Precisamos falar sobre estupro – parte 3

TED talk fortíssimo do educador Tony Porter em que ele relaciona a forma como criamos meninos e os números de “proporções epidêmicas” dos casos de violência contra a mulher. Antes do vídeo, quero só deixar esse trecho da palestra:

Lembro de conversar com um menino de 12 anos – um jogador de futebol americano -, e eu perguntei a ele: “como você se sentiria se, em frente a todos os outros jogadores, o seu técnico dissesse que você joga como uma garota?”. Esperava que ele respondesse algo como “ficaria triste, bravo, com raiva”, ou algo assim. Não. O garoto falou para mim: “isso me destruiria”. E eu pensei comigo mesmo: “Deus, se ser chamado de garota o destruiria… o que estamos ensinando a ele sobre as garotas?

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+ Precisamos falar sobre estupro – parte 4

Precisamos falar sobre estupro – parte 2

Em um TED talk de 2012, o educador Jackson Katz explica por que é importante debater a violência contra a mulher – e ele bota o homem no meio da roda. Abaixo tem o vídeo (com legendas em português!) pra quem quiser ver inteiro; aqui tem a transcrição em português pra quem prefere ler; e selecionei o trecho em que ele argumenta que a gente faz as perguntas erradas diante da frase “João espancou Maria”.

Nós que trabalhamos no campo da violência doméstica e sexual sabemos que culpar a vítima é algo difundido. Dizemos coisas do tipo: “Por que essas mulheres saem com esses homens? Por que sentem atração? Por que sempre voltam para eles? O que ela estava usando naquela festa? Por que ela estava bebendo com aquele grupo de homens naquele quarto de hotel?”. Isto é culpar a vítima e há inúmeras razões para isto, mas uma delas é que toda a nossa estrutura cognitiva é programada para culpar as vítimas. Toda a nossa estrutura cognitiva é programada para fazer perguntas sobre as mulheres e suas escolhas e o que elas estão fazendo, pensando e vestindo. E não vou brigar com as pessoas que fazem perguntas sobre as mulheres, certo? É algo legítimo de se perguntar. Mas sejamos claros: fazer perguntas sobre a Maria não vai nos levar a lugar algum, em termos de prevenir a violência.

Precisamos fazer um tipo diferente de perguntas. As perguntas não são sobre a Maria. São sobre o João. Elas incluem coisas como: “Por que o João agride a Maria? Por que a violência doméstica ainda é um grande problema nos Estados Unidos e em todo o mundo? O que está acontecendo? Por que tantos homens abusam física, emocional e verbalmente, e de outras maneiras, das mulheres e garotas, e dos homens e garotos que eles dizem amar? O que está acontecendo com os homens? E qual o papel das várias instituições, em nossa sociedade, que estão ajudando a produzir homens abusadores, em ritmo pandêmico.

Porque não se trata de agressores individuais. É uma forma ingênua de entender um problema social muito mais profundo e mais sistemático. Sabe, os agressores não são monstros que saem do pântano e entram na cidade para fazer seu trabalho sujo e depois retornam para a escuridão. Os agressores são muito mais normais que isso, e mais comuns do que isso.

Então, a questão é: o que estamos fazendo aqui em nossa sociedade e no mundo? Qual é a participação de diversas instituições na geração de homens agressores? Qual o papel de sistemas religiosos, da cultura dos esportes, da cultura da pornografia, da estrutura familiar, da economia e como essas coisas se relacionam? Uma vez que começamos a fazer essas conexões e a fazer estes grandes e importantes questionamentos, aí podemos falar sobre como sermos transformadores, em outras palavras: como podemos fazer diferente? Como podemos mudar as práticas? Como podemos mudar a socialização de rapazes e as definições de masculinidade que levam aos atuais resultados? São esses questionamentos que precisamos fazer e o trabalho que precisamos realizar, mas se estivermos eternamente focados naquilo que as mulheres estão fazendo, não vamos chegar ao ponto.

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Before I die I want to…

E eis que a página do TED no Facebook sugere hoje a seguinte playlist: “Talks to watch when you don’t know what to do with your life”, risos. Achei fofo esse da artista Candy Chang, sobre as coisas importantes da vida:

“Death is something that we’re often discouraged to talk about, or even think about, but I’ve realized that preparing for death is one of the most empowering things you can do. Thinking about death clarifies your life.”

Ah! E por falar em mural de lousa / arte comunitária, lembrei disso aqui:

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Mural ¿Qué es amor? no Centro Gabriela Mistral, em Santiago, Chile. Esse centro cultural foi uma das paradas do free walking tour que fiz logo que cheguei à cidade, em 2014; foi nesse passeio que eu conheci o Alex :) Foto: Sarah Lee/Gaveta de Esquilo