Coração quentinho na estação de trem

Eu estava na estação de trem esperando para ir pra casa, quando os alto-falantes fizeram um anúncio em hebraico e as pessoas na minha plataforma começaram a se movimentar com pressa; era alguma coisa sobre um trem próximo ter mudado de plataforma.

Tirei o fone de ouvido e prestei atenção à repetição do anúncio, mas não consegui entender qual trem tinha mudado. Estava lá tentando compreender se eu também precisava correr, quando, do meio daquela manada de gente, sai um moço com farda de soldado que para na minha frente e me pergunta, em inglês com sotaque, qual trem eu estou esperando. Ele me explica o que foi dito nos alto-falantes, e concluímos que não foi o meu trem que mudou; eu posso continuar onde estou. Eu agradeço de coração quentinho. A gente troca sorrisos. Ele se funde à manada de gente correndo.

Viagem à Jordânia em fotos de bichinhos fofos

Um homem e seus burros em Petra, na Jordânia. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Estou com alguns posts de viagem acumulados pra postar, mas a inspiração não vem, então para contar da nossa aventura na Jordânia, vou apelar para fotolegendas de bichinhos fofos:

A viagem à Jordânia começou com uma viagem por Israel. O Alex tinha que ir até Eilat, no sul do país, a trabalho, e eu não apenas fui junto de feliz, como convidei o Daniel e o Anselmo, que vieram do Brasil e estavam passando férias em Tel Aviv, para ir com a gente :D Fizemos Eilat/Mar Vermelho, e, como era perto, decidimos ir também para a Jordânia. Na foto, um bichinho fofo do deserto israelense. Depois de tirar a foto, alguém apontou que na montanha lá atrás tinha vários bichinhos fofos de boa, tomando sol. Eles são exatamente da mesma cor das pedras, por isso é difícil de enxergar se você não souber pra onde tem que olhar. Danadinhos! Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
Para ir de Israel até a Jordânia, foi simples assim: deixamos o carro no estacionamento do Yitzhak Rabin Border Crossing, em Eilat, botamos as mochilas nas costas, pagamos umas taxas de entrada, e fomos andando de um país pro outro. No lado jordaniano, que fica na cidade de Aqaba, fomos recebidos por um representante da agência de viagens que a gente contratou, e, depois de passar pela burocracia de entrada, ele nos direcionou pro nosso motorista. O motorista nos levou até o deserto de Wadi Rum, onde fomos recebidos pelo nosso guia, que nos levou pros picos locais. Wadi Rum é um cenário de outro mundo que atrai, além de turistas, produtores cinematográficos buscando… cenários de outro mundo. “Perdido em Marte” é um filme recente que foi gravado por lá, e, olha só: nosso guia local disse que conheceu o Matt Damon! Aqui, um camelo curiosinho. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
No dia seguinte fomos para Petra, que é uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo, e que foi escolhida pela revista “Smithsonian” como um dos “28 lugares para ver antes de morrer”. Check! Lá, nós fomos guiados pelo pior guia do mundo, mas tudo bem, porque a paisagem compensa. A entrada já é inesquecível. O Siq é uma passagem formada naturalmente, um caminho perfeito no meio de uma rocha de 200 metros de altura que se partiu com a força de movimentos tectônicos. Você anda mais de um quilômetro por essa via sinuosa, em que você não vê nada além do céu e das paredes rochosas, e, quando parece que não vai mais acabar, surge à distância, como uma luz no fim do túnel, o Tesouro (Al-Khazneh): uma tumba com fachada em estilo helenístico de 40 metros de altura, escupida direto na rocha. Saindo do Siq, a cidade se abre, e de lá você tem muitas opções de trilhas e de coisas para ver. Nós escolhemos ir para o Monastério, onde registrei esse gatinho carismático – um dos vários que vimos por lá. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo
O Monastério, construído no século 3, é parecido com o Tesouro, mas é ainda maior (45 metros de altura e 50 de largura), e fica no topo de um monte. O Lonely Planet diz que a trilha até lá leva 40 minutos, mas acho que a gente levou muito mais do que isso. A trilha é comparável à de Massada (falei desse rolê aqui e aqui): uma subida “seca”, sem natureza, sem árvores para fazer sombra, só pedra, sol, e muitos degraus – 800 para o Monastério, 100 a mais do que para Massada. Acho que foi a trilha mais difícil que já fiz na vida. E é engraçado, porque quando você finalmente chega ao topo, a primeira coisa que você vê é uma construção pequenininha, e você pensa “eu subi até aqui pra *isso*???”, mas aí você olha pra direita e vê o Monastério esculpido na rocha, e fica tudo bem. Quem também acha que tá tudo bem? Essa ovelha pretinha com peruquinha branca. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Alarme falso

Eu sempre falo pras pessoas que eu me sinto mais segura em Israel do que no Brasil, porque aqui a gente não lida com o medo diário de coisas como furto, assalto, sequestro, assédio. Mas eu também não esqueço que eu moro onde moro, e já passei por alguns sustos por isso.

