Expandindo o vocabulário

Eu tenho inveja de gente que tem ouvido bom para idiomas, e que aprende vocabulário escutando músicas ou assistindo a séries. No meu caso, eu só consigo decorar palavras por meio da leitura e da escrita – muita escrita.

Recentemente, eu voltei a estudar hebraico no trem, no caminho do trabalho para casa. Eu uso meu livro de gramática, e toda vez que aparece uma palavra que eu acho que seria bom saber, eu escrevo ela pelo menos 20 vezes nas minhas folhinhas de rascunho.

Então tá lá:

שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה שמחה

ou

אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה אהבה

Para palavras positivas tudo bem, como essas acima, que são “felicidade” e “amor”. Mas fico preocupada de um dia alguém me pegar repetidamente escrevendo algo tipo:

רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח רצח

que significa “assassinato”.

Interpretação

Hoje o Alex e eu estávamos saindo do médico quando ele lembrou que precisava de um negócio e foi falar com a enfermeira; eu sentei em um dos vários bancos de quatro lugares da sala de espera que ficam encostados na parede.

Nisso entram duas pessoas: um pai e a filha pequena, que devia ter uns cinco anos de idade. O resto do lugar tá completamente vazio, mas a menina vem imediatamente na minha direção, andando com confiança, e senta do meu lado.

O pai olha sério para a criança e fala firmemente, em russo: “vem sentar aqui”, apontando para o banco de quatro lugares mais perto de onde eles entraram. A menina já tá sentada, ela não quer levantar, e não se mexe.

O pai fala de novo, “vem sentar aqui comigo” e a menina nada, ela sorri para ele tipo “mas eu quero sentar deste lado”, e continua sentada. O pai não desiste, vai subindo a voz, “vem sentar AQUI!”. A menina parece confusa, não entende por que não pode escolher onde sentar. Ela olha para mim com uns olhões azuis enormes e olha pro pai como quem diz “mas eu quero sentar do lado dessa moça que parece legal”.

Eu sorrio para ela e olho para o pai. O pai, com um semblante sério esculpido em pedra, não me olha; ele me observa.

A menina derrotada levanta e vai sentar com ele do outro lado da sala. Ele continua me observando de longe.

Dado o contexto atual de coronavírus e os muitos relatos de racismo sofrido por asiáticos em países brancos, eu fiz a minha interpretação. Posso ter interpretado errado? Posso. Mas depois do que aconteceu, eu fiquei repassando a cena na minha cabeça e chorei no carro? Chorei.

Sobre gente que fula fila

Gente que fula fila é uma das Pequenas Coisas Que Me Irritam Muitão. Porque respeitar a ordem de um fila é um elemento muito básico de civilidade. É uma forma tão simples de demonstrar respeito ao próximo. É um negócio literalmente que todo mundo aprende no jardim de infância, e eu fico besta que tem gente que parece que nunca ouviu falar.

Eu fico muito puta quando vejo alguém tentando fular fila, mas normalmente eu não falo nada, porque reprimir emoções negativas até elas virarem úlcera na minha barriguinha faz parte do meu estilo de vida.

Mas hoje não.

Hoje eu estava na fila para entrar na estação de trem, e era uma fila considerável. Eu já falei aqui algumas vezes, mas em Israel, toda vez que você entra num lugar fechado com grande concentração de pessoas, você tem que botar a bolsa no raio X e passar pelo detector de metais. Se muita gente chega à estação de trem ao mesmo tempo, forma-se uma fila.

Eu entrei no fim da fila, e a fila continuou crescendo atrás de mim. Passam-se algum segundos e alguns passos dados pra frente, e uma mulher chega e para bem do meu lado, tipo “vou furar a fila aquizinho como quem não quer nada.” Eu dou aquela olhada da morte pra ver se ela se toca e sai dali, mas ela não se mexe. Então eu resolvo que é hora de parar de sofrer em silêncio. É hoje que eu paro de alimentar a Memeia, Teteia, e Geleia (minhas úlceras).

Eu olho pra mulher e falo em inglês (porque ela tinha cara de gringa): “oi, o fim da fila é pra lá!”, e aponto para atrás de mim.

A mulher responde em inglês, “obrigada”, e sai andando pro *começo* da fila, onde ela entra na frente de *todo mundo*, bota a bolsa no raio X, passa pelo detector de metais, e some estação adentro.

Eu fiquei tipo assim:

Memeia, Teteia, e Geleia vão dormir bem alimentadas hoje.

Todo dia uma vergonha diferente

Qualquer pessoa que já aprendeu um idioma pelo método caindo-de-paraquedas-no-país-novo-e-se-virando-por-aí sabe que grande parte do processo de sobreviver ao dia a dia é simplesmente tentar adivinhar o que os locais estão te falando na língua que você ainda não domina.

Claro que você pode simplesmente pedir pro Fulano repetir o que ele disse até você entender, mas às vezes você não tem tempo e o Fulano não tem paciência. Então você aprende a ir chutando. Na maioria das vezes, a adivinhação cola, mas de vez em quando, a gente passa vergonha.

Pouco tempo depois que a família da minha mãe chegou ao Brasil sem falar um pingo de português, minha mãe e meus tios já estavam se virando nos 30, vendendo roupas de porta em porta. Meu tio tinha uma cliente frequente que era bonachona, mas também curtia rir, e tem uma história deles que eu amo. Meu tio tava lá mostrando as roupas, e a cliente percebeu que ele respondia “sim” pra tudo que ela perguntava, tipo “o tecido é de boa qualidade?”, e ele “siiiim”. Daí ela resolveu se divertir. “Esse tecido encolhe?!”, e ele “siiiim!”, e ela “kkkkkk”.

Quando a família do Alex veio da Rússia para Israel, eles não falavam nada de hebraico, então eles também passaram aperto. Um dia a minha sogra precisou ir a um prédio público para assinar uns documentos de previdência social, e todos os prédios públicos aqui têm detectores de metal e um guarda na porta que revista a bolsa de todo mundo. Minha sogra estava se preparando para entrar, e o guarda perguntou pra ela, como é de praxe, “você tem alguma arma de fogo na bolsa?”, e ela respondeu prontamente: “Sim!!”

Lembrei desses causos porque eu perdi meu trem pra voltar pra casa hoje, então fui comprar um lanche pra comer enquanto esperava o próximo. Peguei um suco de frutas vermelhas e pedi um croissant de chocolate, e estava me preparando pra pagar quando a caixa me perguntou meu nome pra eles me chamarem quando o pedido estivesse pronto, e eu respondi “Sarah”. Ela riu e repetiu a pergunta, desta vez em inglês: “Você quer que esquente o croissant?”