Existe amor em Nahariya

No dia que descobri que eu não posso fazer o ulpan bet, eu fiquei bem mal. Uma colega de sala me falou – num tom que até hoje eu não sei se era condolência ou impaciência – “você pode fazer aulas particulares!”. De um jeito ou de outro, ela não tinha entendido que a minha tristeza não era pelo curso em si, afinal, realmente, eu posso continuar aprendendo hebraico de outras formas, em outros lugares. A tristeza foi pelo recado quase soletrado: “você não é querida aqui”.

(Obs. 1: o ulpan aleph, que foi esse que eu terminei no fim de dezembro, foi de graça para todos os alunos da minha sala, que são judeus. A aluna do Japão e eu fomos as únicas que pagaram a taxa de 3 mil shekels (2.829,38 reais) no ato da matrícula. O ulpan bet a gente não pode fazer nem pagando.)

(Obs. 2: todas as turmas do ulpan aleph fazem uma viagem a Jerusalém durante ou logo após o curso. Novamente, a aluna do Japão e eu somos as únicas “premiadas”: a gente não pode participar da viagem, porque ela é só para os alunos judeus. O pessoal está neste momento confirmando presença no nosso grupo no WhatsApp :/)

Fiquei chateadíssima, fui chorar no banheiro, voltei pra aula, fui chorar no banheiro de novo, voltei pra aula. Não tinha ninguém com quem desabafar, a minha colega japonesa tinha faltado nesse dia, o resto da sala estava rindo em russo (mais sobre isso no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Arrumei minhas coisas e fui embora. Botei os óculos escuros para disfarçar a cara inchada, conectei os fones de ouvido, dei play na playlist do meu casamento no Spotify para me lembrar o porquê de eu ter mudado para Israel, e fui caminhando arrastado até o ponto de ônibus, duas ruas abaixo da escola.

Estava lá sentada esperando meu ônibus, quando vem uma mulher e senta num banco próximo. O ônibus demora para vir. Fico pensando na minha situação de rejeitada e começo a chorar de novo. “A excluída dos excluídos dos excluídos. A única oriental entre os poucos brasileiros entre os muitos russos entre os todos judeus.” Snif. A mulher olha para mim. Olha pro outro lado. Pouco depois, olha para mim novamente. Acho que ela vai falar alguma coisa, mas ela olha pro outro lado. Ela olha para mim, e, desta vez, continua me olhando. Sorrindo, ela faz um sinal com a mão para me chamar a atenção e fala alguma coisa, que eu não escuto por causa da música. Tiro o fone de ouvido já sentindo um quentinho por dentro, “poxa, existe amor em Nahariya, a moça está preocupada porque eu estou chorando e quer saber o que aconteceu. Vai ficar tudo bem, Sarah Lee”.

A moça fala novamente:

Moça: (em hebraico) Que horas são, por favor?

Eu: (por dentro) HAHAHAHA.
Eu pego o celular e mostro para ela, porque me dá um branco e não lembro como dizer as horas em hebraico.

Moça: (em hebraico) Oh, você não fala hebraico?

Eu: (em hebraico) Só um pouco, mas estou estudando; sou aluna naquele ulpan [apontando para a rua de cima].

Moça: (em russo) Ah, então você fala russo?!

Aquele supermercado, de novo

Um dia desses eu estava fazendo compras de emergência naquele supermercado péssimo perto de casa, esperando para pagar pelo meu ridiculamente caro ramo de cebolinhas + quatro cabeças de alho + um pacote de cenouras congeladas, que eram os únicos vegetais minimamente decentes à venda, quando alguém atrás de mim me fala “shalom!”. Levei um susto, né, porque as pessoas do meu próprio prédio não respondem “shalom” quando eu falo “shalom” para elas, e de repente tem alguém me falando “shalom” no supermercado? Virei para trás para ver quem era, e era um menino que fez ulpan comigo – um dos últimos alunos a se juntar a nós, na fase final, já. Não tive muito contato com ele, mas sei que ele era um dos melhores alunos da sala, se não o melhor. (Não tenho ideia de como – se ele já mora em Israel há um tempo, ou se ele tinha aulas de reforço depois do ulpan, ou se ele tem aquelas memórias fotográficas de gente que decora 700 cartas de baralho seguidas -, mas ele parecia ter a resposta correta para tudo que a professora perguntava!)

