Um post sério sobre coisas sérias – parte 2

(Este post é uma continuação desse aqui)

E a questão religiosa, Saralí? Como é viver num país onde a religião é um tema tão central?

É supreendentemente tranquilo. Antes da viagem eu estava um pouco receosa até pela questão prática de visitar um país religioso: que roupa usar? Tava na dúvida se seria ok sair de regata / shorts, ou se as pessoas iam ficar me encarando na rua. A resposta é: nobody cares.

Três das cinco religiões reconhecidas em Israel (judaísmo, islamismo, druzismo, cristianismo e fé Bahá’í) possuem “identidades visuais” fortes, então em lugares públicos tem de tudo. Você vê os judeus de quipá, os judeus ortodoxos de preto e chapéu, as muçulmanas de hijab, os drusos de calça saruel, a galera muderna de roupas justas / curtas / coloridas / decotadas, e é isso aí; ninguém fica olhando, julgando, apontando o dedo. A gente só tem que tomar cuidado nos lugares sagrados de cada religião. Quando fomos para Nazaré, por exemplo, a Jana estava de bermuda e não pode entrar na Basílica da Anunciação. Felizmente, eles emprestam, gratuitamente, um tipo de avental para você amarrar na cintura e cobrir as pernas. Quando fomos para Jerusalém, eu não tive a mesma sorte. Achei que poderia entrar no Monte do Templo de camiseta, mas como o local é administrado por muçulmanos, as mulheres precisam esconder todo o braço. Essa “triagem” da vestimenta só é feita depois que você passa pela enorme fila e por todo o esquema de segurança, então minha única opção foi pagar os 25 shekels* que eles cobram por um pedaço de lençol – literalmente, um pedaço de lençol, com elástico na ponta e tudo – e cobrir a pele à mostra.

(*Um shekel é mais ou menos um real)

"Cara de 'quero matar a pessoa que me fez comprar esse retalho de lençol'". Foto e legenda: Janaína Harada Duarte
No Monte do Templo, na frente do Domo da Rocha: “Cara de ‘quero matar a pessoa que me fez comprar esse retalho de lençol'”. Foto e legenda: Janaína Harada Duarte

E as tretas religiosas?

Não é uma coisa que a gente vê na rua. A única vez que testemunhei algum tipo de hostilidade religiosa foi no Monte do Templo (ele de novo), quando um judeu ortodoxo passou por um grupo de muçulmanas e iniciou-se uma barulheira delas gritando alguma coisa sobre Alá até ele sumir de vista. Nosso guia explicou que elas fazem isso como forma de intimidação, para reiterar que os judeus não são bem-vindos ali. Porque o fato de que ele estava sendo escoltado por três soldados armados não deixava isso suficientemente claro (?).

Enfim, termino este post sério sobre coisas sérias com esse textinho que o Alex que mostrou há uns dias:

“Os americanos sabem que não se deve ir a Israel – é perigoso. Os israelenses sabem que na verdade Israel não é perigosa, é perigoso somente em Jerusalém. As pessoas em Jerusalém sabem que isso tudo é um absurdo, só há perigo em Gilo (perto de Jerusalém) – há tiroteios. Os moradores de Gilo acreditam que é perigoso apenas em uma rua, a Ha Anath. Na rua Ha Anath todos sabem que só é perigoso o número 15, que fica na área de bombardeios. O prédio no número 15 sabe que o apartamento perigoso é o 36, que fica na linha de fogo. No apartamento 36 qualquer idiota entende que só é perigoso na cozinha – na sala e nos quartos, tudo é tranquilo. Na cozinha você pode se sentir completamente seguro, exceto no canto onde fica a geladeira. No canto da geladeira pode-se realmente levar um tiro, mas só quando você vai pegar alguma coisa no congelador.

Precisa-se tomar um pouco de cuidado ao tirar o hambúrguer do congelador – e isso é chamado de ‘perigoso’???”

Um post sério sobre coisas sérias

Marcelão tava me cobrando um post sério sobre coisas sérias, então aqui vai. Estou escrevendo na humildade, sem pretensão de bancar a analista política; vou apenas listar algumas coisas que as pessoas me perguntam sobre Israel, respondendo o que vejo com meu olhar de estrangeira.

Nossa, Israel? Mas não é perigoso?

Olha, eu me sinto mais segura em Israel do que no Brasil. Claro que a noção de perigo é diferente nos dois países, mas na minha condição de turista sediada em uma cidade pequena e tranquila, estou podendo relaxar de um jeito que eu nunca consegui em São Paulo.

Mas você não tem medo de ficar aí com tudo o que está acontecendo na região?

Tenho meus receios. Como turista, me sinto segura, mas não sei se moraria aqui.

Como é a questão da segurança em Israel? Tem climão? As pessoas têm medo de andar na rua?

Mesmo estando numa cidade cujo lema é “the resort for fun lovers”, sou constantemente lembrada de que este é um país marcado pela guerra. Primeiro, tem os soldados armados: em Nahariya, eles são muito menos numerosos (e as armas são menores) do que vi em Jerusalém, por exemplo, mas ainda assim é uma visão chocante. Segundo, tem as medidas que são estranhas pra gente, mas que aqui são triviais: para entrar na estação de trem ou até mesmo no shopping center, mostra-se o interior da bolsa para o segurança e passa-se pelo detector de metais; se estiver de carro, abre-se o porta-malas. Terceiro, tem o próprio apartamento onde eu moro, que possui um merkhav mugan dirati, ou “mamad”: uma sala de segurança reforçada que é obrigatória, por lei, em todos os novos edifícios israelenses (aliás, vale fazer um post só sobre isso).

