You should’ve asked (“era só pedir”)

Eu nunca tinha visto tanta gente da minha timeline no Facebook repostando um mesmo link. Trata-se do “Era só pedir”, tradução que uma página brasileira fez para o “Fallait demander”, série de quadrinhos da cartunista francesa Emma que fala sobre feminismo e a (não) divisão de tarefas domésticas. Estou colando aqui uma versão “oficial” que a própria autora divulgou no site dela em inglês; e este é o site original, em francês.

“Glamour Brazil is profoundly sorry”

O que eu tenho a dizer sobre o caso da “Glamour” Brasil é que a forma como eles lidaram com a polêmica foi muito pior do que a polêmica em si. Ignorância é uma coisa; falta de humildade e de vontade de aprender é outra. O “divertido boome de olhinhos puxados” foi postado no dia 1º de novembro e a galera imediatamente começou a fazer barulho. A revista não se manifestou. Uma pessoa que aparece no videozinho ainda fez repost – agora já deletado – em seu perfil pessoal e justificou que “ninguém está ofendendo ninguém gente” quando uma internauta lhe chamou a atenção para o teor ofensivo por trás do gesto de puxar os olhos. Foi apenas no dia 4, depois que o caso ganhou atenção internacional – alô, Mashable e BuzzFeed -, que o post da “Glamour” foi apagado e um pedido de desculpas publicado. Só que o pedido de desculpas de 21 palavras, direcionado “a quem se sentiu ofendido”, gerou mais revolta ainda.

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O pedido de desculpas em português postado pela “Glamour” no dia 4. Foto: reprodução

A polêmica que poderia ter sido resolvida no dia 1 já está no dia 7. Hoje a “Glamour” divulgou um novo pedido de desculpas, desta vez muito bem escrito e articulado… Mas em inglês. E fica a impressão de que as desculpas não foram pensadas pros leitores que a revista ofendeu, e, sim, para a mídia internacional. (Mais links lá de fora: The Huffington Post, reddit, Refinery29)

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O pedido de desculpas em inglês postado pela “Glamour” no dia 7. Foto: reprodução

Enquanto isso, as pessoas que posaram no boomerang da discórdia estão bem pianinho. A única menção que eu encontrei ao assunto nos perfis de Insta das sete pessoas envolvidas foi essa troca de comentários, de ontem, em uma foto da diretora de redação da “Glamour”, Monica Salgado – que aparecia bem na frente do vídeo fazendo a careta dos olhos puxados…

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Troca de comentários de ontem no Instagram da Monica Salgado. Foto: reprodução

“Ninguém está ofendendo ninguém gente”

Vi esse post no Instagram da “Glamour” Brasil com a equipe da revista em um “divertido boome de olhinhos puxados” e a minha reação foi: NÃO SEI O Q DIZER, SÓ SENTIR.

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Imagem: reprodução

Depois vi essa troca de comentários entre uma internauta indignada e uma das pessoas que aparecem no tal “divertido boome” – que ela repostou em seu perfil pessoal -, e a minha reação foi: NÃO SEI O QUE SENTIR, SÓ DIZER.

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Imagem: reprodução

Vamos por partes:

“eu vi mas não entendi” – Respira fundo, Sarah.

“Tenho amigos japoneses” – White woman uses I Have Japanese Friends! It’s super effective! #NOT

“q moram no Japão e nunca tinha escutado falar disso” – Sério que seus amigos japoneses que moram no Japão nunca comentaram que os japoneses que moram no Japão se sentem ofendidos quando seus colegas japoneses de classe, companheiros japoneses de trabalho, desconhecidos japoneses na rua e representantes japoneses de publicações de circulação nacional fazem a careta dos olhos puxados? Hmmmmm, por que será? Por que será? Dica: porque lá isso não existe! Em país de olho puxado, ninguém faz careta de olho puxado.

“Inclusive um cara q tá na boome é japonês e o pai dele mora lá” – 1) Ahhhhh, então tá tudo beleza, galera, tem nada pra ver aqui não, vão todos pra casa, porque um japonês achou ok então todo mundo também tem que achar. 2) Nem vem ao caso na verdade, mas fiquei curiosa. Qual dos moços é japonês? O de sobrenome Carneiro ou o de sobrenome Sardenberg?

“Ninguém está ofendendo ninguém gente” – Respira fundo, Sarah (x2).