Enfim, virei para ver quem era e era ele, falei “oh, olá, Fulano, como vai?”, trocamos umas palavras em hebraico, e eu já começando a suar, porque não converso em hebraico desde o fim do ulpan, e chega a minha vez no caixa. Só sei que a experiência de falar com a caixa do supermercado, que já era ruim, ficou ainda pior sabendo que tinha alguém do ulpan observando tudo. Contei pro Alex depois e ele disse “ué, acho que se fosse comigo, eu ficaria mais tranquilo, afinal é uma pessoa que está na mesma situação que você e que sabe como é difícil falar em hebraico”, MAS AQUI É ANSIEDADE, MANO, eu fiquei pensando em como ele devia estar julgando se eu ia entender de primeira o valor final da compra, ou se eu ia gaguejar pedindo uma sacola, ou se eu ia desistir e falar com a moça em inglês mesmo, no fim eu dei uma nota de cem pra pagar uma conta de vinte e tantos sendo que eu tava cheia de dinheiro trocado no bolso que eu tinha colocado lá justamente porque queria gastar as minhas moedas soltas, daí a moça me deu mais um monte de trocado e um monte de moedas, eu enfiei tudo no bolso, catei minhas coisas, falei tchau e saí correndo.

Retrospectiva do ulpan: cinco meses de aulas de hebraico resumidos em 20 gifs

O ulpan aleph terminou na semana passada, e eu me dei uns dias de férias antes de começar a procurar outro curso de hebraico. Não escrevi o diário de bordo do ulpan do último mês porque a maioria do conteúdo acabou sendo de revisão para as provas finais – nas quais eu fui muito bem, obrigada; mas eu quero deixar marcado este capítulo da minha vida, então segue um post especial de gifs, porque sim.

(Gifs: reprodução)

1. Indo para o primeiro dia de aula na escola de hebraico:

Tão inocente.

2. Vendo que 99% da escola só fala russo, mas tudo bem, porque assim vai dar para aprender dois idiomas de uma vez só:

Tão, tão inocente.

3. Percebendo que você não aprender russo coisa nenhuma, que você só vai ficar sozinha com cara de bunda enquanto as pessoas ao seu redor falam em russo, escrevem em russo, riem em russo, vivem em russo:

#foreveralone

4. Quando a professora vai ensinar a contar de um a dez em hebraico, e de repente a sala toda começa a contar junto, porque eles já estudaram hebraico antes de vir para Israel e você é a única que ainda não sabe contar:

Achat, shtaim, shalosh.

5. Dando aquela choradinha básica no banheiro da escola porque você não entende seus colegas, não entende a professora e não tem amigos:

Quem nunca?

6. Chegando em casa e desabafando tudo no blog, porque você se expressa melhor escrevendo do que falando:

Leia mais posts na tag “ulpan“.

7. Se jogando nos estudos porque é o que dá pra fazer, né:

8. Quando toca uma música em hebraico na rádio e você entende uma palavra pela primeira vez:

A emoção!

9. Quando você entende uma frase inteira:

10. Recebendo o resultado de uma prova importante e vendo você foi melhor do que muitos alunos que estudaram hebraico antes de vir para Israel:

Digdin, digdin, digdin.

11. Toda vez que a professora faz revisão de um assunto e pergunta o que é a palavra “xis”, e você tem certeza que estudou essa palavra na semana passada, mas não consegue lembrar o que é:

A arte de confundir “machshev” (“computador”) com “michtáv” (“carta”), com “misrád” (“escritório”), com “messibá” (“festa”), com “missadá” (“restaurante”).