Feitas essas observações, vou te contar: não sinto climão e não sinto que o povo tem medo de andar na rua. Novamente, eu sou uma turista numa cidade pequena, mas a impressão que eu tenho é a de que, obviamente, as pessoas entendem a situação delicada da região, mas elas têm certeza de que o governo/o país/o exército vai protege-las. Acredito que isso tem a ver com a proximidade entre a população e as forças de segurança de Israel; o exército não é uma entidade estranha e distante, e sim algo do qual (quase) todos fizeram ou fazem parte, algo em que se pode confiar.

No vôo de Paris para Tel Aviv sentei ao lado de um casal de velhinhos que tinha acabado de visitar a filha nos Estados Unidos, e ficamos conversando sobre vários assuntos. Perguntei sobre a segurança em Israel, e eles contaram de episódios em que parentes tiveram que mudar de cidade por conta de bombardeios – mas eles sempre acabavam retornando para casa. Questionei se eles não consideravam a possibilidade de mudar do país, já que eles têm família estabelecida nos EUA, e a resposta foi meio “não, por quê?”. Fiquei pensando como que o indivíduo escolhe continuar morando num lugar em meio a tantos conflitos externos, mas daí lembro que meus amigos estrangeiros acham bizarro quando eu falo sobre São Paulo e a violência urbana que faz parte do nosso cotidiano.

(to be continued – aqui)

Oito coisinhas que aprendi sobre a vida em Israel

1) A jornada de trabalho mais comum em Israel é de domingo a quinta-feira.

2) Todas as placas de trânsito indicativas de lugar são escritas em hebraico e árabe, que são os dois idiomas oficiais do país, + inglês.

3) As ruas têm: um monte de rotatórias; e motoristas que param pro pedestre atravessar nas faixas que não possuem semáforo. As pessoas (exceto a Jana – oi, Jana) nem olham se têm carro vindo. Tá na faixa de pedestre? O carro vai parar pra você passar. Nazaré é a única cidade que visitei até agora onde os motoristas não param.

4) Pelo menos aqui no Norte, ouvir gente falando em russo é tão comum quanto em hebraico ou árabe. Dona Wikipedia informa que, entre 1990 e 2004, mais de um milhão de pessoas fluentes em russo imigraram da antiga União Soviética para Israel (oi, Alex). Pra botar isso num contexto: a população total do país em 2014 é estimada em oito milhões de pessoas.

5) Israel é um país de gente jovem. Acho que nunca tinha visto um país com tanta criança.

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O majestoso rio Ga’aton, que atravessa Nahariya, no Norte de Israel. Tirei essa foto ontem (20.11). Aparentemente, nessa época do ano já era pra ele estar ficando cheio, mas né, aquecimento global.

6) A chuva cai em temporadas bem específicas, por isso a paisagem natural pode mudar bastante ao longo do ano. Aqui em Nahariya, o rio que corta a cidade fica sequinho, sequinho, durante o verão, e só enche durante o inverno.

7) Onde eu moro – e em muitas outras casas em Israel – o aquecimento da água é feito por meio de energia solar, com painéis instalados no topo do prédio. Dias de sol = água quentinha automática pra tomar banho. Nos dias sem sol, é só ligar um interruptor que fica do lado de fora do banheiro, esperar uns 10 minutos e, voilà, água quente. Agora, me pergunta quantos banhos frios em dias nublados eu tomei antes de descobrir esse paranauê.

8) Ainda no mesmo assunto: o interruptor de luz também fica do lado de fora do banheiro. Israel não é o primeiro país onde eu vejo isso; alguém sabe qual é o motivo?

+ Ah, e tem essas outras coisinhas relacionadas:

A água de Israel é dura.

Em Israel, . tem. gato.

Escrever hebraico com vogais? Ain’t nobody got time for that!

As crianças brincando de lobo não são crianças brincando de lobo.

A descarga do banheiro do aeroporto é um pedal.

Brincadeira de criança

Logo na minha primeira semana em Israel, reparei que era recorrente entre as crianças do prédio brincar de imitar lobos. No cair da noite, quando passam menos carros e a rua fica silenciosa, dá para ouvir os “auuuu, auuuu” em vozes infantis.

Daí uma vez a gente estava vendo TV aqui em casa e eu escutei as crianças fazendo os “auuuu, auuuu”.

Eu: Huh, as crianças de novo.

Alex: Ahn? O que você acha que é esse barulho?

Eu: As crianças do prédio brincando de lobo.

Alex: hehe, não; são chacais.

Eu:

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O que acontece é que, quando eu ouvi “chacais”, pensei imediatamente nas hienas sanguinárias do mal do “O Rei Leão”.

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Mas depois descobri que chacais são basicamente cachorros com rabo de raposa, então tá tudo bem, hehe.

(Foto e vídeo: reprodução)