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“Só estávamos fazendo um gesto característico” – Só. Estávamos. Fazendo. Um gesto. Característico. Gesto de quem? Pra quem? Por quê? Sabe quantas vezes já me fizeram esse gesto? Não sei, né, porque não fiquei anotando na planilha no rancor. Mas o que eu posso afirmar é que ele jamais foi feito em tom respeitoso, cortês ou edificante. O único contexto é o de zombaria e chacota. “Só” um “gesto”? Uma gracinha inofensiva, talvez? Mas o que tem de engraçado no formato do meu olho? Eu não estou rindo. Vocês estão rindo da gente, e não com a gente.

“pra falar q estamos indo pro Japão” – Boa sorte.

“tô Loka pra chegar lá e aprender mais sobre a cultura pra não dar dessas mais…” – Realmente, galera, coitada da moça, ela é do Brasil, como é que ela vai aprender qualquer coisa sobre a cultura quando ela apenas mora no país que tem a maior população japonesa fora do Japão e quando só tem dezenas de descendentes de orientais deixando comentários no post da “Glamour” explicando por que eles estão se sentindo ofendidos?…

UPDATE 1: a “Glamour” e a moça do “Ninguém está ofendendo ninguém gente” apagaram seus posts/comentários.

UPDATE 2: a “Glamour” postou um “pedido de desculpas” no Instagram com a seguinte mensagem: “Não tivemos a intenção de ofender e pedimos desculpas a quem se sentiu ofendido com o post que já foi apagado”.

Precisamos falar sobre estupro – parte 4

Recomendo a leitura dessa reportagem do Huffpost Brasil, que tem uma entrevista ótima com a documentarista Leslee Udwin – ela dirigiu o “India’s Daughter”, sobre o caso da jovem Jyoti Singh, espancada, mutilada e estuprada por seis homens dentro de um ônibus em Nova Déli, em 2012. Eu cheguei a ler alguns reviews na época do lançamento e, ao saber das cenas em que os criminosos condenados não demonstravam nenhum sinal de remorso, decidi não assistir; senti que ia, literalmente, morrer de raiva. Por isso me surpreendi com esse depoimento da diretora, que diz exatamente o contrário:

O que eu senti ao invés de raiva foi uma pena profunda, e isso me chocou. Ficou muito óbvio que eles foram programados pela sociedade e são um resultado dela. Eu senti pena pelo mundo, que encoraja homens a pensar como eles pensam.

Vale a pena ler a entrevista completa; abaixo, destaco alguns trechos:

Eles [os estupradores] não são monstros. Eles não acreditavam que estavam fazendo nada errado. Para eles estuprar foi algo ‘normal’, aceitável, porque, para eles, “todos estavam fazendo aquilo”.

Em determinado ponto eu comecei a acreditar que o problema desses homens era a falta de estudos. Entre os estupradores, apenas um tinha completado o ensino médio. Então eu pensei: “ah esse é um grande problema, eles têm pouca educação”. Mas aí conheci seus advogados e vi que seus depoimentos eram muito mais chocantes. Eles tinham um ódio em relação às mulheres muito mais enraizado e profundo.

Como diz Aristóteles, “educar a mente sem educar o coração não é educação”. Nós não estamos ensinando os nossos filhos a interagir de forma respeitosa com o outro. Não estamos ensinando respeito, não estamos ensinando a quebrar estereótipos de gênero; não estamos ensinando a quebrar este ciclo, mas sim, a reforçá-lo.

Há pessoas esclarecidas e maravilhosas na Índia, e muitas delas estão no filme. Mas a cultura permite que as mulheres sejam vistas como pessoas de “baixo valor” pelos homens, e enquanto você cultivar esse tipo de pensamento, as mulheres sempre serão estupradas, traficadas, e vítimas de violência doméstica.

Se nós não educarmos nossas crianças da forma que eu acredito que elas devam ser educadas, eu não acho que nada vai realmente mudar.

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 1

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 2

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 3

Precisamos falar sobre estupro – parte 3

TED talk fortíssimo do educador Tony Porter em que ele relaciona a forma como criamos meninos e os números de “proporções epidêmicas” dos casos de violência contra a mulher. Antes do vídeo, quero só deixar esse trecho da palestra:

Lembro de conversar com um menino de 12 anos – um jogador de futebol americano -, e eu perguntei a ele: “como você se sentiria se, em frente a todos os outros jogadores, o seu técnico dissesse que você joga como uma garota?”. Esperava que ele respondesse algo como “ficaria triste, bravo, com raiva”, ou algo assim. Não. O garoto falou para mim: “isso me destruiria”. E eu pensei comigo mesmo: “Deus, se ser chamado de garota o destruiria… o que estamos ensinando a ele sobre as garotas?

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 1

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 2

+ Precisamos falar sobre estupro – parte 4