12. Na primeira vez que rola quebra-pau na sala porque os alunos não chegam a um consenso sobre qual a tradução exata de uma palavra “xis” do hebraico para o russo:

13. Na septuagésima terceira vez que rola esse mesmo quebra-pau:

14. Aprendendo a conjugação de verbos irregulares no passado:

15. Aprendendo a conjugação de verbos irregulares no futuro:

16. Tentando memorizar todos os pronomes que existem em hebraico:

17. Quando você descobre que não pode fazer o ulpan bet, mesmo depois de ter estudado pencas e batalhado para se tornar uma das melhores alunas da turma:

Voltei pra casa chorando nesse dia. Escrevi sobre isso neste post.

18. No último mês de aula, quando o merecido descanso está quaaase ali, tão perto mas tão longe:

Férias… quaase… quaaase…

19. Quando o curso finalmente termina, e você acha que vai se despedir dos seus colegas de sala assim:

Who’s bad?

20. Mas na verdade acaba se despedindo assim:

#coraçãodemanteiga.

Sendo turista em Israel quando você não é turista em Israel

Já faz algumas semanas que, na sala de aula, a gente tem feito exercícios preparativos para a prova final do ulpan, que acontece no mês que vem. Um dos temas que a gente sabe que vão nos perguntar, e que por isso temos treinado tanto a escrita quanto a fala (sim, a prova final inclui um teste oral com a diretora da escola), é: “o que você pretende fazer depois de terminar o ulpan?”. A minha resposta está na ponta da língua desde o primeiro dia: “eu vou fazer o ulpan bet” – que é o segundo nível do curso intensivo de hebraico para novos imigrantes. Eu sei que é pouco realista achar que vou conseguir um emprego na minha área aqui em Israel, mas se for para ter uma mínima chance, eu ainda preciso estudar muito o idioma; então aprimorar o hebraico é a minha prioridade pelo menos até o próximo ano.

Pois no domingo passado estávamos de boa na classe, estudando o hebraico nosso de cada dia, quando veio uma mulher do gabinete da prefeitura que cuida dos novos imigrantes, para dar um recado. Em russo. Falou, falou, falou, em russo, daí os alunos fizeram algumas perguntas, em russo, e ela respondeu, em russo (leitura complementar no post “Aprendendo russo na escola de hebraico”). Em um dado momento, a minha professora, que já sabe que eu tenho a intenção de continuar estudando, virou para mim e perguntou baixinho, em inglês: “você quer informações sobre o ulpan bet? Ela tem as informações, e acho que ela fala inglês”. Eu disse que sim. A mulher já estava virando para ir embora quando eu levantei a mão e pedi, “com licença, em inglês também, por favor”. Ela parou na porta e ficou me olhando, até que a professora explicou, em hebraico, que eu queria informações sobre o ulpan bet. Então a mulher respondeu algo em hebraico que a professora me traduziu para o inglês como: “você não pode fazer o ulpan bet porque ele é só para novos imigrantes”.

A situação é: eu não sou considerada imigrante em Israel. Pelo que entendi, a palavra “imigrante” nem existe em hebraico.

Se você é um judeu de mudança para Israel, você é um “oleh” (ou “olah”, no feminino). A palavra significa “ascendente”, e é o termo usado aqui para designar as pessoas que fizeram a “aliá” – a imigração judaica garantida pela Lei do Retorno. Diz a Wikipédia: “A Lei do retorno é uma das mais importantes leis do Estado de Israel já que concede o direito de residência e cidadania a qualquer judeu, originário de qualquer país do mundo, que deseje emigrar para o território israelense – sendo que esse direito é extensivo aos seus descendentes não judeus até a terceira geração (filhos e netos, bem como os respectivos cônjuges e filhos menores). A lei foi adotada pelo Knesset em 1950 (dois anos depois da proclamação do Estado de Israel) e declara que o país constitui um lar não apenas para os habitantes do território israelense, mas também para os judeus de todo o mundo, quer vivam em pobreza e medo das perseguições, quer vivam uma vida com afluência e segurança”.

