Há cinco minutos

Meu celular toca, número local desconhecido, eu atendo, uma mulher começa a falar comigo em russo: “Добрый день”. Eu respondo, em inglês: “good afternoon”. Depois que ela faz uma longa introdução em russo, eu respondo: “hi, I’m sorry, I don’t speak Russian.”

E ela me diz, em inglês *perfeito*: “Oh, I don’t speak English, only Russian. Do you speak Russian?”

Eu: “No.”

Ela, em inglês *perfeito*: “Oh, ok, sorry, bye!”

#lifeinIsrael

Kitty

Ontem nós finalmente levamos a gata para ser castrada.

Mal chegamos à clínica veterinária e já começou o vexame. Estardalhaço, terror featuring pânico, a atendente quase levou uma mordida. Só depois que o Alex me deu um longo abraço, dizendo que ia ficar tudo bem, é que eu me acalmei, pedi desculpas e deixei eles pegarem a gata.

Ela se recupera bem.

Existe amor em Nahariya

No dia que descobri que eu não posso fazer o ulpan bet, eu fiquei bem mal. Uma colega de sala me falou – num tom que até hoje eu não sei se era condolência ou impaciência – “você pode fazer aulas particulares!”. De um jeito ou de outro, ela não tinha entendido que a minha tristeza não era pelo curso em si, afinal, realmente, eu posso continuar aprendendo hebraico de outras formas, em outros lugares. A tristeza foi pelo recado quase soletrado: “você não é querida aqui”.

(Obs. 1: o ulpan aleph, que foi esse que eu terminei no fim de dezembro, foi de graça para todos os alunos da minha sala, que são judeus. A aluna do Japão e eu fomos as únicas que pagaram a taxa de 3 mil shekels (2.829,38 reais) no ato da matrícula. O ulpan bet a gente não pode fazer nem pagando.)

(Obs. 2: todas as turmas do ulpan aleph fazem uma viagem a Jerusalém durante ou logo após o curso. Novamente, a aluna do Japão e eu somos as únicas “premiadas”: a gente não pode participar da viagem, porque ela é só para os alunos judeus. O pessoal está neste momento confirmando presença no nosso grupo no WhatsApp :/)

Fiquei chateadíssima, fui chorar no banheiro, voltei pra aula, fui chorar no banheiro de novo, voltei pra aula. Não tinha ninguém com quem desabafar, a minha colega japonesa tinha faltado nesse dia, o resto da sala estava rindo em russo (mais sobre isso no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Arrumei minhas coisas e fui embora. Botei os óculos escuros para disfarçar a cara inchada, conectei os fones de ouvido, dei play na playlist do meu casamento no Spotify para me lembrar o porquê de eu ter mudado para Israel, e fui caminhando arrastado até o ponto de ônibus, duas ruas abaixo da escola.

Estava lá sentada esperando meu ônibus, quando vem uma mulher e senta num banco próximo. O ônibus demora para vir. Fico pensando na minha situação de rejeitada e começo a chorar de novo. “A excluída dos excluídos dos excluídos. A única oriental entre os poucos brasileiros entre os muitos russos entre os todos judeus.” Snif. A mulher olha para mim. Olha pro outro lado. Pouco depois, olha para mim novamente. Acho que ela vai falar alguma coisa, mas ela olha pro outro lado. Ela olha para mim, e, desta vez, continua me olhando. Sorrindo, ela faz um sinal com a mão para me chamar a atenção e fala alguma coisa, que eu não escuto por causa da música. Tiro o fone de ouvido já sentindo um quentinho por dentro, “poxa, existe amor em Nahariya, a moça está preocupada porque eu estou chorando e quer saber o que aconteceu. Vai ficar tudo bem, Sarah Lee”.

A moça fala novamente:

Moça: (em hebraico) Que horas são, por favor?

