembro como dizer as horas em hebraico.

Moça: (em hebraico) Oh, você não fala hebraico?

Eu: (em hebraico) Só um pouco, mas estou estudando; sou aluna naquele ulpan [apontando para a rua de cima].

Moça: (em russo) Ah, então você fala russo?!