Quem faz a “aliá” tem direito a uma série de benefícios, entre eles: assistência e consultoria com toda a parte burocrática da mudança; passagem de ida para Israel; o seu próprio teudat zehut, que é a carteira de identidade nacional, pronto para ser retirado no aeroporto logo após o pouso do avião; assistência financeira durante os seis primeiros meses no país, com possibilidade de extensão caso a pessoa não esteja empregada ao fim desse período; até 12 meses de seguro médico; estudos de graça no ulpan aleph. Tem muitas outras coisas – segue o link com a descrição completa.

Para ter uma base de comparação, se você é um não-judeu de mudança para Israel, esta é a sua lista de benefícios:

Gif: reprodução

Duas observações a respeito da minha experiência: 1) sobre o meu teudat zehut, eu não tenho nem a informação de quando vou recebe-lo. O meu processo está correndo desde o começo do ano, assim que realizamos nosso casamento civil no Brasil, e as coisas estão se desenrolando “leat, leat” (“devagar, devagar”), como se diz por aqui. Na primeira vez que fomos ao Ministério do Interior para checar o status da minha documentação, a resposta da funcionária foi “voltem em três meses pra gente ver como está [o seu casamento]”. 2) sobre o ulpan aleph, que é o que eu estou cursando agora, eu paguei uma taxa de 3 mil shekels (2.773,18 reais) no ato da matrícula. Na minha turma, as únicas pessoas que pagaram essa taxa fomos eu e a aluna do Japão; todos os outros alunos são judeus e fizeram a “aliá”.

Na sala de aula, quando fazemos exercícios do tipo “fale sobre você”, que é um tema que vai cair na prova final do ulpan, todos os alunos falam “Meu nome é Fulano, sou um oleh radash da Ucrânia”. Eu não possuo status, então a minha frase de apresentação é “Meu nome é Sarah, sou uma turista do Brasil”.

Diário de bordo do ulpan: meses 3 e 4

O diário de bordo do ulpan ficou desatualizado porque nos últimos meses aconteceram muitas coisas importantes fora da escola – viajamos para o Brasil! meu irmão casou! viajamos para Portugal! adotamos uma gatinha!; mas ainda quero deixar registrada a minha evolução no aprendizado de hebraico, então seguem aqui algumas novas observações:

Mês 3 (de 11 de setembro a 26 de setembro – não fechei um mês inteiro porque fui viajar e perdi quase três semanas de aula):

– Coisas importantes que aprendi: como conjugar os verbos no passado; preposições, muitas preposições; frases para situações do dia a dia, como agendar uma consulta no médico ou dar os parabéns a um amigo que faz aniversário; verbos no imperativo.

– Coisas que me surpreenderam: a quantidade de preposições, que não é brincadeira.

– Coisas que achei especialmente difíceis: decorar o esquema de conjugação de verbos no passado. Para conjugar qualquer verbo no passado, você precisa primeiro identificar a qual de cinco grupos ele pertence; cada um desses cinco grupos segue um método específico de conjugação, por exemplo, se for do grupo “paal”, você vai usar três consoantes do infinitivo + as vogais “a” “a” se for um verbo normal, ou “a” “i” se for um verbo cuja terceira pessoa do singular termina com a letra “hey” + a terminação de cada pessoa.

Anotações do segundo/terceiro mês de aula no ulpan. Foto: Sarah Lee/Gaveta de esquilo

Mês 4 (de 18 de outubro a 16 de novembro):

– Coisas importantes que aprendi: como conjugar os verbos no futuro; vocabulário para abrir uma conta no banco, entender um anúncio de venda ou aluguel de apartamento e procurar um emprego.

– Coisas que me surpreenderam: a vontade de sair correndo para as montanhas a cada novo texto sem vogais que a gente tem que ler em sala de aula nunca acaba.

– Coisas que achei especialmente difíceis: decorar o esquema de conjugação de verbos no futuro, que não é tão complexo quanto a conjugação no passado, mas eu perdi toda a explicação porque eu estava viajando. Depois que voltei demorei um tempo correndo atrás, e quando finalmente estava me sentindo mais confiante, começamos a aprender os verbos irregulares :/

Anotações do quarto mês de aula no ulpan. Foto: Sarah Lee/Gaveta de esquilo