Pessach em Israel é uma semana low carb meio confusa

Eu pedi pro Alex ir ao supermercado na frente de casa para comprar um pacote de macarrão enquanto eu ia fazendo um molho pro jantar, e ele foi… mas voltou menos de um minuto depois, porque ele tinha lembrado de uma informação que me abalou as estruturas: “o supermercado não está vendendo macarrão nesta semana”, ele disse.

Eu: – QUÊ?

Alex: – É, eles não estão vendendo macarrão, pão, nada do tipo.

Eu: – QUÊ??

Alex: – Essas coisas não estão nem à mostra. As prateleiras de macarrão estão escondidas debaixo de uns plásticos.

Eu: – QUÊ???

Estamos na semana de Pessach em Israel. Pessach é o feriado judaico que celebra a história do Êxodo contada na Bíblia hebraica, segundo a qual os israelitas foram libertados, por Deus, da escravidão no Egito. A história conta que quando o Faraó finalmente deu licença para os israelitas partirem, eles foram com tanta pressa que não puderam esperar que a massa do seu pão subisse (fermentasse). Por isso, a cada ano, durante o Pessach, os judeus religiosos não comem pão fermentado. Na verdade, eles não comem nenhum “chametz”, que é qualquer coisa feita com um de cinco tipos de grãos misturado a água e deixado descansando por mais de 18 minutos.

Até aqui é simples; estamos falando apenas de religião. Mas aí entra a política, afinal de contas, aqui é Israel, que se define como Estado judaico. Existe uma lei israelense, criada em 1986 e conhecida como a Lei Chametz, que estabelece que durante o Pessach é proibida a exibição pública de chametz para venda ou consumo.

Teoricamente, a lei não proíbe a venda daquele macarrão escondido debaixo do plástico. Mas aí entra mais religião, afinal de contas, aqui é Israel, que é o único Estado de maioria judia do mundo. E a lei judaica diz que “judeus não podem possuir, comer ou se beneficiar de chametz” durante o Pessach.

O que isso significa na prática? Que se o dono daquele supermercado na frente da sua casa for um judeu religioso, ele (e o supermercado dele) não pode possuir chametz durante o Pessach. Então o que ele faz com aquelas prateleiras cheias de macarrão? Ele dá um jeitinho (ou um jewtinho, hehe). Ele vai e vende todo o estoque de chametz para um não-judeu antes do Pessach. Então durante o Pessach, teoricamente, aquele chametz escondido debaixo do plástico não é dele – e, portanto, não pode ser vendido para você, consumidor com vontade de comer macarronada. Só depois do Pessach é que o dono do supermercado compra o chametz de volta do amigo não-judeu, e a vida segue.

O próprio Estado de Israel adere a essa prática da venda-e-compra de chametz. Todos os anos, o chametz de empresas estatais, do sistema presidenciário e do estoque nacional de suprimentos de emergência de Israel é vendido a um árabe-israelense chamado Hussein Jabar. Em ato cerimonial com gente do alto escalão do governo, ele assina um contrato que estipula o pagamento de uma entrada de 14 mil dólares. Ele paga essa quantia e o chametz passa a ser dele – até o fim do Pessach, quando ele precisa terminar de pagar o valor total do contrato, que é de 300 milhões de dólares. Se essa quantia não for paga (e obviamente ela nunca é paga), o chametz volta às mãos do Estado de Israel e os 14 mil dólares da entrada voltam às mãos do Hussein Jabar.

+ Gente, este post é uma tradução adaptada de uma coisa que eu publiquei ontem no meu Instagram @leejwsarah. Se você tem interesse em assuntos de comida e tem paciência para ler longos textões em inglês, me segue lá :)

Yom Kippur em Israel

Yom Kippur é uma data que envolve reflexão, arrependimento e oração pela misericórdia de Deus. É como um dia comum da minha vida. A diferença é que hoje tem um país inteiro fazendo a mesma coisa.

Este é o dia mais sagrado do calendário judaico, por isso costuma ser observado mesmo por judeus não-religiosos. É uma mobilização total. Ninguém trabalha; não tem um carro na rua, um ônibus; não tem nada na TV além de um aviso de que a transmissão volta depois do Yom Kippur.

Muita gente está jejuando desde ontem à noite, por isso estou tomando cuidado; hoje evitei usar o fogão e não esquentei nada no microondas para evitar cheirinho de comida (da série Coisas Que Nunca Imaginei Que Fosse Precisar Fazer Antes de Vir Morar em Israel).

Não tinha comida pronta na geladeira e o pão está no congelador, então não daria nem pra fazer um sanduíche sem botar no micro-ondas (e tem coisa que acorda mais o estômago do que cheirinho de pão quente?). Acabei inventando um macarrão mara, rápido de fazer e gostoso, que não precisa passar nada no fogo. A única coisa que cozinhei foi o macarrão em si, que não tem cheiro, então não tem problema. Passei o macarrão cozido direto da panela pra tigela com cream cheese, queijo, alho picado, tomatinho cortado em quartos, azeite, sal e pimenta do reino moída na hora. Como o macarrão estava superquente, o cream cheese e o queijo derreteram e ficou tudo cremoooso. Nhams.