Eu: (por dentro) HAHAHAHA.
Eu pego o celular e mostro para ela, porque me dá um branco e não lembro como dizer as horas em hebraico.

Moça: (em hebraico) Oh, você não fala hebraico?

Eu: (em hebraico) Só um pouco, mas estou estudando; sou aluna naquele ulpan [apontando para a rua de cima].

Moça: (em russo) Ah, então você fala russo?!

Sua mensagem é muito importante para nós

Este é um post de #firstworldproblems. Eu sei.

Mas é que eu tava revendo o tanto de stress das últimas semanas e cheguei à conclusão de que essa montanha não passaria de um montinho se as pessoas simplesmente fizessem o seu trabalho e levassem a sério a tarefa de responder e-mails e mensagens em geral.

Vou dar um exemplo. Só um exemplo mesmo, porque a quantidade de e-mail, mensagem e ligação que eu tenho feito ultimamente – quase tudo frustrado – pra resolver paranauês pessoais não é brinquedo, não. Fui conhecer uma empresa X. Me receberam bem, me explicaram direitinho as condições, foram solícitos, me deixaram o contato deles caso eu precisasse tirar mais alguma dúvida. Fiquei com uma ótima impressão. Aí mandei um e-mail fazendo uma pergunta Y. Nada de resposta. Quatro dias depois, reencaminhei o e-mail, pedindo uma confirmação de recebimento. Nada de resposta. Dois dias depois, enviei um WhatsApp para o responsável, que era a pessoa com quem eu tinha conversado pessoalmente. Nada de resposta – mesmo depois que as marquinhas de tique ficaram azuis.

Eu já estava imaginando um monte de cenários que explicassem por que ele não respondia. Será que os e-mails caíram na caixa de spam? Será que roubaram o celular? Será que o lugar faliu? Será que alguém da família morreu? Será que ele me passou os contatos errados de propósito? Será que ele odeia orientais e não quer fechar negócio comigo? No dia seguinte, liguei.

– Oi, Fulano, aqui é a Sarah, tudo bem? Pode falar um pouquinho? Tô ligando porque te mandei dois e-mails com perguntas, e te enviei mensagem no WhatsApp também, mas ainda não tive retorno.

– Oi, Sarah! Ah, é que eu não fiquei aqui nessa semana, e estava sem a minha agenda, então não consegui ver o que você queria; mas amanhã de manhã te respondo sem falta, pode ficar tranquila.

Assim, sussa. Daí fiquei pensando “nossa, gente, será que eu que estou exigindo demais? Porque eu sempre respondo tudo imediatamente e espero o mesmo de volta, mas vai ver que isso é mania de jornalista, que tem esse senso de urgência, né”.

Então eu postei no Facebook: “Apenas uma curiosidade: quanto tempo vocês acham aceitável uma empresa ou pessoa prestadora de serviços demorar para responder um e-mail de um cliente? Um dia? Dois? Três? Uma semana? E-mail? O que é e-mail?”. As respostas foram todas do tipo: “12 horas úteis”; “o ideal é que não passe de um turno”; “imediatamente, nem que seja para dizer que viu sua mensagem e vai te responder”.

Hm.

E o moço que disse pra eu “ficar tranquila” porque ia me dar uma resposta “amanhã de manhã”? O amanhã de manhã chegou e passou. Pergunta se ele me deu a resposta.

no-frog
Imagem: reprodução

“Ah, Sarah, esquece esse Fornecedor 1 e procura outras alternativas!”

Uhum.

Fornecedor 2: contato por mensagem no Face. Disse que “em seguida” me mandaria mais informações. Data? 13 de julho. Nunca mais me escreveu.

Fornecedor 3: contato por e-mail. Demorou três dias para responder, e, quando respondeu, fez uma proposta de orçamento que não tinha nada a ver com o que eu pedi.

Fornecedor 4: contato por e-mail. Resposta rápida, informações completas, superprofissional. Custa um rim e meio.