Em várias ocasiões, sozinha em casa, eu achei que as sirenes de ataque aéreo estavam disparando. Mas foram sempre sustos rápidos, durante dois ou três segundos em que eu paro de respirar para prestar atenção ao barulho, percebo que era apenas um vento forte, e relaxo.

Hoje foi a primeira vez que eu me enganei por tempo suficiente para fazer algo a respeito.

Eu estava sentada no sofá brincando com a Kitty quando escutei o que parecia ser a sirene. Esperei dois ou três segundos até o “vento” passar, mas, em vez disso, o som fez uma ondulação e seguiu constante. Meu coração parou. “É a sirene!!”, pensei. Em movimentos de escavadeira, botei as mãos por baixo da gata, a levantei pro meu colo, segurei com os dois braços e corri pro mamad, que é o quarto de segurança reforçada onde você deve se abrigar em caso de ataque aéreo.

Estava tentando abrir a porta – que é pesadíssima, por sinal – sem derrubar a Kitty quando percebi que o barulho tinha parado. Mais um alarme falso. Era só o vento de novo, aparentemente.

A gata ficou sem entender nada.

UPDATE 16h10: acabei de ler no jpost.com que a sirene de ataque aéreo soou hoje de manhã, sim. Não foi o vento. Foi um alarme programado (aparentemente com pouca antecedência, porque a reportagem do “The Jerusalem Post” foi publicada às 6h22 e eu pulei do sofá com a Kitty nos braços às 10h05) para testar o novo sistema nacional de ativação da sirene.

Pessach em Israel é uma semana low carb meio confusa

Eu pedi pro Alex ir ao supermercado na frente de casa para comprar um pacote de macarrão enquanto eu ia fazendo um molho pro jantar, e ele foi… mas voltou menos de um minuto depois, porque ele tinha lembrado de uma informação que me abalou as estruturas: “o supermercado não está vendendo macarrão nesta semana”, ele disse.

Eu: – QUÊ?

Alex: – É, eles não estão vendendo macarrão, pão, nada do tipo.

Eu: – QUÊ??

Alex: – Essas coisas não estão nem à mostra. As prateleiras de macarrão estão escondidas debaixo de uns plásticos.

Eu: – QUÊ???

Estamos na semana de Pessach em Israel. Pessach é o feriado judaico que celebra a história do Êxodo contada na Bíblia hebraica, segundo a qual os israelitas foram libertados, por Deus, da escravidão no Egito. A história conta que quando o Faraó finalmente deu licença para os israelitas partirem, eles foram com tanta pressa que não puderam esperar que a massa do seu pão subisse (fermentasse). Por isso, a cada ano, durante o Pessach, os judeus religiosos não comem pão fermentado. Na verdade, eles não comem nenhum “chametz”, que é qualquer coisa feita com um de cinco tipos de grãos misturado a água e deixado descansando por mais de 18 minutos.

Até aqui é simples; estamos falando apenas de religião. Mas aí entra a política, afinal de contas, aqui é Israel, que se define como Estado judaico. Existe uma lei israelense, criada em 1986 e conhecida como a Lei Chametz, que estabelece que durante o Pessach é proibida a exibição pública de chametz para venda ou consumo.

Teoricamente, a lei não proíbe a venda daquele macarrão escondido debaixo do plástico. Mas aí entra mais religião, afinal de contas, aqui é Israel, que é o único Estado de maioria judia do mundo. E a lei judaica diz que “judeus não podem possuir, comer ou se beneficiar de chametz” durante o Pessach.

O que isso significa na prática? Que se o dono daquele supermercado na frente da sua casa for um judeu religioso, ele (e o supermercado dele) não pode possuir chametz durante o Pessach. Então o que ele faz com aquelas prateleiras cheias de macarrão? Ele dá um jeitinho (ou um jewtinho, hehe). Ele vai e vende todo o estoque de chametz para um não-judeu antes do Pessach. Então durante o Pessach, teoricamente, aquele chametz escondido debaixo do plástico não é dele – e, portanto, não pode ser vendido para você, consumidor com vontade de comer macarronada. Só depois do Pessach é que o dono do supermercado compra o chametz de volta do amigo não-judeu, e a vida segue.

O próprio Estado de Israel adere a essa prática da venda-e-compra de chametz. Todos os anos, o chametz de empresas estatais, do sistema presidenciário e do estoque nacional de suprimentos de emergência de Israel é vendido a um árabe-israelense chamado Hussein Jabar. Em ato cerimonial com gente do alto escalão do governo, ele assina um contrato que estipula o pagamento de uma entrada de 14 mil dólares. Ele paga essa quantia e o chametz passa a ser dele – até o fim do Pessach, quando ele precisa terminar de pagar o valor total do contrato, que é de 300 milhões de dólares. Se essa quantia não for paga (e obviamente ela nunca é paga), o chametz volta às mãos do Estado de Israel e os 14 mil dólares da entrada voltam às mãos do Hussein Jabar.

+ Gente, este post é uma tradução adaptada de uma coisa que eu publiquei ontem no meu Instagram @leejwsarah. Se você tem interesse em assuntos de comida e tem paciência para ler longos textões em inglês, me segue lá :)