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Meu macarrão de Yom Kippur. Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo

Gente, vou aproveitar o assunto para divulgar meu Twitter, @sarahjwlee, onde estou escrevendo sobre lances curtos da vida em Israel. Este post nasceu de tweets que joguei lá mais cedo :) Também estou com esta outra conta, @talmida_tova, onde estou tweetando só em hebraico, para praticar minha escrita!

Viagem a Jerusalém

De todos os destinos religiosos em Israel, o mais marcante para mim foi Jerusalém. A parte antiga da cidade é linda e acredito que qualquer pessoa gostaria do passeio – mas para nós que fomos criados na Igreja e ouvimos essas histórias em incontáveis estudos bíblicos, a sensação de admiração e reverência é inigualável. As ruas por onde Jesus Cristo caminhou, o local onde ele realizou a Última Ceia, onde ele foi crucificado, onde foi sepultado, de onde ele ressuscitou: as referências estão todas lá, na sua frente, debaixo dos seus pés, acima da sua cabeça, a um braço de distância. Eu já mencionei aqui que tenho meus embates com Deus, mas mesmo assim, esta viagem foi muito especial.

Acabamos indo para Jerusalém na pior época possível, quando o clima estava tenso, com muitos ataques de palestinos contra israelenses judeus; a imprensa começava a falar em uma Terceira Intifada. Mas nos informamos com uma galera que mora em Israel e todos garantiram que a cidade é segura para turistas, então decidimos arriscar. #vidaloka #yolo

Para garantir, fizemos um tour pago, com guia (que eu não recomendo; não vou nem dar ibope), e visitamos todos os principais pontos de interesse em um dia, no meio de um grande grupo de gente obviamente estrangeira. As únicas coisas que deixamos pra manhã seguinte – e que fizemos por conta – foram o Monte das Oliveiras e as compras no mercado de Jerusalém.

Vou postar uma seleção de fotolegendas como resumo (beeem resumido, porque é muita informação) do passeio:

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A Igreja do Santo Sepulcro. Olhando assim nem parece, mas ela é enorme por dentro. Segundo a tradição cristã, a igreja foi construída no local onde aconteceram a crucificação, o sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo.
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Esse painel é uma das primeiras coisas que você vê quando entra na Igreja do Santo Sepulcro (que só possui uma porta para entrada e saída). Tem muita coisa importante lá, mas infelizmente, por causa da luz pouco favorável, as fotos ficaram ruins; só vou postar essas duas.
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Chegando ao Muro das Lamentações.
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Ó eu ali, com a bolsa verde. Foto: Janaína Harada Duarte (btw, ela aparece na imagem que publiquei neste outro post)
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No Monte do Templo, chegando perto do Domo da Rocha. Reparem que tem muita gente com umas “saias” coloridas em volta da cintura; são pessoas que estavam de shorts e precisaram comprar o pedaço de lençol que mencionei aqui.
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O Domo da Rocha.
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A vista do alto do Monte das Oliveiras. O ponto dourado grande é o Domo da Rocha. No terço direito tem outro ponto dourado, que é a Igreja de Santa Maria Madalena, da Igreja Ortodoxa Russa. O branco na parte de baixo da foto é o cemitério judaico onde, segundo a tradição, ocorrerão as primeiras ressurreições no retorno do Messias.
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Outra panorâmica do alto do Monte das Oliveiras, mas agora olhando mais para a esquerda. Beijos!

(Fotos: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo)

A fé Bahá’í e o jardim de Haifa (com a ocasional trupe de ginastas russos fazendo malabarismos)

Citei aqui nesse post que, ao lado do judaísmo, cristianismo e islamismo, o druzismo e a fé Bahá’í compõem a lista de religiões reconhecidas em Israel. Dá-lhe sandálias da humildade: eu nunca tinha ouvido falar dessas duas últimas até vir para cá.

A fé Bahá’í é uma religião monoteísta fundada em 1844 na antiga Pérsia, atual Irã, por Bahá’u’lláh. Entre os ensinamentos principais estão “a crença na unicidade de Deus e da humanidade e a igualdade entre todos os membros da família humana” – para quem tiver curiosidade, encontrei um site brasileiro com bastante informação. Aqui tem uma parte que achei interessante, sobre como “as diversas religiões são em verdade uma só”.

Enfim, essa introdução foi só para dizer que um dos passeios que fizemos em Israel foi para o jardim Bahá’í, em Haifa. A gente chegou pela porta errada e no horário errado (hihi), então não pudemos entrar no templo nem acessar os andares inferiores, mas a vista lá do topo é linda (além de ser tipo o paraíso dos loucos da simetria).

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Um pouco antes da entrada do jardim Bahá’í, em Haifa. Imagina morar numa casa com essa vista! Detalhe: o que é essa mancha preta no céu? Um pássaro? Um avião? Uma espaçonave recheada de homenzinhos verdes? Nunca saberemos.
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A vista no topo do jardim Bahá’í, em Haifa, Israel.
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A ocasional trupe de ginastas russos fazendo malabarismos.
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Beijos!

(Fotos: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo)